domingo, 28 de fevereiro de 2010

Todos os santos




Quem desarranjou o altar?

Quem deixou os santos fora de lugar?

Quase foram-se embora a fé cega e a faca amolada.

Quase partiram fiéis, devotos e putas arrependidas

Quase choraram as carpideiras.

Pela noite inteira, feito zumbis,

mulheres e homens tentaram arrumar o cenário.

As velas.

O sacrário.

O escapulário.

O crucifixo de prata.

O cálice bento.

A livro santo e a toalha branca.

Por horas e horas, feito relógios,

trabalharam ponteiros.

Feito fanáticos.

Feito festeiros.

Feito santeiros.

Feito elásticos.

Puxaram, romperam, viraram a noite

de cabeça para baixo.

Uns pintaram.

Uns cantaram.

Uns oraram.

Ora pro nobis.

Em bom latim.

E antes do fim, comungaram.

Beberam o vinho.

Comerão o pão.

Cada santo em seu nicho.

Ordem no altar.

Da cruz, abençoava o cordeiro.

Bem-aventurados os puros.


Quase choraram as carpideiras.

Quase...


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Eu, primeira pessoa do singular








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Eu, primeira pessoa do singular,
Aprendi que não há poema sem paixão.
Percebi a importância do ousar.
Entendi a necessidade de ser simples.
Pratiquei aquilo que não dizia.
Falei tudo o quanto não fazia.
Brindei com água.
Brinquei com mágoas.
Falsifiquei sorrisos de palhaço triste.
Entristeci com os lábios cortados.
Senti tanto o sangue das veias quanto o ar dos pulmões.
Fiz minhas próprias biópsias.
Cortei cebolas, entornei desculpas.
Compreendi que lidar com a culpa é inevitável.
Enfileirei versos, encadeei palavras.
Perdi tantas vezes a hora quanto a cabeça.
Fiz-me de vítima, vitimei a mim mesmo.
Contei histórias inventadas.
Imaginei histórias reais.
Imitei a arte, intimidei a vida.
Plantei inumeráveis sonhos.
Sonhei fantásticos enredos.
Descobri na presença o remédio da dor.
Remediei até o que preveni.
Transformei quimeras em missões.
Fracassei sem medo, venci sem glória.
Honrei o meu nome.
Naveguei mares impossíveis.
Voei por ares improváveis.
Preservei florestas de esperanças.
Esperei promessas vãs.
Salvei vilões, matei mocinhas.
Tive amigos como arte.
Viajei sozinho, sonhei junto.
Dormi junto, acordei sozinho.
Entornei lágrimas, bebi vinho.
Tomei a mais ácida das águas.
Comi o menos puro dos pães.
Despistei meus próprios dias.
Ensaiei um único ato.
Fui cinema, fui teatro.
Pratiquei haraquiri, escrevi hai-kais.
Rezei em todas as fés.
Acreditei em poucas pessoas.
Segui um número ainda menor de homens.
Encantei-me com o futuro.
Lembrei do meu próprio passado.
Descrevi o desejo, expliquei as vontades.
Agradeci as inverdades.
Cantei cânticos de louvor.
Mandei cartas pelos correios.
Enviei mensagens por garrafas.
Dei sinais de sanidade.
Cultivei muitas dúvidas.
Duvidei de tantas lições.
Perguntei por incertezas.
Ganhei respostas, nem sempre prontas.
Aprontei um inventário.
Inventei um itinerário.
Cansei.
Fechei os olhos a esperar o último capítulo da novela.
Eu, primeira pessoa do singular,
Aprendi que não há poema sem paixão.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

.m.e.m.ó.r.i.a.




Eu viajo entre as minhas imagens
Imagino todas minhas viagens
Não poupo pupilas, não poupo olhares
Não poupo palavras nem poupo lugares
Passeio indefeso por todos os tempos
Futuro passado presente nunca sempre
E quando espaço parece limite
Eu faço do sonho delicado motor
Não perco a estrada
Não perco a jornada
Não perco atalhos
Por onde percorro meus rios
Atravesso artérias de asfalto e terra
Subo e desço por mapas celestes
Descanso nas pedras
Contando as perdas
Cantando as fadigas
Cortando caminhos
Que levam para dentro
Que trazem para dentro de mim
Tudo o que eu sei
Tudo o que não sei
Tudo o que não esqueci...



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Hai-kai



Quem disse que não tive sorte?

Ficarei vivo...

... até a hora da morte.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A procura do sagrado




no horizonte,

a liturgia do desejo

uma fenda,

uma abertura

um remendo na mortalha

a cantiga do segredo

grita muda...



domingo, 14 de fevereiro de 2010

Palavras cruzadas










Perdi palavras

Perdi conceitos

Perdi a noção

Perdi meu tempo


Perdi o pensamento

Perdi a história

Perdi o fogo

Perdi a memória


Perdi o dia

Perdi a noite

Perdi a hora

Perdi o bonde


Perdi de vista

Perdi a estrada

Perdi o certo

Perdi a errada


Perdi a paciência

Perdi o controle

Perdi o equilíbrio

Perdi a fome


Perdi a entrada

Perdi a saída

Perdi o jogo

Perdi a vida...


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ouro de tolo




A mágoa não tem passaporte
A mágoa atravessa o Atlântico
Sul
Norte

A mágoa não tem endereço
A mágoa atravessa o Pacífico
Leste
Oeste

A mágoa não tem direção
A mágoa atravessa o mar da Espanha
A mágoa atravessa o Mediterrâneo
A mágoa atravessa o mar Vermelho

A mágoa flutua
Como um náufrago


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Outro hai-kai




Tantos, tantos eles são...


Uns poucos vão presos:


A maioria, não.





segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Hai-kai


















Não tem por onde:
O mesmo escudo que escuda,
Esconde.