quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Tempos




De novo, renovação

Refazimento, reinvenção

Não me importa o tempo

Não me impressiona o passado

Vale apenas a nova impressão:

Imprimo em mim mesmo

A doce etiqueta

- REINVENTADO -



terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Da dor




A dor é fria. Falta. Feia. A dor é muita.
A dor é seca. Sacra. Cepa. A dor é tanta.
A dor é forte. Fica. Farta. A dor é santa.
A dor é faca. Finca. Fura. A dor é sangue.
A dor é veia. Vaso. Via. A dor espalha.
A dor é toda. Tesa. Seca. A dor espelha.
A dor é lava. Leva. Queima. A dor arrasta.
A dor é corda. Nó. Forca. A dor aperta.
A dor é rígida. Dura. Áspera. A dor arranha.
A dor é física. Pele. Nervos. A dor perpétua.
A dor é tanta. Tamanha. Tônica. A dor espanta.
A dor é peso. Pesa. Bate. A dor espanca.
A dor é surda. Grita. Vaga. A dor abafa.
A dor é muda.Vácuo. Nada. A dor silente.
A dor é vala. Funda. Fenda. A dor despenca.

A dor é morte. Fim. Fato. A dor acaba.


sábado, 26 de dezembro de 2009

2010


Uma odisséia: prever o ano que se aproxima.

Não me atrevo a tanto.

Ainda assim - e para não perder o atrevimento, que não sou homem de desperdiçar caminho -, vou fazer minha lista de desejos - e que no fundo são previsões do esperado.


Que 2010 nos traga:


1) Mais Justiça, com jota maiúsculo

2) Menos violência, sempre minúscula

3) Paz, maiúscula

4) Felicidade, acima de todas as coisas

5) Trabalho para todos

6) Desigualdades decrescentes

7) Respeito em todos os sentidos

8) Eleições limpas, políticos honestos (hummm... difícil essa...)

9) Ética sem necessidade de códigos

10) Liberdades de expressão, escolha, pensamento...

11) Consciência humana - primeiro teu próximo, depois teu planeta

12) Energia humana - cada um dando o melhor de si

13) Religiosidade humana - volta-te àquilo que acreditas ser divino

14) Humanidade - o resgate daquilo que somos

15) Inteligência nas nossas atitudes

16) Poesia nas nossas almas

17) Humor nas nossas jornadas

18) Romance nas nossas relações

19) Amor nas nossas vidas


Que 2010 seja um ano ímpar, ainda que par - prova de que até a matemática é mais flexído que qualquer duro e triste preconceito.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Azuis (ao dia das crianças)





tem uma lua no céu
e no céu que eu desenho
tem também um sol

e no meu desenho
tem uma estrela no céu
onde tem uma lua
onde tem também um sol

e no meu desenho
de sol, lua e estrela
tem um pássaro voando,
um pequeno passarinho
voando entre a estrela,
o sol e a lua,
num céu de sonho,
um céu branco de nuvens azuis.



domingo, 11 de outubro de 2009

Cego





Os olhos brilhantes da cegueira
Brilham os olhos na escuridão
Brilham os olhos que não são

Os olhos brilhantes da cegueira
Brilham os olhos que não são
Guiados pelos dedos de outra mão

Os olhos brilhantes da cegueira
Brilham os olhos tocam as mãos
Guiam os dedos na escuridão

Os olhos brilhantes da cegueira
Guiam os olhos que brilho são
Pelos dedos os olhos da escuridão



Ponto de equilíbrio




Há uma poesia escondida no silêncio,

guardada onde apenas os puros de espírito conseguem chegar,

preservada no misterioso líquido

que penetra as fendas dos nossos espaços abertos

e nos preenche de sonhos

- como fazer da água, vinho

e, do vinho, leite...

Então nos descobrimos mensageiros

de uma simplicidade que em duas ou três palavras se explica:

eu amo você...

Mais que isso é desnecessário.

Menos, impossível.




terça-feira, 29 de setembro de 2009

A sagração da primavera





Fossem apenas as flores e bastava.
Mas a primavera faz questão de fazer renovada a vida.
Mais que estação, mudança.
Mais que tempo, eternidade passageira.
Redescoberta.
Aquarela de tons fortes.
Avivadas nuances.
Pequenas fadas emergem.
Pontilham o solo com luzes.
Seres lúbricos flutuam o ar.
Ilusões vivas.
Sempiternas.
Semprevivas.
Baile mágico.
Música flor.

Fossem apenas as flores e bastava.

Mas a primavera...



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Primavera


à primavera, eu apenas digo


com uma flor

que ela esperada foi...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Saudade...



