terça-feira, 12 de setembro de 2017

Da eternidade




A sentença sem piedade.
Não dormirás.
Não lamentarás.
Não chorarás.
Não invejarás.
Não duvidarás.
Não padecerás.
Não calarás.
Não temerás.
Não morrerás.
Condenaram-te à juventude.



Do enforcado





A nudez desenha o corpo.
Palidez da cor da alma.
Turvam os olhos a falta.
O escuro projeta luz e sombra.
Sordidez a granel.
Noite que a noite esconde.
Da corda pende o cadáver da honradez.
A forca das convicções pende.
O fio da faca tatua a derme.
O verme cumpre suas funções.
O ritual cumprido.
A garganta seca.
A vida vaza.
A voz cala.
A pena vale.
O fim.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A pétala




Era uma flor sobre a pele.
À flor da pele, era arrepio.
Gineceu de sonhares.
Ares de abelha rainha.
Voo curvo. Circular.
Rabiscos de aros em silhueta.
Cálice. Folha. Pólen. Filete.
Desenho no vapor condensado.
Teu leite condensado em vinho.
Divina embriaguez. Santos méis. 
Desvirgindades fluidas.
A delicadeza de finos pincéis.
Da pintura, a vida. Da vida, a flora.
A tela embebida em néctar.
Era uma pétala sobre a pele.
Uma pétala, à flor da pele.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

A boca




Um convite, uma fenda.
O vermelho. A magenta.
Um farol, uma onda.
O lábio. A sonda.
Um prazer, uma língua.
O escárnio. A lasciva.
Um delito, uma diva.
O delírio. A lambida.
Um morango, uma amora.
O sabor. A mordida.
Um desejo, uma seiva.
O beijo escarlate.
A boca diamante.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Do outro lado da verdade




Do outro lado da verdade mora um homem.
O homem que mora do outro lado da verdade mente.
O homem que mora do outro lado da verdade mente porque mora do outro lado da verdade.
Do outro lado da verdade mora um homem que mente porque mora do outro lado da verdade.
Do outro lado da verdade morre um homem.
O homem que morava do outro lado da verdade.
Não é mentira.



Do pranto sintético




A poesia chora.
Lágrimas de corrupção.
Pranto de vergonha.
Choro de uma nação.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Poema pirata





Nasceu poema pirata.
Embebido em rum.
Em vez de perna de pau,
um verso de pé quebrado.
Em vez de olho de vidro,
coloridas lentes de contato.
E nem assim a realidade luzia.
Eram absurdos e mudos.
Eram tolices em série.
Eram corsários e bucaneiros.
Flibusteiros. Malasartes.
A arte dos mentirosos.

Nasceu poema pirata.
Parido de sete meses.
Quantas vezes oceanos?
Perigo de sete faces.
Quantas vezes amores?
Pirata dos sete mares.
Quantas vezes estrofes?
Tremulante desatino.
De bandeiras e caveiras.
De pilhagens e pilhérias. 
De tesouros e histórias.

Nasceu poema pirata.