sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Da oração e da esperança




Senhor, por onde andarei amanhã?
De que me valerão as letras, os números, os mapas,
se a História está perdida em mãos de ímpios e de infiéis?
O que eu farei com os verbos flácidos de advérbios tantos?
Por quais caminhos errarei,
eis que o certo deixou de ser e a dúvida é Lei?
Dai-me, Senhor, uma esperança.
De pó ou de barro, que seja assim.
De cores vivas ou cinzas ainda quentes, seja assim.
De um vento que não venta
ou de um oceano que não navega, seja assim.
Seca a tinta da minha pena, Senhor,
e faz com que da fonte morta brotem crianças puras.
Deixo o poema.
Deixo o palco.
Pela esperança, Senhor, pela esperança.
Quem sabe, assim, se queimem pecados e pecadores,
enquanto retornam do mar os pescadores reavivados.
Quem sabe.




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mãe-gentil




Lembrança de um ventre seco
Mãe-gentil de uma natimorta
Nação sem caráter e sem perdão
Falsos ídolos
Heróis de cera
Semi-homens vazios de verdades
Rebotalhos em solo morto
Cova rasa da moral
Um círculo vicioso sob todos os infernos
Pirâmide de faraós sempiternos
Campo nada santo sem tempo nem espaço
Nem caráter
Nem perdão



domingo, 12 de novembro de 2017

Do outro lado da rua




É como se olhasse um prédio com várias e muitas janelas.
Escuras.
Uma luz acende. E apaga.
Um vidro reflete um farol.
O carro passa.
Uma cortina deixa ver um casal.
Uma nesga. 
Quase a chama de uma vela.
Os olhos forçam.
Então tudo parece um imenso dominó.
Um jogo de pedras em busca de um par.
Um vermelho esgarça o vão.
Outra cortina parece acenar.
Um espelho quase escárnio.
Como se ver de um prédio com várias janelas.



Chuva nova




Que chuva nova, de água sabida
Que chuva é essa?
Que molha olhos, que corta vidas...



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Do tédio





O tédio define a régua da paciência perdida.
O tédio é rotina com as luzes acesas.
O tédio é repetição do carimbo 
nos papéis coloridos da repartição.
O tédio é redação de tema livre.
O tédio é frase finada em exclamação.
O tédio é indivisível.
O tédio não se divide em capitanias hereditárias.
O tédio, feito convite, 
é pessoal e intransferível.
O tédio RSVP.
O tédio para mim é você.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ontem não choveu




Ontem não choveu.
Esperada, a chuva não veio.
Nem certezas pingaram.
Nem correnteza nasceu.
Ontem não choveu.
A vida seca na janela.



sábado, 21 de outubro de 2017

Fluidos




Corredeiras
por onde escorre 
vida inteira.
Quedas d´água
por onde cai
toda mágoa.
Oceanos
onde mergulham
tantos planos...