quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Francisco






santo
homem
manto
e nudez santa
mantra
mentor
e mestre
servente e
senhor
de si
de mim
de sol

De são Francisco
a lição:
perdoar...





terça-feira, 30 de dezembro de 2008

hai-kais 2008




Retrospectiva
Antes morta
Agora viva



Os olhos enxergam o vazio
Vazio, vazio
Vazio



Três versos
Guardam
Um universo



Cenário:
Guardaram o esqueleto
No armário



Estilo é a estrela
Que brilha
Sem etiqueta...


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Conto rápido de Natal





Há muito tempo, mais de trinta anos – para ser mais preciso –, um jovem poeta escrevia, todos os finais de ano, pequenos contos natalinos. Uns, baseados em fatos reais, corriqueiros até, transplantados para o solo fértil das festas do Natal e do Ano Novo mostravam sinais de esperança e de fé – tão parecidas, tão diferentes. Outros desses pequenos relatos eram completamente fictícios e nem por isso traziam mensagens diferentes. Era momento de reflexão. De balanço. De anseios e desejos dos mais diversos.

Personagens de carne e osso então conviviam com figuras fantásticas em perfeita harmonia. Não havia barreira entre o real e o virtual – paralelo que nos dias de hoje, neste 2008 que quase acaba, parece acentuar-se e ganhar força em um mundo onde as fronteiras são cada vez menores, o planeta mais uno, as pessoas menos afetas aos preconceitos e às pequenezas.

Ambiente ideal para apenas narrar o que os olhos observaram e o coração sentiu durante os quase trezentos e sessenta últimos dias. Como se a cada dia correspondesse um grau no transferidor imaginário com que procuramos os melhores ângulos – ou para analisarmos uma questão, ou apenas para tirarmos uma fotografia.

Sem delongas, foram dias de certezas e incertezas. Dias de ânimo e desânimo. Dias de pranto e riso. Dias de perdas. Dias de vitórias. Dias de ir à escola. Dias de trabalhar. Dias de erguer louvores. Dias de se deixar levar. Dias de assistir a novela. Dias de ver futebol. Dias de cantar prazeres. Dias de pesar. Dias de namorar. Dias de romper. Dias de atar e desatar. Dias de festa. Dias de dor. Dias de expectativas. Dias sem perspectivas. Dias de versos. Dias sem prosa. Dias de diálogos. Dias de monólogos. Dias ruidosos ou dias silenciosos. Dias inteiros e dias de meios-dias, meias-noites, meias palavras... Dias inteiros de alegrias. E dias de recolhimento. Dias de ser, dias de não ser. Dias de ser ou não ser – a questão persistente. Dias de confessar. Dias de penitente. Dias de sorrir com os olhos. Dias de olhar sorridente. Dias de entender. E dias de tentar entender. Dias de protagonista. Dias de coadjuvante. Dias de vinte e quatro horas. E dias intermináveis. Dias calmos. Dias inflamáveis. Dias úteis. Dias inúteis. Dias inesquecíveis. Dias memoráveis. Dias de todos os santos. E dias de todos encantos. Dias de tudo: independência, páscoa, finados, consciência. E dias de nada, que nem anjo da guarda têm.

Por falar em anjo da guarda, vou fazer aqui um pequeno pedido ao meu. Mais um, eu sei. Peço demais, dou tão pouco. Mas, atrevido, peço um ano novo de dias melhores. De pessoas melhores. De mais amor. Pode parecer babaca, oportunista ou piegas. Mas é assim, com essa simplicidade de quem ainda tenta escrever contos natalinos, que eu queria transformar meu anjo da guarda em Papai Noel e encher de esperança aquela meia vermelha que pende insistente na porta do armário.

Para não parecer que essa história não tem outro personagem que não eu mesmo, vou mentalizar cada amigo, cada amiga, cada irmão de carne ou espírito, cada criatura que compartilhou comigo e confraternizou nos dias deste ano, sem pensar em dia especial para isso. E tentarei fazer desse texto momento igual ao que o menino eu fazia sentado num pequeno quarto, aos seis anos de idade, evocando seus heróis para uma festa sem igual. Vou fazer isso agora, pensando em você, em mim, no ano novo e no Natal.

