terça-feira, 28 de julho de 2009

Manhã





Manhã.
Um ipê chora flores.
As folhas secas já se foram.
Restaram gotas amarelas.
A saudade tem cor.
O tempo é amarelo.
O sol avermelha os olhos.
O azul celeste abriga contrastes.
Um raio solto brinca com os vidros e espelha um arco-íris de mentira.
Nem sei se meus olhos são verdes ou azuis.
Nem isso eu sei.
As cores da manhã me fazem bem.
Colorem minhas dúvidas.
Enchem de matizes meus pensares.
Aquarelam as respostas.
De alguma forma indefinida, tênue, desfocada,
preenchem o branco da existência
com suaves linhas de verdade.
Manhã.
As lágrimas são transparentes como eu.

sábado, 18 de julho de 2009

Carta de São Paulo




Sampa, 18 de julho de 2009. O céu azul tem nuvens claras. A construção vizinha começou a trabalhar antes das sete da manhã. Faz calor. Pela madrugada, um frio suave gelou os pés. As malas estão pela sala, prontas para partir. Idas e voltas. Mais uma vez, a cidade me acolheu. Mais uma vez, senti-me acolhido e escolhido. São Paulo faz essa poesia comigo. São Paulo me faz poeta. Faz-me despertar de uma letargia tímida para uma euforia ousada. São Paulo me dá as cores fortes e os tons pastel que matizam um cotidiano pleno de surpresas ou obviedades – até estas, surpreendentes às vezes. É óbvio que São Paulo comove. Move também pessoas, trens, ônibus, nuvens, sonhos, lendas, personagens, ideias, ideais. Dá vida a pessoas de verdade e verdadeiramente coloca bonecas infláveis pelos caminhos, qual obstáculos em videogames. Esse foi comentário em uma das fotos que publiquei nestes dias, uma foto da Galeria do Rock, aquela da 24 de Maio: “parece um fliper”. São Paulo bem que poderia ser mesmo uma máquina de pinball: subidas descidas ladeiras perigos bônus buracos pontos máquinas luzes buzinas rumores amores bola extra zeros zeros zeros milhões milhares game over. São Paulo S/A. Sociedade anônima. Anônimos paulistanos. No metrô, no viaduto Santa Efigênia, no shopping Light, na Paulista, na Pinacoteca, no 7272 – Pompéia-Praça Ramos, na praça da República, na Liberdade (ainda que tardia), pelas ruas, avenidas, becos, escadarias, alamedas, parques, pela vida. São Paulo por todas as razões e motivos e esperanças e lembranças e recuerdos. Comprei um cartão postal da cidade. Tirei fotografias. Mirei por mirantes e janelas. Passei pelo Jaraguá. Cortei os eixos de sul a norte, de oeste a leste. Fui comer pizza na Mooca, sanduíche de mortadela no Mercadão, torta de chocolate no Viena, tomar café na esquina da Heitor Penteado... Engordei na minha dieta. Anoréxico, quase magro, rosto chupado, esquálido... São Paulo me viu assim e estranhou. Feio? Bonito? Saudável? Quantas opiniões. São Paulo me devassa, devasso e puro. São Jorge do Araçá que me abençoe: antes de morrer, pretendo viver São Paulo de muitos pecados e algumas bondades. Amém.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Itinerário




Nasci na maternidade São Paulo
no Bexiga da Bela Vista – onde
vi a luz e chorei pela primeira vez
Morei na Marechal Deodoro
na Santa Cecília – num apartamento
de dois quartos, sala, banheiro e dependências
Conheci o Centro indo de bonde até a 7 de Abril onde, de dentro da livraria Stark, conheci o mundo e de fora, Chato, o Olido, o Metro, o prédio dos Correios
Estudei na República, caetanista graças a Deus, de onde vi os secundaristas, a ditadura, Elisabeth 2a., a Copa do Mundo de 70, as luvas brancas de Adhemar de Barros, as primeiras meninas, pequenas paixões
Então fui para a escola técnica na Barra Funda que depois mudou para o Canindé
Mudei para a Pompéia, o umbigo do mundo: rua, futebol, adolescências, primeiras vezes, rock, cigarro, carro, amigos, incertezas, poesia, liberdade
Entrei para a Academia Juvenil de Letras que ficava na Consolação – que ilusão
Comecei a trabalhar no Cambuci, na rua do Lavapés
Entrei para a faculdade na Paulista – avenida dos meus delírios, dos bares do Gemini, dos colírios que não se fabricam mais
Casei e voltei para a Praça Marechal, cansei de tanto barulho e fui acordar ouvindo os pássaros na Freguesia do Ó, não agüentei tanto silêncio e mudei para a Pompéia, o umbigo do mundo
O trabalho saiu da Lavapés e foi para Pirituba, depois eu saí de Pirituba para a Granja Julieta e daí pra qualquer lugar
Pinheiros, Pedreira, Berrini, Cerqueira César... trabalho é tudo igual
Quando percebi, estava em Brasília e
agora São Paulo são uns dias na vida para rever meu itinerário
BexigaSantaCecíliaCentroBarraFundaCanindéConsolaçãoCambuciPaulistaFreguesiaPompéiaPiritubaGranjaPinheiros(Brasília)Araçá

domingo, 12 de julho de 2009

Haikai




A poética de repente:
De repente a poesia
Invade a mente


sexta-feira, 10 de julho de 2009




Vi uma estátua de uma mulher de verdade
Vi uma estátua de uma mulher
Vi uma estátua
Vi, eu vi...

