terça-feira, 29 de junho de 2010

Bolsa de valores


Caderno de poezias

Bolsa de valores

De que me valem as belas palavras
Se as palavras mais belas são mentiras?
De que me valem as reflexões
Se aquilo que penso não faço?
De que me valem as boas intenções
Se o inferno está cheio deles?
De que valem as frases feitas?
De que valem os advérbios?
De que valem as velas acesas?
Se os mortos vivem mais que os viventes,
As atitudes intermináveis acabam e
A verdade, ora, a verdade é mentira...?

domingo, 27 de junho de 2010

O tempo


Redassão

O tempo

O tempo passa para todos.

Ao menos era assim que a minha avó falava. Eu acho que ela estava certa. O tempo passou para ela, o tempo passou para minha mãe – filha dela –, o tempo passou para mim, neto dela.

Quando eu percebi que o tempo passava para todos, fiquei preocupado. Meus amigos de infância me acompanhariam por toda a vida? Ficaríamos velhos juntos? Continuaríamos amigos?

Era muito novo e tinha tantas dúvidas, tantas interrogações, tantas lacunas a preencher...

Só havia então uma coisa a fazer: deixar o tempo passar e ver no que daria.

É difícil definir exatamente o tempo. Até por que o passar do tempo parece variar de uma pessoa para outra, de uma situação para outra. Outro dia passei horas pensando nisso. Quando percebi, já era noite. O tempo havia passado.

Às vezes fico em dúvida se o presente é o fim do passado ou o começo do futuro. Também me pergunto quanto tempo dura o presente. Se estou vendo um filme – no presente –, parece que entrar no cinema ficou no passado e o futuro será sair para um lanche. Sob esse ponto de vista, o presente é um saco de pipocas e um refrigerante.

Se estou pensando em namorar – no presente –, dá impressão que a infância ficou no passado e a maturidade virá no futuro. Pensando assim, o presente é um correio elegante.

Como estou vivo – no presente –, percebo que a morte da minha avó ficou no passado e a minha morte um dia será. Conclusão: o presente é o tempo entre duas mortes.

O tempo passa para todos. A minha avó estava certa. E ela nem chegou a ver o tempo que se passa entre a transmissão da televisão aberta e a da televisão a cabo. O presente é um delay.

sábado, 26 de junho de 2010

A Lua


Redassão

A Lua

A Lua brilhava sobre a Terra.


Única. Soberana.

Noite de Lua cheia é sinônimo de fantasias.

Fantasias são aqueles desejos mais secretos que trazemos dentro de nós e que buscamos realizar com prazer e determinação – não necessariamente nessa ordem.
Ordem é aquilo que acreditamos ser a posição relacional de todas as coisas do universo.

Universo é um ambiente infinito que contempla galáxias, estrelas, planetas, cometas, asteróides, satélites.
Satélites são planetas ou planetóides que giram, em movimentos chamados órbitas, em torno de outros corpos celestesque podem ser uma estrela – como o Sol, de quem a Terra é satélite – ou a Lua, satélite da Terra.

Também existem os satélites artificiais, corpos de metal e plástico e outros materiais maleáveis construídos pelos humanos terráqueos e colocados em órbita do planeta para espionar uns aos outros – principalmente.

Mas a Lua é um satélite natural da Terra e faz parte das fantasias dos terráqueos de diversas formas, desde a lenda do lobisomem até a imagem de São Jorge matando o dragão que se projeta entre as crateras e as montanhas lunares em homenagem ao santo padroeiro de Portugal, da Inglaterra, dos corintianos.

Em noite de Lua cheia nos tornamos poetas. Em noite de Lua minguante, minguamos. Em noite de lua crescente, tomamos coragem para enfrentar os nossos dragões. E em noite de Lua nova fazemos promessas e manifestamos nossos desejos.

Desejos são aquelas fantasias que acreditamos estar ao nosso alcance – como matar dragões, amar desinteressadamente ou ser felizes em nossas vidas profissionais.

Moral da história.

Se a pipoca ficar mais de três minutos no microondas ela queima.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

A cidade


Redassão

A cidade

A cidade me move. A cidade me comove.

Nasci na cidade, na cidade cresci. Menino, adolescente, jovem, adulto, maduro, caindo do pé, na cidade me reconheci em todas as fases da minha vida.

Da cidade vi e vejo o mundo. Do bairro vejo a cidade. Da rua vejo o bairro. Da casa vejo a rua. E da janela vejo a casa, o bairro, a cidade, o mundo.

Não há nada mais importante do que a minha janela. Só a minha cidade.

A cidade me assola. A cidade me consola.

Meus pés conhecem os caminhos da cidade. Até os becos, as vilas, as passagens eu conheço. As servidões, os desvios, as vielas eu conheço. O centro e a periferia da cidade.