... lugar de passear era no parque
... a poesia era escrita em guardanapos
... nosso maior medo eram as provas de gramática
... a televisão era em branco-e-preto
... se andava de bonde do centro ao bairro
... namorar era pegar na mão e dar cheirinho
... o Henfil era vivo
... a vida fácil era apenas a praticada nas esquinas – e já era difícil
... cantava-se o Hino Nacional na escola
... não se falava em colesterol
... não se falava em violência
... não se tinha medo de andar a noite na rua
... fusca era sinônimo de carro
... opala era sinônimo de automóvel
... kombi era sinônimo de perua
... japonês tinha quitanda
... português tinha padaria
... espanhol era anarquista
... piada de papagaio fazia sucesso
... sonhava com jacaré e jogava no bicho
... tinha palpite e tentava os treze pontos na loteca
... era bom brincar de escravos de Jô
... telefone de lata era meio de comunicação
... se disputavam peladas na calçada
... era possível andar de bicicleta na rua
... pescar na represa era programa de fim de semana
... a gente tinha avô e avó
... usava minâncora contra espinhas
... remédio eram arnica e pomada de ictiol
... viagem para a praia era uma aventura
... radionovela emocionava
... se ia do pranto ao riso em dez segundos
... de madrugada se ouvia o guarda-noturno apitar
... a gente tocava a campainha das casas e saía correndo
... a lâmpada da rua era incandescente
... tinha coreto e footing na praça
... tomar sorvete não dava gripe
... bolacha era maria ou maisena
... biscoito tostines vendia mais porque era mais fresquinho e era mais fresquinho porque vendia mais
... existia Papai Noel
... nosso céu tinha mais estrelas
... era possível encontrar a esperança perdida
... a gente se apaixonava simplesmente
... simplesmente a gente amava
... e assim a vida era vivida, vívida, vida...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Da natureza






Palavras e folhas
Secas
Ao chão.

Promessas mortas.

Ações e flores
Frescas
No caminho.

Atitudes vivas.

Na vida revivida,
A frescura sempiterna,
A força da natureza.

Naturalmente...

sábado, 29 de agosto de 2009

nova




Mulher nua

a lua não é

mais tua...



quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Sinais




Umas poucas palavras
Tão suficientes

Um riso
Um sorriso

Mãos toques
Choques

Águas
Cafés

Tanto viver
Quanto ser

Poema
Poesia

Letra e música
Melodia

Mandalas e xamãs

Um canto: encantar
O violino: sonhar

Mais um sonho impossível
Mais um olhar sensível

Quantos sinais
Tantos sinais...



sábado, 22 de agosto de 2009

Meu amigo


Fiz um novo amigo. Um amigo do povo-em-pé.


Escolhi e por ele fui escolhido entre centenas de árvores e centenas de homens que caminham pelas trilhas com ou sem destino. Um eucalipto nem baixo nem alto – uns sete, nove metros –, nem moço nem velho, nem frondoso nem nu, nem imponente nem tímido.


Uma árvore com parte do tronco descascado que, num abraço, abriga meu rosto com carinho na lisa alma e me aceita e me afaga e me recebe com um calor solar. Depois de encontrar o novo amigo, as sombras das outras árvores passaram a me confortar com suave frescor – e não mais o medo do escuro. As árvores maiores e as menores respeitam-me quando por elas passo, como se dissessem: “lá vai um ser de duas pernas nosso amigo”. Arbustos mostram-se floridos e flores incomodadas por pássaros e abelhas pontuam a trilha por onde caminho. As encruzilhadas não mais me desafiam: passaram a fazer parte da minha jornada e as escolhas tornaram-se nada difíceis.


Meu amigo do povo-em-pé empresta-me suas raízes para eu encontrar as minhas. Faço delas a atração dos meus antepassados que, singelos como as folhas secas que cobrem o chão em volta do meu amigo, circundam meu coração e atendem meu pedido de respostas às minhas dúvidas, às incertezas, às perguntas recorrentes que eu persisto em buscar-lhes verdades. Uma dessas folhas, deu-me meu novo amigo de presente; ela agora mora discreta junto com pequenos ramos que decoram e energizam minha morada. Forma-se assim uma rede de presença e comunhão entre as forças da natureza. Uma força saneadora, saudável, positiva e encorajadora passa a conduzir-me.


Por tudo isso agradeço a amizade concedida pelo eucalipto, esse ser que brota entre os demais membros do povo-em-pé e deles se distingue por ser o meu amigo. O amigo que me tornou irmão e, irmão, aceito pela Mãe Terra como filho legítimo e amado.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Amanhã



Havia mais que uma lua matinal.

Matinal, intrometida,

ousada, encantadora.


Havia mais que um poema matinal.

Natural, improvisado,

desperto, encantado.


Havia um santo são Jorge.

Havia um santo dragão.

Havia uma santa lança

e uma história a viver.


Havia mais que a manhã.

Havia amanhã.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Manhã





Manhã.
Um ipê chora flores.
As folhas secas já se foram.
Restaram gotas amarelas.
A saudade tem cor.
O tempo é amarelo.
O sol avermelha os olhos.
O azul celeste abriga contrastes.
Um raio solto brinca com os vidros e espelha um arco-íris de mentira.
Nem sei se meus olhos são verdes ou azuis.
Nem isso eu sei.
As cores da manhã me fazem bem.
Colorem minhas dúvidas.
Enchem de matizes meus pensares.
Aquarelam as respostas.
De alguma forma indefinida, tênue, desfocada,
preenchem o branco da existência
com suaves linhas de verdade.
Manhã.
As lágrimas são transparentes como eu.