Se eu chorar, é de felicidade.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Meus personagens




Meus personagens bebem, fumam e fazem sexo.

Meus personagens não tem nexo.

Meus personagens têm insônia.

Meus personagens nem por isso deixam de tomar café.

Meus personagens são hipertensos.

Meus personagens detestam ir ao médico.

Meus personagens andam cabisbaixos.

Meus personagens têm altos e baixos.

Meus personagens odeiam rimas pobres.

Meus personagens não aderiram à nova gramática.

Meus personagens eram D em matemática.

Meus personagens nacem de improviso.

Meus personagens nascem de nove meses.

Meus personagens morrem sem pedir licença.

Meus personagens são eternos.

Meus personagens são ternos.

Meus personagens têm todas as idades.

Meus personagens tem personalidade.

Meus personagens fazem anos.

Meus personagens não têm planos.

Meus personagens são humanos.


domingo, 7 de dezembro de 2008

Chocolate





Chocolate das minhas noites
Chocolate dos meus dias
Chocolate derretido na boca
Chocolate doce, doce
Chocolate amargo, meio amargo
Chocolate ao leite
Chocolate delicioso
Chocolate com castanhas
Chocolate com pimenta
Chocolate branco
Chocolate cacau
Chocolate derretido na boca
Chocolate sensual
Chocolate sem igual
Chocolate chocolate...


terça-feira, 18 de novembro de 2008


De pensar que a vida é certeza perdemos a noção da própria vida. É tão difícil aceitar o inevitável. Vagamos por uma avenida sem rumo ao imaginar que o caminho está traçado. Desconsideramos o implausível. Sequer o livre arbítrio nos absolve do imponderável. Só existe uma verdade: se quisermos ser superiores à mudança devemos ser mutantes. Jogar o jogo sem regras. Viver a vida que se apresenta momento. Especial e totalmente, buscar o Bem. Fazer o Bem. Pensar o Bem. E jamais desistir do Bem. Peço licença à Poesia. A vida me mostra no presente que a miopia é menos cruel que a apatia. Não miro a estrela neste momento: guardo apenas meus olhos naquilo que está ao alcance de minhas mãos. Obrarei, trabalharei, moldarei esse presente com a Caridade e a Bondade possíveis. Depois é apenas futuro.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

LUTO












Recebo triste
Nota de falecimento futuro
São indefesos
São muitos
São tantos
Em perigo
Vulnerável
Crítico
Ameaçado
Mico-leão-dourado
Morcego-do-cerrado
Arara-azul
Saúva-preta ,
Águia-cinzenta
Perereca-verde
Tartaruga-oliva
Albatroz-real
Jaguatirica
Pixoxó
Sabiá-castanho
Pintassilgo-baiano
Veado-bororó-do-sul
Maria-catarinense
Maria-do-nordeste
Maria-da-restinga
Macuquinho-do-brejo
Sagüi-da-serra
Tico-tico-do-campo
Cobra-de-vidro
Besouro-rola-bosta
Borboleta-palha
Flamenguinho
Soldadinho
Mono-carvoeiro
Gravatazeiro
Papagaio-de-peito-roxo
Gavião-do-rabo-preto
Bacurau-de-rabo-branco
Beija-flor-das-costas-violetas
Inhambu-carapé
Gato-do-mato
Baleia-jubarte
Onça-pintada
Suçuarana
Ariranha
Bugio
Macaco-aranha
Muriqui
Logo-guará
Jorge-stark


segunda-feira, 3 de novembro de 2008





Um lápis rabisca as letras
Da palavra escrita

Risca, não risca, risca...


Uma borracha apaga as marcas
Da palavra não-dita

Fica, não fica, fica...


Uma tristeza lamenta as horas
Da palavra perdida

Vida, não vida, vida...


sexta-feira, 24 de outubro de 2008



Às vezes a poesia escapa aos dedos
Como se fosse areia,
Em pequenos grãos...
Às vezes escapam os medos.



