quarta-feira, 31 de março de 2010

Fragmentos




Surgem fragmentos
Sobras
Pedaços de alguma coisa
Poeiras
Peças de um quebra-cabeça
Quebrado
Fiapos de histórias
Farrapos
Farpas, rebarbas, rasgaduras
São apenas cacos
Caquinhos, mil caquinhos
De um tempo que não foi inteiro
Momentos...

sábado, 27 de março de 2010

Gritos




Vivo
Enquanto tenho vida
Vivo intensamente
Vivo emocionadamente
Vivo com advérbios
Sem medos gramaticais
Vivo uma vida adjetiva
Substantiva
Viva
Sem temores sintáticos
Sem rumores sintéticos
Vivo ruídos uniformes
Como música
Vivo felicidades invariáveis
Em gênero, número e grau
Vivo intensamente
Vivo calorosamente
Vivo felizmente vivo
Enquanto tenho vida
Vivo exageradamente eu
Eu vivo exageradamente eu mesmo
Vivo abertamente
Vivo presentemente
Vivo inteiramente
Vivo integralmente
E vivo tanto, tão vivo
Que enquanto tenho vida
Vivo a vida de ser poesia
Vivo a prosa de ser poeta
Vivo a minha própria forma de ser
Vivo.

terça-feira, 23 de março de 2010

Sóis




Sóis
Novos universos
Outras vidas
Plantas
Planetas
Mistérios
Criador e criaturas
Uns medos
Tantas curas
Esperança, luzes
Calor
Calores
Sóis, sois apenas,
A duras penas,
A explosão de sonhos
Universais.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Atentados




Você me negou
Mas não menti
Você me dilacerou
Mas não desisti
Você me dopou
Mas não adormeci
Você me curvou
Mas não cedi
Você me arranhou
Mas não senti
Você me pisou
Mas não desci
Você me comprou
Mas não vendi
Você me quebrou
Mas não rompi
Você me queimou
Mas não ardi
Você me abalou
Mas não caí
Você me calou
Mas não emudeci
Você me rasgou
Mas não sofri
Você me matou
Mas eu não morri.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Espelhos



As palavras escorrem pela ponta da caneta
- feito chuva.
As palavras esquivam-se das linhas retas
- feito erros.
As palavras escoam pela minha boca
- feito gestos.
As palavras escapam pelos olhos
- feito lágrimas.
As palavras esvaem-se pelo caminho
- feito vento.
As palavras espalham-se sem limites
- feito pássaro.
As palavras estacam no deserto
- feito morte...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Impertinências





.
.
.
.
.
.
.
Quase meia noite.
Nem afasto fantasmas,
nem conto histórias.
Olho o relógio.
Olho os relógios.
Horas incertas.
Certas horas existem para não ser...


domingo, 7 de março de 2010

Tempo




naquela janela

eu via uma velha

todos os dias

todos os anos

eu via a velha

até o dia

em que eu não vi mais

a velha

naquela janela

velho era eu...



quinta-feira, 4 de março de 2010

Triste poema para Valdo






São duas rodas
Dois aros
Dois eixos
Dois pedais
Dois pneus
Um selim
Um guidão
Freios
Cabos
Pinos
Câmbio
Engrenagens
Correntes

Bicicleta
E um homem em cima

São estradas
Ruas
Vilas
Vielas
Avenidas
Alamedas
Caminhos
Servidões
Atalhos
Asfalto
Chão
Terra
Mundo

Mochila
E um homem em cima

São quilômetros
Milhas
Metros
Subidas
Banguelas
Distâncias
Graus
Degraus
Horas
Minutos
Segundos
Dias
Noites

Desafio
E um homem em cima

São paralelos
Meridianos
Joinvile
Catarina
Paraná
Oiapoque
Chuí
Argentina
Uruguai
Chile
Brasil
América
Américas

Geografia
E um homem em cima

(Numa barraca ao norte do México dorme morto o Valdo da Bicicleta, descansando seus sessenta e cinco anos sobre a descoberta que a liberdade é o caminho mais curto para a vida eterna...)

(Num gabinete envidraçado em Brasília vive morto um aprendiz de poeta, reclamando com seus quarenta e nove anos que ainda falta muito para descobrir por que as lágrimas escorrem sem parar...)