sábado, 18 de julho de 2009

Carta de São Paulo




Sampa, 18 de julho de 2009. O céu azul tem nuvens claras. A construção vizinha começou a trabalhar antes das sete da manhã. Faz calor. Pela madrugada, um frio suave gelou os pés. As malas estão pela sala, prontas para partir. Idas e voltas. Mais uma vez, a cidade me acolheu. Mais uma vez, senti-me acolhido e escolhido. São Paulo faz essa poesia comigo. São Paulo me faz poeta. Faz-me despertar de uma letargia tímida para uma euforia ousada. São Paulo me dá as cores fortes e os tons pastel que matizam um cotidiano pleno de surpresas ou obviedades – até estas, surpreendentes às vezes. É óbvio que São Paulo comove. Move também pessoas, trens, ônibus, nuvens, sonhos, lendas, personagens, ideias, ideais. Dá vida a pessoas de verdade e verdadeiramente coloca bonecas infláveis pelos caminhos, qual obstáculos em videogames. Esse foi comentário em uma das fotos que publiquei nestes dias, uma foto da Galeria do Rock, aquela da 24 de Maio: “parece um fliper”. São Paulo bem que poderia ser mesmo uma máquina de pinball: subidas descidas ladeiras perigos bônus buracos pontos máquinas luzes buzinas rumores amores bola extra zeros zeros zeros milhões milhares game over. São Paulo S/A. Sociedade anônima. Anônimos paulistanos. No metrô, no viaduto Santa Efigênia, no shopping Light, na Paulista, na Pinacoteca, no 7272 – Pompéia-Praça Ramos, na praça da República, na Liberdade (ainda que tardia), pelas ruas, avenidas, becos, escadarias, alamedas, parques, pela vida. São Paulo por todas as razões e motivos e esperanças e lembranças e recuerdos. Comprei um cartão postal da cidade. Tirei fotografias. Mirei por mirantes e janelas. Passei pelo Jaraguá. Cortei os eixos de sul a norte, de oeste a leste. Fui comer pizza na Mooca, sanduíche de mortadela no Mercadão, torta de chocolate no Viena, tomar café na esquina da Heitor Penteado... Engordei na minha dieta. Anoréxico, quase magro, rosto chupado, esquálido... São Paulo me viu assim e estranhou. Feio? Bonito? Saudável? Quantas opiniões. São Paulo me devassa, devasso e puro. São Jorge do Araçá que me abençoe: antes de morrer, pretendo viver São Paulo de muitos pecados e algumas bondades. Amém.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Itinerário




Nasci na maternidade São Paulo
no Bexiga da Bela Vista – onde
vi a luz e chorei pela primeira vez
Morei na Marechal Deodoro
na Santa Cecília – num apartamento
de dois quartos, sala, banheiro e dependências
Conheci o Centro indo de bonde até a 7 de Abril onde, de dentro da livraria Stark, conheci o mundo e de fora, Chatô, o Olido, o Metro, o prédio dos Correios
Estudei na República, caetanista graças a Deus, de onde vi os secundaristas, a ditadura, Elisabeth 2a., a Copa do Mundo de 70, as luvas brancas de Adhemar de Barros, as primeiras meninas, pequenas paixões
Então fui para a escola técnica na Barra Funda que depois mudou para o Canindé
Mudei para a Pompéia, o umbigo do mundo: rua, futebol, adolescências, primeiras vezes, rock, cigarro, carro, amigos, incertezas, poesia, liberdade
Entrei para a Academia Juvenil de Letras que ficava na Consolação – que ilusão
Comecei a trabalhar no Cambuci, na rua do Lavapés
Entrei para a faculdade na Paulista – avenida dos meus delírios, dos bares do Gemini, dos colírios que não se fabricam mais
Casei e voltei para a Praça Marechal, cansei de tanto barulho e fui acordar ouvindo os pássaros na Freguesia do Ó, não agüentei tanto silêncio e mudei para a Pompéia, o umbigo do mundo
O trabalho saiu da Lavapés e foi para Pirituba, depois eu saí de Pirituba para a Granja Julieta e daí pra qualquer lugar
Pinheiros, Pedreira, Berrini, Cerqueira César... trabalho é tudo igual
Quando percebi, estava em Brasília e
agora São Paulo são uns dias na vida para rever meu itinerário
BexigaSantaCecíliaCentroBarraFundaCanindéConsolaçãoCambuciPaulistaFreguesiaPompéiaPiritubaGranjaPinheiros(Brasília)Araçá

domingo, 12 de julho de 2009

Haikai




A poética de repente:
De repente a poesia
Invade a mente


sexta-feira, 10 de julho de 2009




Vi uma estátua de uma mulher de verdade
Vi uma estátua de uma mulher
Vi uma estátua
Vi, eu vi...

Então vi uma lua que não era minha
Então vi uma lua que não era
Então vi uma lua
Então vi, eu vi...

Vi uma cidade inteira a me conquistar a emoção
Vi uma cidade inteira a me conquistar
Vi uma cidade inteira
Vi, eu vi...

Então vi uma rua que não era a minha
Então vi uma rua que não era
Então vi uma rua
Então vi, eu vi...

Vi uma mulher de verdade
Vi uma lua
Vi a conquista da cidade
Vi minha rua
Vi, eu vi, vivi.








quarta-feira, 8 de julho de 2009

Horror - Banco Real



É muito triste usar um espaço nobre como este com uma atitude tão pobre como a do Banco Real. Mas a verdae deve ser espalhada aos quatro ventos para que todos estejam preparados para situações como a que passo.

