quinta-feira, 25 de agosto de 2016

É



e quando o fogo queima mesmo sem queimar
é quando o fogo queima mesmo sem
é quando o fogo queima mesmo
é quando o fogo queima
é quando o fogo
é quando o
é quando
é

Haikai imóvel





De tão poucas palavras que te movem
que te penso estátua
dessas que nem aos pombos comovem



Cortes e recortes





Recorto a revista
e corto o dedo.
O sangue jorra.
Recorto a nota
e noto o corte.
O dedo sangra.
Recordo o corte
e o sangue borra.
A nota jorra.
Recorto o dedo
e noto o sangue.
Anoto a morte.



sábado, 20 de agosto de 2016

Dias de luta




Nalguns dias sou cores e teimo em colorir o mundo.
Noutros sou palavras e cismo em poetar.
Há dias de silêncio quando a meditação tenta.
E dias musicais como se os acordes me acordassem.
Para os dias teimosos eu vivo em teimosia.
Os dias calmos não me acalmam, ao contrário.
Nem os dias de lamentos, lamento muito mas não sou.
Pelos dias de aprendizado eu agradeço.
Pelos dias modorrentos eu passo rápido.
Pelos dias de paixão sou apaixonado.
E há os dias de luta, esses são todos, 
um calendário pleno, total,
uma agenda incansável a me ocupar da maldade humana.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A cara do amor



O amor tem muitas caras.
A paixão tem apenas duas.
O amor tem muitas palas.
A paixão nem tantas.
O amor tem muitas alas.
A paixão é falha.
O amor tem muitas falas.
A paixão, monólogo.
O amor tem muitas salas.
A paixão no vestíbulo.
O amor tem pétalas.
A paisão tem máscara.
O amor tem seara.
A paixão, escara.
O amor tem todo amor
que a paixão acalentara. 


Remédio amargo




Na bula da droga mora o alívio das dores.
Parece poema; carece entender.
São os males momentos prontos.
Prontos tal unguentos e mezinhas.
Na falta de fé vale a faca.
Também o vinho e o alho.
De médico, de poeta e de louco.
Cada um tem seu pouco.
E entre tantos entretantos, 
mora a certeza.
E entre tantos remédios, 
vive o frágil.
É tão fácil ser difícil.
É tão difícil ser fácil.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Dos santos últimos dias





Ao último momento da minha vida
terei sonhos, terei desejos, terei vida.
Aos meus santos últimos dias
terei amor, terei poesias, terei noites.
Não se iluda a certeira morte
que a revelia me ataque
ou que eu me borre.
Mais fácil tomar um porre
e outro começar.
Sonhos, vidas, poesia e planos,
eu os tenho e os terei.
Pois eles sou.
Pois são.
Lúcido ou não,
sonharei às últimas instâncias.
Levantarei e andarei por stratus cumulus.
Voarei entre nimbus e gotículas.
Gritarei liberdades e bordões.
Darei risadas trovejantes.
Cantarei desafinado.
Encenarei o primeiro ato.
Até esculpir ou pintar serei capaz.
E farei sempre um poema a mais.
A alegria viverei a cada momento.
O riso há de ser eterno parceiro.
O escárnio pelos covardes.
O desprezo pelos omissos.
O deboche pelos medíocres.
Que delícia ser o que sou.
Na medida ou desmedidamente.
Um ego a conferir.
Um agricultor da luz.
Um haikai, fugaz o tempo.
No máximo, darei trabalho ao seguro.
E viverei de velho.
Mendigo disfarce da criança que não cresci.