Quem entorna a ampulheta da vida?



sábado, 18 de outubro de 2008

Pílulas



quem dita o que é útil
o que é inútil?
é preciso rever conceitos
rever e reviver
reviver e viver
viver a minha lista de inutilidades
nem caldas novas nem new york
nenhum lugar é melhor que viver aqui
viva o guaraná com pastel
viva o mundo real
viva o medo
viva a insegurança
viva a felicidade simples do presente
viva a filosofia pura de todos os tempos
viva a imaginação
quantos vivem essa felicidade implícita
coberta de simbolismo e profundidade?
apenas aqueles que vivem a verdade
a verdade de viver...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Vigília





Oração. Prece. Ladainha.

Santos, santas.

Clara. Francisco. Expedito. Judas Tadeu. Bárbara.

Omulu. Xangô. Oxóssi. Oxóssi. Ogum. Iansã.

Tantos, tantas.

Cânticos. Cantigas. Tantras.

Em nome do Pai.

A energia guerreira.

A cercania. Os arrecifes. A fortaleza.

A ilha: vigília.



domingo, 28 de setembro de 2008

dois haikais




acidentalmente
me encontrei
no oriente



incidentalmente
abracei
o sol nascente

sábado, 27 de setembro de 2008

Palavras




Palavras soltas
Palavras presas
Palavras mortas
Palavras vivas
Palavras quentes
Palavras frias
Palavras fortes
Palavras vazias
Palavras duras
Palavras fáceis
Palavras puras
Puras palavras...

domingo, 21 de setembro de 2008

Três crônicas e um sermão (a Lourenço Diaféria)



Conheci Lourenço antes de conhecer Lourenço Diaféria. Na igreja Nossa Senhora do Rosário da Pompéia, falando aos adolescentes. Já o admirava quando o descobri jornalista. Passei a idolatrá-lo (logo ele, tão simples, tímido até) quando foi preso pela ditadura militar, em 1977, após escrever a crônica “Herói. Morto. Nós” em que narrava a morte do sargento Silvio Hollenbach que, no zoológico de Brasília, atirou-se no fosso das ariranhas para salvar um menino.

Dois anos depois fui fazer faculdade de jornalismo. Nunca deixei de ler Diaféria. Anos depois, quando resolvi ter meu “Jornal da Pompéia” (meu e do meu amigo Morandini, que andorinha só não faz verão), o número um do jornal trazia uma crônica do Lourenço Diaféria, presente aos jovens editores. Tristemente, o “JP” durou pouco, mais vítima dos planos econômicos do que da previsão do cronista que desejava vida longa ao tablóide – se ele passasse do primeiro ano.

No ano passado, passeando em uma dessas megalivrarias, comprei um livro do Diaféria contando a história do Brás, bairro paulistano onde ele viu a luz. Deliciosa crônica de vida e história da minha querida São Paulo.

Esta semana, me contaram que Lourenço morreu. Vou para o Google encontrar uma foto dele para postar aqui. Coisa engraçada. Entre tantas, uma imagem de Jesus.Descubro “O Sermão da Montanha” recontado por Lourenço Diaféria. Esqueci a tristeza: os dois cronistas estão juntos, em algum lugar do Paraíso. Que não fica nem tão perto, nem tão longe do Brás que a gente não possa se encantar com o destino dos bem-aventurados...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Reflexos



espalho
espelhos
pelas celas
espelho
espaços
pelos céus
explico:
seus passos
meus véus


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Haikai



noturno ensaio


a mão desliza


o frio desmaio





quarta-feira, 13 de agosto de 2008




De cor e sabor
a manhã
é rósea e acre


Não se sabe bem ao certo
onde o sol nasce


Não se diferenciam
o sal
o doce
o mel
o ácido
o sol


Em cor e sabor
a manhã
é una e uma


Não se conhecem os sentidos
as direções
as emoções


Não se espreguiçam
os corpos
apenas retos
apenas ritos


Por cor e por sabor
a manhã
é sonho desperto


Não se conhecem os dias
não se dedicam os poemas
não se aprendem as lições
mas a manhã tem cor e tem sabor.


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Urbe et Orbi


Às vezes não sei exatamente onde estou. Sei que são cidades. Sei que são espaços. Sei que não é o meu lugar. Não sou evidente. Não sou claro. Não sou certo. Às vezes fico sem saber qual lugar ocupo. Não sei se ocupo lugar no espaço. Nem bem sei se sou...