Em viagem de Brasília a São Paulo desde domingo, 5 de julho, tive meu cartão de crédito e débito cancelados SEM QUALQUER NOTIFICAÇÃO, AVISO, ALERTA.

Desde essa data, o banquinho Real, por meio de diversas portinhas e compartimentozinhos que existem e não se conversam entre si, dá prazos para a solução do problema que variaram de 24 a 192 horas. Isso numa situação EMERGENCIAL.

Os gerentes Van Gogh deviam ter suas orelhas cortadas. Não servem para nada. Não resolvem nada. Comprometem-se e não cumprem.

Aliás, de nada serve ser cliente Van Gogh.

A única coisa em que o banquinho (sur)Real conseguiu até agora foi me deixar sem cartão, mandar eu arrumar alguém que tivesse conta para fazer uma transferência e sair com dinheiro vivo pela cidade de São Paulo e cansar-me em longas esperas com a famosa musiquinha irritante. O tema do banquinho (sur)Real, provavelmente.

Imaginem a minha situação, eu que vejo minhas férias escoarem sem poder fazer meus programas e minhas compras em São Paulo, mendigando em lojas para que "aceitem um sinal até o banco entregar o cartão", sem saber sequer como farei para pagar o carro que aluguei.

Que este testemunho sirva de exemplo de como um banco consegue ser incompetente no serviço mínimo que deveria prestar ao seu cliente.

Finalmente, uma ironia: entre os muitos péssimos atendimentos (depois de incansáveis confirmações de: cpf, rg, data de nascimento, idade, nome da mãe, endereço, telefone, sua conta é paga assim? sua fatura vem assada?), uma funcionariazinha imbecil ME OFERECEU UM CARTÃO DE CRÉDITO.

É o fim da picada.

Por favor, multipliquem este desabafo.



terça-feira, 7 de julho de 2009

Sinais





As luzes da cidade
O pôr do sol
Os tentáculos das árvores
O cemitério
Do Araçá
Os mistérios
Da vida
E da morte
Os imprevistos
Os imperfeitos
Os improváveis reflexos
Da visão imaginária
De uma tarde presa
No engarrafamento paulistano

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Paulistana






Luas que não são
Lágrimas talvez
Discos voadores
Ou apenas gotas de suor
Dos teus trabalhadores

Antenas
Atenas
Átrios
Artes
Belas
Paulistas
Apenas

Cenários
Lugares
Luares que não são
São lágrimas talvez
São discos voadores
São gotas de suor
São Paulo

Dos meus amores



sexta-feira, 3 de julho de 2009

Então...




Então me deu vontade de escrever
Então me lembrei que tinha caneta e papel
Então percebi que, havia muito, não escrevia a mão
Então lembrei de tantas coisas escritas pela minha mão direita
Então lembrei de poemas e de tristezas
Então pensei em escrever uma poesia
Então me senti poeta e, poeta, vivo
Então olhei em volta para ver se alguém me olhava
Então reparei que a mesa era redonda e ninguém me via
Então olhei para as folhas amareladas da caderneta
Então armei a caneta como se fosse revólver
Então saí a disparar movimentos
Então me senti um franco-atirador
Então imaginei minhas vítimas amarelas como as folhas da caderneta
Então busquei uma razão para tudo isso
Então sentenciei: é sina, sou eu
Então não mais me incomodei se alguém me via, se alguém me olhava, se alguém me entendia ou se deixava de entender
Então eu chorei de tanto escrever...

domingo, 21 de junho de 2009

Jorges





Jorge santo
Jorge tanto
Jorge seu
Jorge meu
Jorge sim
Jorge não
Jorge são
Jorge tão
Jorge só
São Jorge
São jorges...



quarta-feira, 17 de junho de 2009

Da noite para o dia




De noite, samba. De dia, bolero.
De noite, criança. De dia, velho.
De noite, esperança. De dia, espero.


sexta-feira, 12 de junho de 2009

São Paulo é ...


São Paulo é uma presença que me cerca. Nasci paulistano. Na Maternidade São Paulo, é claro. Como tantos e tantos outros paulistaninhos e paulistaninhas. Na rua Frei Caneca, Bela Vista. Bixiga. Assim, e sem contestação, paulistano eu sou. E paulistano serei sempre.

Acordo e ouço os versos da música de Billy Blanco, “São Paulo que amanhece trabalhando. São Paulo que não sabe adormecer...” na Jovem Pan. São Paulo é música.

À noite, pela tevê, assisti ao futebol. Como é grande o Morumbi. Oxítono. Como o Pacaembu. E sei que a cidade tem são-paulinos, corintianos, santistas, lusos, gremistas, fluminenses, atleticanos, arapiraquenses... São Paulo é futebol.

Eu sou palmeirense, “com muito orgulho, com muito amoooooooooor. Dá-lhe, dá-lhe dá-lhe porco...” Sou palmeirense de olhar para o gol das piscinas do Parque Antártica e me emocionar. Saber que lá, atrás do parque da Água Branca, tem uma típica cantina italiana comandada por um japonês. São Paulo é mistura. Fina.