Então vi uma lua que não era minha
Então vi uma lua que não era
Então vi uma lua
Então vi, eu vi...

Vi uma cidade inteira a me conquistar a emoção
Vi uma cidade inteira a me conquistar
Vi uma cidade inteira
Vi, eu vi...

Então vi uma rua que não era a minha
Então vi uma rua que não era
Então vi uma rua
Então vi, eu vi...

Vi uma mulher de verdade
Vi uma lua
Vi a conquista da cidade
Vi minha rua
Vi, eu vi, vivi.








quarta-feira, 8 de julho de 2009

Horror - Banco Real



É muito triste usar um espaço nobre como este com uma atitude tão pobre como a do Banco Real. Mas a verdae deve ser espalhada aos quatro ventos para que todos estejam preparados para situações como a que passo.

Em viagem de Brasília a São Paulo desde domingo, 5 de julho, tive meu cartão de crédito e débito cancelados SEM QUALQUER NOTIFICAÇÃO, AVISO, ALERTA.

Desde essa data, o banquinho Real, por meio de diversas portinhas e compartimentozinhos que existem e não se conversam entre si, dá prazos para a solução do problema que variaram de 24 a 192 horas. Isso numa situação EMERGENCIAL.

Os gerentes Van Gogh deviam ter suas orelhas cortadas. Não servem para nada. Não resolvem nada. Comprometem-se e não cumprem.

Aliás, de nada serve ser cliente Van Gogh.

A única coisa em que o banquinho (sur)Real conseguiu até agora foi me deixar sem cartão, mandar eu arrumar alguém que tivesse conta para fazer uma transferência e sair com dinheiro vivo pela cidade de São Paulo e cansar-me em longas esperas com a famosa musiquinha irritante. O tema do banquinho (sur)Real, provavelmente.

Imaginem a minha situação, eu que vejo minhas férias escoarem sem poder fazer meus programas e minhas compras em São Paulo, mendigando em lojas para que "aceitem um sinal até o banco entregar o cartão", sem saber sequer como farei para pagar o carro que aluguei.

Que este testemunho sirva de exemplo de como um banco consegue ser incompetente no serviço mínimo que deveria prestar ao seu cliente.

Finalmente, uma ironia: entre os muitos péssimos atendimentos (depois de incansáveis confirmações de: cpf, rg, data de nascimento, idade, nome da mãe, endereço, telefone, sua conta é paga assim? sua fatura vem assada?), uma funcionariazinha imbecil ME OFERECEU UM CARTÃO DE CRÉDITO.

É o fim da picada.

Por favor, multipliquem este desabafo.



terça-feira, 7 de julho de 2009

Sinais





As luzes da cidade
O pôr do sol
Os tentáculos das árvores
O cemitério
Do Araçá
Os mistérios
Da vida
E da morte
Os imprevistos
Os imperfeitos
Os improváveis reflexos
Da visão imaginária
De uma tarde presa
No engarrafamento paulistano

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Paulistana






Luas que não são
Lágrimas talvez
Discos voadores
Ou apenas gotas de suor
Dos teus trabalhadores

Antenas
Atenas
Átrios
Artes
Belas
Paulistas
Apenas

Cenários
Lugares
Luares que não são
São lágrimas talvez
São discos voadores
São gotas de suor
São Paulo

Dos meus amores



sexta-feira, 3 de julho de 2009

Então...




Então me deu vontade de escrever
Então me lembrei que tinha caneta e papel
Então percebi que, havia muito, não escrevia a mão
Então lembrei de tantas coisas escritas pela minha mão direita
Então lembrei de poemas e de tristezas
Então pensei em escrever uma poesia
Então me senti poeta e, poeta, vivo
Então olhei em volta para ver se alguém me olhava
Então reparei que a mesa era redonda e ninguém me via
Então olhei para as folhas amareladas da caderneta
Então armei a caneta como se fosse revólver
Então saí a disparar movimentos
Então me senti um franco-atirador
Então imaginei minhas vítimas amarelas como as folhas da caderneta
Então busquei uma razão para tudo isso
Então sentenciei: é sina, sou eu
Então não mais me incomodei se alguém me via, se alguém me olhava, se alguém me entendia ou se deixava de entender
Então eu chorei de tanto escrever...