terça-feira, 6 de julho de 2010

A cachoeira


Redassão

A cachoeira

A cachoeira é bela. Impávida. Poderosa.


Derrama um volume incalculável de água sobre as pedras, com tanta força que chega a parecer violenta.


Mostra seu poder. Exerce seu poder. Contamina a atmosfera com um odor úmido e salpica reminiscências que contra a luz simulam arco-íris.


Transforma as pedras e suas pontas em leitos e curvas. Emerge as areias que não se prestam a contar o tempo. Provoca redemoinhos. Convida à vida. Traz a morte.


A cachoeira é alta. Olhar para ela faz ver o céu e cerrar os olhos com a luz do sol quase a cegar. Traz a água sem regras para baixo, com espumas e ruídos.


Em volta da cachoeira, olhos espreitam sem entender exatamente de onde a água vem, para onde vai. Como no poema de Olegário Mariano.


Às margens da cachoeira uma criança brinca, uma mãe descuidada se bronzeia, um homem abre uma lata de cerveja e ri. Num outro grupo, namorados se beijam deitados em toalhas coloridas. Fotografam-se. Riem e falam e beijam e posam.


Nem a borboleta azul que passa nem o gavião que plana nem as nuvens que espreitam importam-se com a cachoeira. São apenas os homens, e os homens sempre são apenas, que tentam entender de onde a água vem, para onde a água vai. Mesmo assim, nem todos.


Um homem abre uma lata de cerveja e ri.

3 comentários:

blogdakatiamaia disse...

de onde a água vem, para onde a água vai... Dúvidas que aprisionam so pensamentos levados pelas correntezas da alma.
///~..~\\\

Batom e poesias disse...

A cachoeira não se importa com a incompreensão. Apenas existe...

Tem pega-pega no batom.

Adivinha...
bjs

rossana

Zélia Guardiano disse...

Lindo, lindo, lindo o teu poema!
Lindo demais!
Sendo muito limitada nesta questão que é o comentário, faltam-me palavras, mas sobra-me encantamento...
Grande abraço!