segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Leve




Não ocupa espaço a poesia,
feito vácuo
na balança dos seus dias.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Da morada no olhar




Aquilo que mora no olhar.
E nem sempre os olhos veem.
Abraço afeto antigo e rico.
E o poder não corrompe.
A fronte a estampa a marca.
E sem pudor nem memória atua.
A força que une verbo e homem.
E nem toda força do universo provê.
Aquilo que faz morada atrás dos olhos amigos.



domingo, 3 de dezembro de 2017

De lírio



Era lírio.
Era flor.
Era forte.
Era assim.
E tão assim que era toda.
Um jardim de flor única.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Da menina lisa




Quem é essa menina
que desfila impropérios
e propriamente refila
os mais exóticos papéis?
Quem é essa guria
que desliza lisa pela via
quando mostra o escondido
enquanto finge que escondia?
Quem é essa maria
santíssima do pau oco
que transtorna o quieto
e faz do são o tão louco?
Quem é essa rapariga
boa de cama, melhor de briga
que provoca vendavais
com a mesma força da brisa?
Quem é essa mulher 
perdida entre achados
que se perde quando quer
e quando não quer, não quer?
Quem é essa obra prima
prima-dona que desafia
como quem a todo encanta até que
"Cesse tudo o que a musa antiga canta"?
Ah, Camões, quem é essa catarina
que já foi menina, 
guria, maria, brisa
mulher e musa elísea?



domingo, 19 de novembro de 2017

Ao meio




Uma linha traçada a giz 
na terra de chão batido
é a fronteira ilusória do país.

Entre os bons costumes e a moral 
uma coordenada imaginária
divide a pátria do carnaval.

De crime e delito e corrupção
corta a faca sem justiça 
a fio de navalha ao meio a nação.



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Da oração e da esperança




Senhor, por onde andarei amanhã?
De que me valerão as letras, os números, os mapas,
se a História está perdida em mãos de ímpios e de infiéis?
O que eu farei com os verbos flácidos de advérbios tantos?
Por quais caminhos errarei,
eis que o certo deixou de ser e a dúvida é Lei?
Dai-me, Senhor, uma esperança.
De pó ou de barro, que seja assim.
De cores vivas ou cinzas ainda quentes, seja assim.
De um vento que não venta
ou de um oceano que não navega, seja assim.
Seca a tinta da minha pena, Senhor,
e faz com que da fonte morta brotem crianças puras.
Deixo o poema.
Deixo o palco.
Pela esperança, Senhor, pela esperança.
Quem sabe, assim, se queimem pecados e pecadores,
enquanto retornam do mar os pescadores reavivados.
Quem sabe.




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mãe-gentil




Lembrança de um ventre seco
Mãe-gentil de uma natimorta
Nação sem caráter e sem perdão
Falsos ídolos
Heróis de cera
Semi-homens vazios de verdades
Rebotalhos em solo morto
Cova rasa da moral
Um círculo vicioso sob todos os infernos
Pirâmide de faraós sempiternos
Campo nada santo sem tempo nem espaço
Nem caráter
Nem perdão