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Sampa




Vejo São Paulo por todos os lados

Por todos os ângulos

Pelas retas

Pelas curvas

Pelos cantos

Côncavos

Convexos

Vejo São Paulo por todos os sexos

Feminina metrópole

Masculino espaço

Vejo São Paulo por todos os traços

...


Me vejo em São Paulo por todos meus passos...



terça-feira, 29 de julho de 2008

POA...

Porto Alegre mesmo com chuva.
Aprendo coisas gaúchas.
Quintana morou aqui no Majestic. Aqui, ao lado.
Conheci Quintana há tempos atrás. Um poeta na imagem, no carinho, na boina.
Heresia querer brincar de poeta ao lembrar Quintana.
Mas da heresia à poesia é uma rima.
Prima. Primas entre si. Como certos números.
Porto Alegre mesmo com chuva.
Em cada poça, reflexo, reflexão.
Porto Alegre mesmo com chuva.
Parto alegre: São Paulo ainda hoje.
Se Deus quiser, com garoa...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Grafite


Nasceu olho,
virou peixe.
Nadou até a parede
e parou,
ponto e vírgula.

Então, pipa,
voou até as reticências das nuvens.

quarta-feira, 23 de julho de 2008


A vida toma rumos que não combinam com a gente.
Por isso, às vezes, transgredir é tão bom.
É o protesto gritante contra a soberania e a soberba do destino.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Mais um haikai





furtivo ou furtado
no meio da tarde
beijo um beijo roubado

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Rupturas




Por quem me tomas?
Por quem tu choras?
Por que me tocas?
Por que tu partes?
Por que me aturas?


Rupturas...


terça-feira, 15 de julho de 2008

As cartas

Ouros
Copas
Paus
Espadas

Enquanto teu coração joga comigo
Eu sozinho brinco de paciência...

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Errada...


Não fossem os faróis a se aproximar
Poderia jurar
Que o mundo abriu mão do movimento
Eu só lamento
Tamanha e triste escuridão
Então
Banhada em mentiras e incertezas
Clarezas
De quem da vida abriu mão
Senão
Por outro motivo que não a farsa
Disfarça
Finge que nem é contigo
Não brigo
Apenas penetro quieto e me jogo
Me afogo
Na tua morte malfadada

Errada...

domingo, 13 de julho de 2008

sábado, 12 de julho de 2008

Objetivo



... e no diálogo de São Jorge com o Dragão, pergunta o Santo – “O que, afinal, pretendes?” ao que o fantástico animal responde: “Santificar-te”.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

+ 3 haikais


...


noturno ensaio
a mão desliza
o frio desmaio



a úmida gota
doce ácido acre
teu sabor esgota



estrelinhas...
e um poema
de três linhas



...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Imagens


Uma imagem vale mais que mil palavras

Uma imagem vale mais que mil

Uma imagem vale mais que

Uma imagem vale mais

Uma imagem vale

Uma imagem

Uma


A natureza tem olhos de verdade

A natureza tem olhos na verdade

Que nem as amarras,nem as grades,

nem as mentiras abalam


Os olhos da natureza encaram

Os olhas da natureza imploram

Os olhos da natureza exalam

Verdade por todos os poros


E nesses vãos e desvarios

E nesses vôos e desavisos

Os olhos da natureza alertam

As amarras que a verdade ignora


Quantos olhos ainda terei que chorar?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Uns poucos fios



Dores, as tive

Ainda assim, vivo, mantive

Alguns fios de esperança

Alguns fios de cabelos...


Procuras, procurei

Quando encontrei, perdi, recuperar tentei

Alguns fios de cabelos

Alguns fios de esperanças...


Assim teço minhas histórias

Assim perdi minhas glórias (em falsas rimas)

Alguns fios de esperança...

Alguns fios de cabelos...


domingo, 6 de julho de 2008

Três haikais, versos curtos, originais




entrelinhas
entre as tuas pernas
e as minhas


a boca beija
o tátil toque
a vida enseja


flor aberta
gineceu
a flora incerta

No princípio era o começo...

Quantas vezes começar.
Primeiro passo.
Primário.
Partida.
Início.
Ponto zero.
Pontapé inicial.
Começo.
Estréia.
Lançamento.
Largada.

A lista vai longe.

Faz tempo que eu queria ter um blog.

Hoje eu tenho.

O dia é hoje.

Bom dia.
Bons dias...