É engraçado: quando eu era criança, sonhava ser prefeito de São Paulo quando crescesse. Cresci. E ainda morro de vontade de ser prefeito de São Paulo. Meu sonho depois de ver os 450 anos da cidade e estar vivo no quinto centenário. São Paulo é sonho.

As notícias da manhã são mornas como o café com leite. E enquanto passo manteiga (de verdade) no pão, lembro do tempo em que a gente recebia o leite em litro de vidro com tampinha de alumínio. Morávamos na Praça Marechal Deodoro. Sem Minhocão. Com o Cine Miami. Perto do Cinema São Pedro, que eu vi morrer cinema e renascer Theatro. Poderoso. Com te-agá. Devia ser 1966. Pelo menos, o fusquinha azul do meu pai era um legítimo meia-meia. Ótima safra. Lembro do cheiro do carro, voltando da Praia Grande pela Avenida do Estado. Quantos buracos. Quanta felicidade. E quando chegava perto do Mercadão. Que lindo. Quando eu for prefeito de São Paulo, dou um jeito naquele trânsito e vai ficar mais fácil ir ao Mercado Municipal. São Paulo é memória.

Por falar em memória, não me saem da cabeça os nomes de alguns lugares paulistanos. Jaraguá. Interlagos. Trianon. Raul Pompéia. Gondoleiro do Amor. Da Mooca. Da Barra Funda. Da Memória (essa ladeira...) Direita. 12 de Outubro. 15 de Novembro. 25 de Março. 23 de Maio. Santos Antonio, João, Francisco, Amaro, Joaquim, Judas, Jorge. Santas Rita, Clara, Maria, Marina, Branca, Eudósia. Os pássaros de Moema. Os índios das Perdizes. As árvores de Mirandópolis. Avenidas, ruas, vielas, alamedas, praças, largos, parques. São Paulo é plural. São Paulo é Sampa.

Então, enquanto escovo os dentes, divirto-me em saber que a avenida Paulista “apresenta trânsito carregado” e que a marginal do Tietê, no sentido Lapa-Penha, “está lenta na altura da Ponte das Bandeiras”. Para namorar, eram 23 quilômetros de Oeste a Leste, da Vila Pompéia à Vila Guilhermina. Casar na capela da PUC. Batizar no largo de Nossa Senhora do Ó. Viver no Centro. Dormir no Araçá. São Paulo é fé.

No corredor do apartamento eu tenho uma fotografia em branco e preto do Caetano de Campos. O querido Instituto de Educação Caetano de Campos, que quando minha mãe estudou era a Escola Normal e quando eu me formei já tinha um “Estadual” antes do “Caetano”. Do segundo andar, criança, eu vi Elisabeth, a rainha da Inglaterra, acenar. Também lembro dos estudantes protestando do lado de fora, quando Camões recitava em O Estado de S. Paulo sobre notícias censuradas. Anos depois, ouvir Paulinho Nogueira tocar no velho auditório onde recebi meu primeiro diploma, e chorar de emoção. São Paulo é isso.


E muito mais. Zoológico. Ibirapuera. Planetário. Bienal. Monumento das Bandeiras. Borba Gato. Copan. E-di-fí-cio Itália. Pirâmide da Fiesp. A Gazeta do Cásper Líbero. O Banco do Estado. Martinelli. Masp. MAM. MIS. Miau: O Gato que Ri. Salada Paulista. Pizzaria São Pedro. São Paulo é um dois, feijão e arroz.

Enquanto me penteio, lembro os poetas de São Paulo. “Comoção da minha vida”. A minha deles e a minha, minha também. Lembro o sebo do Gazeau na Praça da Sé. Lembro dos Diários Associados na 7 de Abril. Lembro meu avô na livraria dele na 7 de Abril. Lembro meus ídolos. Meu pai. Adoniran. Elis. Senna. Lembro até o que eu não vivi. Lembro tanto que me esqueço da hora. O rádio me lembra: “Vam’bora vam’bora... olha a hora vam’bora vamb’ora...” São Paulo é pressa.


Ajeito a gravata. Apanho o paletó. Na sala, despeço-me de outras fotografias de São Paulo. Rua São Bento na década de 30. O bonde dos operários em 1927. A panorâmica noturna com a Lua namorando a cidade em 2001, feita pelo Alex Salim, turco-mineiro-que-mora-perto-do-legítimo-Ponto-Chic. Fecho a porta. Desço as escadas. Entro no carro e fixo o olhar no retrovisor onde descubro uma lágrima de garoa.

