quarta-feira, 28 de abril de 2010

Olhos



Encontro papéis velhos e alguns poemas entre eles este suave e profundo como as paixões como a razão como a emoção como a regra...


Eu tenho um coração aéreo
e um olho alado
um voa,
outro avoa
e quando me perguntam
onde andam...
um leve,
outro me leva
e quando me provocam
pelo destino...
um some,
outro revoa
e assim convivem
meu coração que voa
e meu olho alado,
um dentro de mim,
outro ao meu lado.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Salve, Jorge. Saravá.



Hoje é o dia de São Jorge. Hoje é dia de festa. Hoje é dia de mantras. Hoje é dia de salves. Hoje é dia de axés. Hoje é dia de rezas. Hoje é dia de orações. Hoje é dia de saravás. Hoje é dia de lendas. Hoje é dia de verdades. Hoje é dia de pais e filhos chamados Jorge. Hoje é dia de tantos Jorges. Amados. Bens. Belos. Feios. Rotos e esfarrapados. Guerreiros. Lutadores. Gigantes. Sós. Acompanhados. Hoje é o dia do santo. Hoje é o dia de São Jorge. E o dragão nosso de todo dia nos dai hoje. Agora e na hora da nossa sorte. Amém. Saravá. Salve, Jorge. Da Capadócia ou da Pompéia, salve Jorge. Aos amigos que lembraram. Aos inimigos que não me alcançaram. Salve Jorge.


Dia de São Jorge
Dia de São Jorge matar seu dragão
Dia de São Jorge matar o dragão de todo dia
Dia de São Jorge
Dia de São Jorge viver na lua
Dia de São Jorge viver na lua de toda noite
Dia de São Jorge
Dia de São Jorge ser santo
Dia de São Jorge ser santo de todos os cantos
Dia de São Jorge
Dia de São Jorge ser puro
Dia de São Jorge ser puro como todos os santos
Dia de São Jorge
Dia de São Jorge ser Jorge
Dia de São Jorge ser Jorge de todos os jeitos...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Testamento


Um poema inocente,
um longo poema.
Uma noite mal dormida.
Um santo homem.
Uma elegia e
uma auto-poesia.
Se eu viver amanhã,
viverei feliz.

domingo, 18 de abril de 2010

Lapidação




O pátio dos milagres
O pátrio poder
A pátria patriarca
A língua pátria

Português
Pode parecer poesia
Prosa parecer poderia
Porém
Vai a noite, vem o dia
E persiste a prosopopéia
Que insiste em ser
Epopéia de si mesma
Pode parecer piada
Piada parecer poderia
Mas o pátio dos milagres está cheio
De poetas sem poesia

Português
Pega teu rumo
Apruma a proa
A bruma assopra
O vento a vela leva
E no oceano da palavra
O lapidador lavra
A jóia com maestria
Dá a forma com lisura
Lapida a dor que brilha
E o sol que nasce da moldura
Pode parecer loucura
Poesia, poesia, poesia...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Escolhas







Diamantes podem ser roubados.
Lembranças, não.
Diamantes podem ser desvalorizados.
Sonhos, não.
Diamantes podem ser imperfeitos.
Ideais, não.
Diamantes podem ser destruídos.
Caráter, não.
Diamantes podem ser perdidos.
Vidas, não.
Diamantes podem ser falsos.
Verdades, não.

Por tudo isso,
prefiro minhas lembranças, meus sonhos, meus ideais,
meu caráter, minha vida e minha verdade.

Diamantes, não.




terça-feira, 13 de abril de 2010

Hai-kai



Não é que eu durma mal:

é que eu prefiro reticências

a um ponto final...


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Chico Xavier



Duzentas? Trezentas?

pessoas deixavam a sala do cinema

- silenciosamente

- emocionadamente

- civilizadamente

- introspectivamente:


elas entenderam...

domingo, 11 de abril de 2010

Às minhas filhas




Existem flores azuis
Existem flores grenás
Julia é uma flor anil
Beatriz, uma flor rosa
E sou um pai verde,
Todo verso e todo prosa.

sexta-feira, 9 de abril de 2010



Tirou-me o sono

uma última lágrima seca

que não caiu...

Não sei se é conjuntivite

ou

a puta que não pariu.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ego



Depois da Páscoa
é a minha vez
de ressuscitar:
quando eu me encontro
comigo
sou eu, sou seu,
meu melhor amigo eu.

São Sebastião






Sebastião me guiou
por Brasília.
Rodoviária, Catedral,
Ministérios, Três Poderes,
Planalto.
Justiça. Se a há. E haverá.
L2. L3. L4.
W3 Sul. W3 Norte.
Que o acompanhe
Nossa Senhora da Boa Morte,
amigo Sebastião...

Minha poesia







Minha poesia, por vezes
ultrapassa o próprio espaço,
espaçosa e leniente,
inconstante e inconveniente.

Passa pelo escasso
comprimento da jornada
e como quem nada quer,
dá o passo maior que a perna.

É uma poesia falada,
mal acostumada,
maleducada - como dizia minha avó,
que me criou e bem educou dentro de um apartamento no centro de São Paulo.

Talvez por isso,
seja tão larga a minha poesia,
caminhante do largo do Paissandu ao Anhangabaú,
do largo Padre Péricles às baixas terras da Água Branca.

Caminhante, poesia andante
parecendo cavaleiro
da triste figura,
se ilustrada.

Poesia falada, caiu do alto do Edifício Itália
para virar pó na avenida Ipiranga...
Poesia empoeirada,
do pó veio e ao pó voltará.

Poema que flutuou no espaço, feito lágrima seca que cai
sem lágrima deixar de ser.
História. Lembranças. Andanças e voos.
A gramática é nova, mas a dor é eterna.

Não se pare um poema sem dor.
Ainda que com humor.
Rimas pobres,
pobres homens...

Da poesia espaçosa,
da poesia espacial
alimentam-se os seres evoluídos que transitam de Andrômeda a Pasárgada,
passando por proparoxítonas plêiades.

Meu avô já o sabia. Meu pai, repetia.
Eu apenas escrevo para que um dia
minhas filhas tenham um testamento para ler:
tenham a espaçosa poesia que um dia ousou voar.