Conheci padres, barbeiros, padeiros e poetas da cidade. Convivi com todos. Conheci prostitutas e professores da cidade. Aprendi com todos. Conheci cidadãos e estrangeiros da cidade. Viajei com todos.

Ganhei os limites e perdi os limites na minha cidade.

Na cidade ri, sorri, chorei, escrevi. Mijei nas calçadas. Bebi nos bares. Rezei nos templos. Corri no asfalto da cidade. Quilômetros e quilômetros. Milhares deles.

Na cidade visitei os cemitérios e as maternidades. Os velórios e as floriculturas. Os lugares mais inusitados e os mais comuns.

A cidade é o meu lugar. A cidade é o meu universo.

Na cidade amei, na cidade vivi, na cidade morri.

Jogaram minhas cinzas sobre a cidade durante um por do sol inteiro.

Depois veio a noite de lua nova.

domingo, 20 de junho de 2010

A música



Redassão

A música

A música encantava.

Era literalmente divina. A voz dos deuses.
Tornava momentos comuns em momentos sublimes.

Tinha cor, era dourada.

Tinha sabor, era doce.

Tinha forma e movimento, saía da pauta para a atmosfera e sua melodia envolvia e seu ritmo conduzia e sua harmonia aproximava os apaixonados e os indiferentes, unia os opostos e os iguais, agrupava os solitários e os amigos.

A música era única e ao mesmo tempo era muitas. Eu fechava os olhos e tentava me deixar levar por ela.

Por muito tempo a música esteve presente em minha curta existência. Falávamos a mesma língua. Vibrávamos no mesmo compasso. Dançamos. Fizemos coro.

Passeamos de mãos dadas, a música e a poesia. A flauta e a caneta. A pauta e o papel.

Um dia a música foi diminuindo suas visitas e a minha casa viveu conheceu experimentou o silêncio. Perdi a musica.

Não me lembro o dia ou o mês. Nem o ano. Nasceu a falta.
Lembro que eu via música em outras pessoas. Via música em lugares estranhos e impuros. Via música em altares hipnóticos.

A música percorria lugares lúgubres, escuros, ocos. Em vez de enfileirar as estrelas, vazava o negro vácuo em sua procura.


Onde foi parar a melodia?

Como num relâmpago, uma cena se configura em minha mente e responde que, muda, a música se perdeu.

Ou fui eu que ensurdeci? Pois há vários dias parece que vejo a música à minha volta, eterna e viva, vestida de poesia.

sábado, 19 de junho de 2010

O quadro



Redassão

O quadro

O quadro era bonito. Ficava na parede da sala, sobre um vaso com uma pequena folhagem verde.
Quando eu olhava para o quadro tentava entender o que o pintor queria dizer com aqueles círculos que pareciam órbitas, igual ao sistema solar.
Mas não eram Mercúrio, Vênus, Terra, Marte... que estavam no quadro. Não era o sistema solar, nem qualquer outro sistema.
Eram círculos alguns concêntricos, outros que se entrelaçavam, uns que davam a ilusão de uma espiral sem fim.
Não me lembro quem pendurara o quadro na parede da sala.
Minhas lembranças de alguma forma se associavam ao quadro.
Minhas lembranças pareciam círculos, histórias que tinham começo, meio e no final encontravam-se novamente com o começo de si mesmas ou de outras histórias que ora se repetiam como os círculos concêntricos, ora se entrelaçavam como alguns outros, ora apontavam numa espiral sem fim que devia ser a morte – um misterioso funil de lembranças como as minhas lembranças que de alguma forma se associavam ao quadro.
O quadro bonito na parece sobre o vaso de folhagens verdes parecia dizer alguma coisa sobre mim mesmo.
Era como senhor das minhas lembranças e era ao mesmo tempo uma das maiores recordações que eu tinha da casa.
A casa não existe mais. Foi embora quando fizeram um grande condomínio onde ela e as outras iguais a ela ficavam.
A parede não existe mais. Foi embora junto com a casa.
O quadro não sei se existe. Talvez apenas nas minhas lembranças circulares.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A fada


Redassão


A fada


A fada vivia no mundo da Lua.

O mundo da Lua é um lugar distante e maravilhoso.

A fada vivia sentada no balanço lúdico que a lua minguante formava com a via Láctea.

Ao balançar, a fada pensava na vida e olhava as pessoas na Terra.

A Terra é onde vivem as pessoas que acreditam em fadas e também as que não acreditam.

Ao pensar na vida, a fada percebia que apesar de estar sozinha não sentia solidão.

Estrelas, asteróides e planetas fazem companhia à fada. Até cometas, se bem que só de vez em quando. Mas sempre voltavam...

A Terra, de uma certa forma, também divertia a fada.