São Paulo é vida.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Procura-se



É sério: procura-se namorada. Para o cargo, há algumas exigências.
Que tenha bom humor. Que faça bem amor.
Que seja honesta e verdadeira. Preferencialmente solteira.
Que tenha os olhos de criança e o corpo de mulher.
Que saiba cozinhar pequenas delícias.
Que não se importe em cozinhar pequenas delícias.
Que goste de cinema. Que ame música.
Que tenha bom gosto musical – especialmente MPB.
Que use perfumes suaves e penetrantes.
Que seja intensa e suave como os perfumes.
Que ajude a decorar meu apartamento. Mas que não imponha a decoração.
Que me dê canetas de presente. E roupas que combinem comigo.
Que não me dê uma carteira grande com segundas intenções.
Que não me dê uma carteira grande e vazia com terceiras intenções.
Que seja bonita. Educada. Fina. Gostosa. Discreta.
Que não seja perua, nem em sonho.
Que tenha unhas para arranhar minhas costas sem arrancar sangue.
Que tenha uma tpm aceitável. Pode ter silicone nos seios mas o resto, original de fábrica.
Que brinque com meus dedos. Que goste de mim.
Que não tenha limites entre quatro paredes. Que entenda os limites além das quatro paredes.
Que saiba fazer malas. Que saiba fazer doces. Que saiba fazer graça.
Que não goste de me deixar sem graça.
Que seja uma profissional feliz. Pode até ser atriz. Dispensa-se meretriz.
Que não tenha preconceito. Mas que tenha todo jeito.
Que me deixe sem jeito ao confessar suas paixões.
Que me inclua entre as suas paixões.
Que tenha pequenas receitas para uma vida saudável.
Que não fale muito de médicos, doenças, remédios, tragédias.
Que seja ciumenta na medida certa.
Que tenha certas medidas certas.
Que não tenha vícios maiores que os meus.
Que goste de pequenas ousadias.
Que goste de ousadias médias.
Que adore as grandes ousadias.
Que goste de beijos nos pés. Que goste de beijos nos joelhos. Que goste de beijos.
Que não seja calorenta. Mas que seja quente.
Que desfile na minha frente.
Que tenha belas pernas. Que tenha belas palavras. Que tenha belas ações.
Que tenha atitude. Que seja firme. Que seja sutil.
Que tenha uma bela lembrança infantil.
Que não tenha vergonha de passear nua em Tambaba.
Que me faça babar em Tambaba.
Que seja independente, mas me chame para trocar o pneu.
Que me ajude na hora de trocar o pneu.
Que tenha sonhos próprios. Que os compartilhe. Que tenha sonhos comigo.
Que sonhe comigo.
Que goste de animais. No zoológico.
Que goste de animais. De pelúcia.
Que goste de animais. Mamíferos.
Que goste de animais. Como eu.
Que viaje comigo sem reclamar do jeito como dirijo.
Que reveze comigo no volante e me faça dormir.
Que não grite ao se deparar com uma celulite.
Que aceite minhas rugas e me poupe de cremes.
Que não gaste barris de xampu. Que goste de tomar banho junto.
Que entenda um pouco de futebol.
Que aceite os meus amigos. Inclusive os separados.
Que seja paciente comigo. Que não me faça esperar sem prazer.
Que ria com facilidade. Que chore de felicidade.
Que me mime, que me nine, que me ame.
Que goste de ser mimada. Que goste de ser ninada. Que goste de ser amada.

Para tudo isso, procura-se uma namorada.



(Este pequeno compêndio de licenças poéticas e côncavo brilho é dedicado à Única&Exclusiva, aqui neste blog encontrável)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Universos




Como flores

Explodem universos

Em cores


Como sóis

Explodem poemas

Universais

terça-feira, 26 de maio de 2009

Amor tadela




Acordo no meio da noite
Com uma baita vontade de escrever

É insônia
Ou apenas a fome
com outro nome?

sábado, 23 de maio de 2009

Tristeza, por favor vá embora...




Primeiro num samba
Depois noutro
Mais um

Então num bolero
Noutro
E mais outro bolero

Por fim, numa crônica
Diária, mundana, banal
Numa crônica, enfim

Insistentemente a vida
Quer me mostrar
Que a minha tristeza
Tristemente
Nem tão original
Nem tão exclusiva
Nem tão triste
É...



sábado, 16 de maio de 2009

Voos circulares




Caminhos aéreos

Tão longas jornadas, tão grandes perguntas

De onde a águia enxerga

Vê a vila e sua vida

Vida circular

Voadora

Vida vila

De onde a águia enxerga

Vê a vida e suas vilas

Quantos caminhos voar até a chegada?

A resposta da águia é o voo

Voar é circular como a vida e a vida


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Paulistana*



Alturas paulistanas
Tão puras
Paulistanas alturas

Reflexos paulistanos
Tão complexos
Paulistanos reflexos

* Paulistana é quem ou o que nasceu ou é natural da cidade de São Paulo – entre outras simbologias



segunda-feira, 11 de maio de 2009

Piatã *


Pedra firme, rocha, seixo, pedra dura
Piatã
Finca a esperança onde eu a deixo pura

No princípio e no fim
Onde as pedras se encontram
Encontrei a mim



*Piatã significa pedra firme


domingo, 10 de maio de 2009

Cavalo marinho




Feito São Jorge sem dragão

Montei um cavalo marinho

E abri um sonho só para mim...


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Manaíra*




como num cântico
lavei minh’alma
no oceano atlântico



como manoel
embriagei-me no leite
dos seios de mel


*Conta a lenda que a denominação Manaíra (Seios de Mel) foi escolhido em homenagem a uma índia, com esse nome, prometida por seu pai Boiassu como noiva, ao índio Piancó, chefe da tribo dos Coremas. A lenda diz, ainda, que tendo Manaíra se envolvido com o colonizador Manoel Curado Garra, foi sacrificada pelo pai, em nome do compromisso assumido com Piancó.



segunda-feira, 20 de abril de 2009

manaíra






como num cântico
lavei minh’alma
no oceano atlântico






sábado, 18 de abril de 2009

História




a revolta a tristeza a reação

um dia após o outro

a vida passa, eu não...


sábado, 11 de abril de 2009

Páscoa





Com simplicidade, a Páscoa chegou.


