domingo, 31 de janeiro de 2010

a hora da Estrela




visito Clarice em exposição

Lis, de flor

Lispector

Clarice me expõe adolescente

e senhor do tempo ido


visito 1975,

1976, 1977

sem alegria

nem heresia


a hora da estrela

é sempre,

o nunca que nunca finda


à flor de Lis,

às horas,

à toa...



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Instantâneos







Uma luz brilha ilumina mostra revela


Imagem imaginária


Nova inédita desconhecida


E a lua ilumina e a vela vela


E os olhos guardam, feito fita


O fato a foto a vista a vida






quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Hai-kai




num pequeno espaço

o poeta prendeu

a letra, a laço



Fragmentos




a difícil tarefa de transformar

a ausência em algo


ar ou vácuo

água ou mar

fogo ou cinza

terra ou nada


espaços, ruídos, imensidões

e o branco fere os olhos

e o silêncio rompe o vazio


seus movimentos são inúteis

suas mãos, estáticas

sua voz, quieta

e a alma, incorreta,

procura na distância

a cura

e a alma, inquieta,

insiste teimosa,

na transformação,

criativa e irresponsável,

sem medo nem culpas,

sem desculpas,

sem ação.


enquanto isso,

em algum lugar da vida,

a alma pede, apenas,

um poema.


ou algo além do nada.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poemeto






.
.
.
.
.
.

Resiste na tua veia, insistente


um fio d'água de poesia


feito borra de café


ou a história da gente...


Hai-kai




Coordenadas:

as referências eram apenas

as horas passadas.




Eu tenho um coração aéreo
E um olho alado
Um voa, outro avoa

E quando me perguntam como andam...
Um leve, outro me leva

E quando me perguntam pelo destino...
Um some, outro revoa

E assim convivem
Meu coração que voa e meu olho alado.
Um dentro de mim, outro ao meu lado.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ampulheta


A areia, sem medos,

vazou o tempo

em meio aos dedos

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dieta


Eu tenho fome da noite
e como estrelas
gulosamente.
Por isso não engordo:
estrelas não têm
gordura hidrogenada.



Testamento




Quero escrever um poema
Com os fragmentos que a noite silente
Traz em seus descuidos.

Mentira.

Quero escrever um poema
Com pedaços perdidos
De frases e sons descuidados.

Orgulho.

Quero escrever um poema
De restos, de sobras de
Entrecortadas conversas fúteis.

Descuidos.

Quero escrever um poema
Envergonahdo e sem-vergonha de
Ser feito do nada.

Demente.

Quero escrever um poema
Teimoso e pulsante
Das veias sem medo da morte.

Vingança.

Quero escrever um poema
Mais pesado que o ar
E que cheira a mofo.

Poderes.

Quero escrever um poema
Triste, com dor nas costas,
Cansado e sem sono.

Piadas.

Quero escrever um poema
Onde caiba a janela aberta
E a lua entrante.

Passado.

Quero escrever um poema
Perverso, insistente, medíocre e belo
Como a vida.

Poesia.

Quero escrever um poema
Que não é meu, que não é seu,
Sem dono.

Vadio.

Quero escrever um poema
Em estado de êxtase, enquanto
As belas dormem adormecidas.

Vazias.

Quero escrever um poema
Em câmara lenta,
Ardente, cinzento.

Incenso.

Quero escrever um poema
Que brinque com a lua
Que brinque com as nuvens distantes.

Errante.

Quero escrever um poema
Com a força da faca
Com o corte da flor.

Verdades.

Quero escrever um poema
Com o equilíbrio que tenho
Com as mãos livres de escaras.

Poeta.

Quero escrever um poema
Mais lúcido que eu
Mais eu do que todos poetas.

Remédio.

Quero escrever um poema
Com a tinta mais pura
Da mais nobre caneta.

Remendos.

Quero escrever um poema
Com a vida que resta, depois da vida,
Mais tarde e além do próprio tempo.

Remorço.


Parasita



Um poema parasita
alimentou-se da dor alheia
sugou ao poeta a alma
encheu de falta a veia
expulsou o sangue
- tomando em taça de cristal -
até a última gota de vida.