Pelo menos as pessoas não aborrecidas.

As pessoas aborrecidas da Terra aborreciam a fada lá no mundo da Lua.

Na verdade, as pessoas aborrecidas da Terra se aborreciam sozinhas. Nem precisavam da fada – muito menos do mundo da Lua – para seus aborrecidos aborrecimentos.

A fada ficava triste em ver isso.

Balançava no balanço e balançava a cabeça, sem concordar. Ela sabia que era possível viver no mundo da Lua, sozinha sem ser solitária, feliz sem perder o encanto. Era tão fácil encontrar a felicidade em si mesma...

Do mundo da Lua, a fada olhava para a Terra e sentia pena daquelas pessoas aborrecidas.

Na Terra, um imbecil ou outro não acreditava em fadas.

sábado, 12 de junho de 2010

O trem fantasma


Redassão

O trem fantasma

O trem fantasma era velho e engraçado.


Ficava no fundo do parque de diversões, atrás da roda-gigante.

Tinha carrinhos velhos do trem fantasma, enferrujados, barulhentos, com as cores desbotadas, descascadas em muitos pontos que deixavam ver um fundo escuro, quase negro.

As barras platinadas deixaram no passado seu brilho e misturavam um misto de gordura e suor de centenas, milhares de mãos que nelas se agarraram em defesa dos trancos e dos sustos.

O primeiro susto é a saída do iluminado ambiente proporcionado por lâmpadas amarelas, vermelhas, azuis e incolores dispostas em desordem para o mergulho na escuridão total – algo parecido com a morte – ou como a morte deve parecer.

O atrito do carro com os trilhos provoca um rangido ensurdecedor.

A velocidade da pequena reta é bruscamente interrompida após uma curva de noventa graus e o primeiro susto mistura o escuro, a freada e a visão de uma caveira que se ilumina num relâmpago para cachoalhar os ossos enquanto o carro retoma com rapidez o caminho trilhado.

Seguem outros sustos semelhantes: uma aranha raspa as cabeças, uma ventania tenta arrepiar. Um caixão se abre tão rapidamente que nem dá para entender direito quem vive morto dentro dele nem o porquê foi enterrado de cartola.

Não dá para saber quanto tempo se passa do primeiro ao último momento vivido dentro do trem fantasma.

Nem é possível saber se o tempo é maior para quem está dentro, vivendo seus medos, ou para quem fica fora a esperar.

Como não dá para saber se quem ficou de fora tinha apenas medo de entrar no trem fantasma.




quinta-feira, 10 de junho de 2010

A borboleta azul


Redassão
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
><
.
.
A borboleta azul

O cerrado com sua vegetação intrincada, troncos retorcidos, parasitas e cipós que se entrelaçam com a atmosfera umedecida pela água que corre entre pedras lodos e folhas e por onde passa forma desenhos que tramam com o improvável e estimulam a imaginação.

Cenário bucólico e ao mesmo tempo terrificante, predominam o marrom e o verde em tons variados, o cinza das pedras e o amarelo dos seixos.

O silêncio não é silêncio é o barulho da água correndo ora no meio das folhagens ora sobre os pedregulhos ora caindo em pequenas cachoeiras que lembram as passagens entre a vida e a morte, sucessivas histórias.

O céu da tarde aparece e esconde, esconde e aparece entre a copa das árvores. O sol está perdido em algum horizonte. O horizonte começa a ganhar um contorno amarelo laranja vermelho lilás até.

A vida forma figuras e as transforma em pequenos mistérios. Parece tudo. Deuses. Mulheres. Feras. Dentaduras. Monstros. Parece até o que não se sabe bem o que é ou o que poderia ser. Cobras. Serpentes. Escorpiões. Corações. Cérebros. Rins. Batráquios. Deusas. Homens. Centauros. Utensílios. Olhos.

O sangue sobe o céu de um lado e do outro lado as cores se confundem se fundem e formam novos tons aquarela tons pastel tons híbridos tons marinho tons petróleo.

A borboleta azul passa na minha frente.


terça-feira, 8 de junho de 2010

O cão


Redassão


O cão

O cão apareceu ninguém sabia de onde.

Não se sabia nem que raça de cão aquele cão era.

Tinha olhos castanhos e tristes.

Pareciam olhos secos.

Era um cão quieto, acanhado, acabrunhado, acantonado onde quer que nenhuma pessoa bulisse com ele.

Assim não o chutavam. Assim o ignoravam. Assim o deixavam.

Num canto da casa tinha uma bicicleta velha sem rodas.

Tinha um depósito onde se guardavam coisas velhas.

Muita coisa estragava com o tempo.

Algumas coisas resistiam ao tempo.

Quando o cão chegou não incomodou. Não latia nem uivava.