Tal qual um traço de paz, aproximou-se de nós silenciosa e cuidadosamente. Como a nos lembrar que as principais coisas da vida não precisam ser ruidosas nem trepidantes. A Páscoa veio embebida de fé. Fé nos homens. Fé na existência. A Páscoa trouxe em sua bagagem valores como Amor, Esperança, Superação, Respeito e Verdade. A nos dizer que ter valores não é feio, nem antiquado. Assim, a Páscoa sussurra aos nossos ouvidos para alcançar a consciência - essa estranha habitante da nossa mente que tenta nos mostrar as diferenças entre as escolhas que fazemos. Um por um, a Páscoa desfila as razões desses valores. Verdade, pois a mentira é aquilo que não existe mas insiste em nos dizer que é - e apenas é o que é verdade. Respeito, esse difícil atributo que tanto se exige e tão pouco se dá. Superação, que é a mãe de todas as nossas voltas por cima. Esperança, uma menina de olhos vivos que anima nossa alma com a magia do acreditar. Amor, sentimento que dispensa apresentações e ao mesmo tempo transmuta-se no grande mistério da vida, nos desafiando a oferecer ao outro o que temos de maior, de melhor, de mais sublime. É assim que a Páscoa vem, como quem não quer nada, mas intensa, plena, divina.

A Páscoa vem, sublime, singela e humilde, nos lembrar que é o simbolo do renascer.


Feliz

domingo, 5 de abril de 2009

A cor da asa da borboleta




Não há cor mais cor
Não há mel mais mel

A abelha adoçou
Mas foi a borboleta,
Com sua asa cor de mel,
Que desenhou num vôo
Um risco doce no céu

terça-feira, 31 de março de 2009






A mentira
a mentir
A mentira
A mentira
A mentira
Amém...


sábado, 28 de março de 2009

A inexatidão do caminho (do fundo do baú)





A jornada íngreme, acidentada,
sinuosa, insinuante.

Em si, motivo de canto e
arrependimento.
A trágica face do medo improvável.

Presente:
o silêncio
que sente.

A explosão do calendário
em dias cristais:
não vou mais, não volto mais.

O caleidoscópio de palavras
e personagens,
a vida in vitro.

Concepção.
Convicção.
Contradição.

Um poema métrico.
Métrico e meio.

Um poema dos anos noventa,
dos noventa e tantos anos
de um presente incansável.

Do tamanho de um sonho.

Humano, frágil.
Humano.



segunda-feira, 23 de março de 2009

Verdade




Cego, plantei a luz
E por apenas um momento
Apaguei a escuridão
Muito tempo depois
Uma vela acesa iluminou a verdade
De verdade.

sábado, 21 de março de 2009

Eu, tu, eles... versão haikai





a primeira pessoa do singular se deu mal
descobriu
que a terceira pessoa do singular era plural


sexta-feira, 13 de março de 2009

ilusão de ética





escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escravo
escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escravo escrevo
escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escravo escrevo escrevo
escrevo escrevo escrevo escrevo escravo escrevo escrevo escrevo
escrevo escrevo escrevo escravo escrevo escrevo escrevo escrevo
escrevo escrevo escravo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
escrevo escravo escravo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
escravo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
escrevo escravo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
escrevo escrevo escravo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
escrevo escrevo escrevo escravo escrevo escrevo escrevo escrevo
escrevo escrevo escrevo escrevo escravo escrevo escrevo escrevo
escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escravo escrevo escrevo
escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escravo escrevo

escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escravo

sábado, 7 de março de 2009

Mil coisas





Mil coisas que foram ditas
Mil coisas não foram ditas

Mil coisas a fazer
Mil coisas a adiar

Mil coisas a sonhar
Mil coisas a esquecer

Mil coisas a ousar
Mil coisas arrepender

Mil coisas a esperar
Mil coisas correr atrás

Mil coisas ficaram no caminho
Mil coisas outras aguardam

Mil coisas a romper
Mil coisas a emendar

Mil coisas a acertar
Mil coisas a corrigir

Mil coisas a comemorar
Mil coisas esquecer

Mil coisas a aquecer
Mil coisas a esfriar

Mil coisas a atrair
Mil coisas a refutar

Mil coisas a recolher
Mil coisas a espalhar

Mil coisas a aprender
Mil coisas jamais saber

Mil coisas, insistir
Mil coisas desistir

Mil coisas fáceis
Mil coisas impossíveis
Mil coisas comemorar
Mil coisas proporcionar

Mil coisas a ler
Mil textos a escrever...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Fragmentos



cacos

de vidro


perdi a mente

mentira


insanidades assumidas

vida


invento palavras

cruzadas


a noite sem fim

finda


a história sem volta

ida


palavras cruzadas

perdidas


procura-se um poema

perdido


e o seu poeta

ido


sem rima,

sem pose,

sem dose


procura-se um poeta

de vidro



sábado, 31 de janeiro de 2009

Ideias (sem acento)




As ideias são voláteis. Diluem-se em segundos. Se você tem uma idéia, corra. Escreva. Registre. Marque. Mude o anel de dedo. Amarre um laço no pulso. Mas não perca. Uma idéia é um presente da sua inteligência em parceria com a sua intuição.

