quarta-feira, 26 de maio de 2010

A mão infantil


A dimensão da mão infantil.
A mão aprendiz.
A mão sutil.

É imensa
a mão infantil,
como imenso é seu toque.

É intensa
a mão infantil,
como é intenso o seu toque.

É suave
a mão infantil,
como suave é o seu contorno.

A dimensão da mão
infantil
é a medida frágil
das nossas lembranças.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Falta pouco...






Pela direita, pela esquerda
Por baixo, por cima
Pelo bem, pelo mal
Quero sair de banda
Do meu inferno astral

Com fé e com força
Faca amolada e canivete
Com todo instrumental
Quero sair de banda
Do meu inferno astral

Por baixo d’água
De pára-quedas
Cortando o pré-sal
Quero sair de banda
Do meu inferno astral

Com o passar dos dias
Contagem regressiva
Cronômetro e coisa e tal
Quero sair de banda
Do meu inferno astral

De espírito elevado
Com o peito aberto
De forma animal
Quero sair de banda
Do meu inferno astral

De olho no i-ching
Na lua em capricórnio
E no horóscopo oriental
Quero sair de banda
Do meu inferno astral

Peço a licença de todos e
Com o perdão pelas rimas,
Lanço a estocada final:
Definitivamente,
Quero sair de banda
Deste meu inferno astral.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Escrever


(para Quintana, que conheci menino - ele -, e já velho - eu, nos idos 80...)

escrever é meu habitat
escrever é meu espaço
escrever é meu estado
minha cidade, minha vila

escrever é meu mundo
escrever é meu estilo
escrever é meu estado
minha temperatura, minha altitude

escrever é meu momento
escrever é meu esmero
escrever é meu estado
minha atitude, meu humor

escrever é meu inverno
escrever é meu estio
escrever é meu estado
minha liquefação, minha solidez

escrever é meu cio
escrever é meu espírito
escrever é meu estado
minha alma, minha arte

escrever é meu inteiro
escrever é meu completo
escrever é meu estado
minha sina, minha sorte...


domingo, 16 de maio de 2010

Formas




esfera
nem Lua, nem Terra

pirâmide
dos nossos ângulos finais

cubo
a quadrada solidão

vácuo
a forma perfeita da nossa imperfeição


quinta-feira, 6 de maio de 2010




Hoje eu estou todo prosa. Sem motivo ou razão aparente. Mas a verdade é que existem dias poema, dias conto, dias novela, dias crônica. Hoje parecer ser crônico. O marido da crônica. Tenho visto o sol nascer de segunda a sexta. Meu companheiro de tantas manhãs acorda róseo, rubro, dourado e dá à atmosfera azulada um tom de tela surrealista. O dia amanhece tridimensional. Nasce silencioso. Brota sensual. O sol rompe o horizonte intrometido entre as nuvens e vai-se impondo masculino e viril ao desejo matinal. A vida começa a agitar-se como uma mulher na cama ao lado do macho que a atiça. E vice-e-versa. Nas camas os casais despertam com sede de vida. O quente provoca o frio. Arrepiam-se. O tenor excita a soprano com o risco de produzir sopraninos matinais. O padeiro bolina a garçonete com o risco de assédio sexual. O poeta deflora a poesia sem riscos, só com palavras ditas entre lambidas na orelha. Das casas cheiram sexo, café recém-coado e pão queimado. Os ruídos compõem em crescente uma sinfonia caótica. Chuveiros, carros, colheres, sussurros, despertador. Primeiros prazeres confundem-se com os deveres primários. Prazeres primatas. Animais. Escravos despertam para suas labutas. Amantes acordam suas putas. Soldados ensaiam outras lutas. Um vai-e-vem de corpos comemora a diversidade. Homens e mulheres. Homens e homens. Mulheres e mulheres. De todas as idades. Das diferenças. Das comunhões. Fiéis e infiéis. Loucos e normais. Fracos e fortes. Senhores e senhoras. Senhoras e senhores, hoje eu acordei todo prosa sem motivo ou razão aparente. Por isso, vou dar-me ao luxo de espreguiçar, tirar a ramela dos olhos e, voyeur, ficar espiando o sol fazer amor com as nuvens. Viver é um tesão.

domingo, 2 de maio de 2010

Do calor




Há um calor que anima
Há um calor que orienta
Há um calor que extermina
Há um calor que alimenta
Há um calor que excita,
Que provoca, arrepia
Há um calor que extenua
Há um calor que deforma
Há um calor que continua
Há um calor que conforta
Há um calor que escalda
Que arde, aquece, ferve
Há um calor que não se explica
Há um calor que não se apaga
Há um calor que não se cabe
Há um calor dentro de mim
Tão calor, tão meu, tão forte
Que de tão real, a morte
Fria não queima até o fim.