As melhores coisas da vida são como boas ideias. Vejam os amigos: amigos a gente escolhe. Vejam os anjos: os anjos escolhem a gente. Vejam os amores: amores são escolhas.

Amigo não tem cor, não deforma nem solta as tiras. Acompanha a gente feito sandália havaiana, é só convocar e sair em parzinho. Guarde seus amigos como as suas idéias. Não os perca de vista.

Anjo não tem sexo (mas faz, pois o sexo é divino). Tá sempre por perto. Respire: você quase puxa um anjo pro seu pulmão. Se ele estiver distraído, faz turismo pelas vias respiratórias, Mas não nos perde de vista.

Amor não tem definição. O verbo amar é presente, passado e futuro. Mas o melhor é quando o verbo se conjuga como se fosse plural: amares. Se amares como tens ideias, saberás manter o teu amor – nunca sem a ajuda da intuição e da inteligência.

sábado, 24 de janeiro de 2009

São Paulo, 455




Com a sua licença, quero falar um pouquinho de São Paulo. Um tantinho mesmo, pois se eu desandar a paulistanear eu só paro no quinto volume das minhas aventuras e desventuras na desvairada pauliceia.

São Paulo é meu coração. Quando São Paulo fez 450 anos, consegui emplacar um poema que acompanhou fotos em uma exposição. Orgulho de quem nasceu na Maternidade São Paulo. E minha única meta de longevidade é chegar aos 94 anos para ver o Quinto Centenário. E com saúde, comendo bolo de 500 metros no Bixiga. Outro dia revisitei a Freguesia do Ó, na época em que nasceu o Frangó – a melhor coxinha de São Paulo.

Na semana que passei na cidade, literalmente me perdi na Pinacoteca. Em frente a um quadro da Tarsila marejei os olhos. Brecheret parecia me acompanhar pela visita. Na minha vila Pompéia tomei todos os cafés que tinha direito, sempre correndo pra cima e pra baixo e tendo a igreja de Nossa Senhora do Rosário como referência. Na Pompéia onde morava Lourenço Diaféria – esse, cronista da cidade tal qual Alcântara Machado.

Estou chato? Só mais um pouco de paciência. Se eu não falar que fui à Mooca comer pizza no Ângelo eu não sossego. E que descobri novos atalhos na Liberdade e no Brás também. E fui ao Ponto Chic, ao Hocca, ao Okuyama, ao restaurante do Masp. Engordei, claro, de felicidade. Na Sé comprei um livro esgotado e senti uma saudades danada do sebo do Gazeau e de seu gato branco. Pesquise no Google. Talvez descubra algo sobre eles.

Aí, quando eu falo em livros, sinto meu coração apertar na lembrança das livrarias que meu avô teve na 7 de Abril, vizinhas dos Diários Associados do Chatô. Eu o vi ao menos uma vez. Como vi a rainha Elizabeth. Como vi Adhemar de Barros. Como vi Jânio Quadros. Como vi Lula. Henfil, Betinho, Silvio Santos, Raul Seixas, Chacrinha, Pelé... Comovido de tantas emoções que São Paulo me deu, prometo não ser mais piegas nem chorar.

Mas não resisto em falar sobre a fotografia que eu não tirei da alvorada vista a partir do cemitério do Araçá, olhando para as Perdizes. Papai, que está lá dentro me esperando, sabe do que falo. Às vezes, nos álbuns das nossas memórias, as mais belas fotos foram aquelas que não tiramos. Do mesmo jeito que as declarações de amor que demoramos a pronunciar e que às vezes somos obrigados a transformar em oração.


São Paulo faz isso comigo. São Paulo é meu coração. São Paulo é minha oração.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Xamãs




anime-se

alme-se

ame-se

dizem os xamãs


dizem os xamãs

que chamas

na noite

sem chamas


da escuridão

a sombra vai

vem o plantio

da luz


do solo

brota o ovo

vem o vôo

da águia


e o palhaço

o bobo da corte

o coringa

ganha vida


mudança:

a hora

agora:

esperança


seus xamãs te chamam...





segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Virgens




O toque lírico
O tato lúdico


O olho mágico
O halo esférico


O dia fálico
O texto fático


O salto alto
O marco histórico


Virgens...


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Noturno





Sou filho da noite
Nasci em horário nobre
E na madrugada me formei
Nem rico nem pobre
Apenas noturno...

Conheço as fases da lua
Sou conhecido das putas da rua
Não faço versos ao acaso
Mas ao ocaso...

Sei quando um raio corta o negror
Da noite
Sei quando um gemido rompe
Seu silêncio
Sei dos segredos guardados
Em seu seio
Sei de seios e de rumores...

Não guardo fim para as histórias
Da noite
Não abro mão de suas reminiscências
Nem sei
Se tenho direito a memória...

As reticências explicam
Como este filho da noite renasce
A cada hora noturna:
Passeio assim desnorteado
Mas certo de caminharNa vida, desarmado.