Era macho.

Os olhos tristes e secos apenas acompanhavam o vai-e-vem das pessoas como se nada vissem.

Vivia de restos que alguém jogava.

Acho que por vezes passou fome.

Debaixo da bicicleta sem rodas ninguém perturbava o cão.

O cão entrava e saía sem se fazer ver.

Não fazia diferença.

Não tinha graça nem desgraça.

Não brincava nem sofria. Cachorro sofre?

A maior manifestação de alegria do cão pareceu o dia em que correu atrás de uma ratazana. Acabou logo que o bicho passou por um buraco na cerca.

Um cão caçador.

Um dia sem sol eu cheguei perto do cão.

Ele parecia gente. Parecia que ia falar.

Olhei firme para ele. Parecia que ia falar.

Passei a mão sobre a cabeça dele.

O cão virou-se num movimento rápido e mordeu minha mão, agarrou meu braço e dilacerou pele, nervos, músculos.

Alguém matou o cão.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A festa




Redassão: A festa.

A festa estava muito boa. Era muita gente bonita junta.

Tinha umas meninas de vestido cor-de-rosa e uns meninos de calça azul-marinho.

Veio gente de todos os cantos.

Tinha uns que falavam alto. Tinham uns que sussurravam.

Num canto contavam anedotas. Noutro canto faziam confissões.

O prefeito não perdia a chance de pedir votos.

O dono do armazém parece que estava cobrando uma conta.

O padeiro não ria.

De vez em quando rodava uma garrafa de uca.

Vez por outra vinha da cozinha um cheiro inconfundível de café coado.

As tias velhas não perdiam assunto.

A mais velha de todas, a Assumpta, impunha respeito.

Eu não entendia muito bem tudo o que acontecia.

Era muita gente junta. Gente de todos os cantos.

Era um falatório e de vez em quando um calado só.

Palavras bonitas, muitas desconhecidas, eu ouvi naquela noite.

Minha cabeça nem guardou todas. Eram muitas.

Apareceu sanduíche de mortadela no pão.

Alguém falou que o padre só estava lá para comer.

Logo ele, tão bom...

A tia Adalgisa andou brava. Não entendi direito.

O tio Albertino não dizia nada... e eu sabia que estavam falando dele.

Bem mais tarde a família ficou e os amigos e os desconhecidos e o padre se foram.

A tia Adalgisa desandou a chorar, a gritar, a bater no pobre do tio Albertino.

Coitado, nem reagiu. Também, pudera. Deitado dentro daquele caixote de madeira sobre a mesa...

sábado, 5 de junho de 2010

Cortes





Por vezes cortamos a barba
e por vezes cortamos o rosto...

Por vezes cortamos a corda que nos prende as mãos
e por vezes cortamos os pulsos

Por vezes cortamos a gravata do nó sufocante
e por vezes cortamos o grito travado na garganta

Cicatrizes e cortes
Vidas e mortes
Facas giletes canivetes estiletes
E sangue e voz e tinta e força

Por vezes vivemos
e por vezes cortamos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Livro com a história dos imigrantes gregos será lançado em Brasília



Quando pensamos na Grécia, uma das primeiras ideias que surgem é a de tempo, de tempo antigo, de História. Pouco sabemos sobre a história da Grécia Moderna – e menos ainda sobre os que imigraram para o Brasil. Para preencher essa lacuna, a jornalista Vassiliki Thomas Constantinidou escreveu “Os Guardiões das Lembranças – Memória e Histórias dos imigrantes gregos no Brasil”, livro que registra através de relatos orais o percurso dessa comunidade que faz parte da vida brasileira há quase 170 anos. Lançado em 2009, o livro resgata parte da trajetória dos imigrantes gregos que vieram para o Brasil, desde o século XIX até os anos 60, restabelecendo o fio da memória através das vozes de imigrantes e descendentes de diversos estados do país.


“Rostos, cheiros e sabores ganham vida novamente, revivendo parte da história oculta na paisagem brasileira”, diz Vassiliki, que encontrou, em Brasília, gregos que fizeram parte dos pioneiros e desbravadores da região, durante a construção da Capital Federal nos anos 50. Segundo a pesquisa, em 1965 eles fundaram uma associação com o objetivo de reunir os imigrantes gregos e cultivar as tradições de origem. Este mês, eles comemoram os 45 anos de fundação da Sociedade Beneficente Cristã Greco-Ortodoxa. “Nos anos JK, durante a ‘marcha para oeste’, com o objetivo de transformar a região do cerrado num ponto de integração do país, muitos gregos se estabeleceram em Brasília, Goiânia e Anápolis”, ressalta Vassiliki.
A obra - escrita em português e em grego - é um convite ao olhar, uma janela aberta ao passado, uma espécie de fio de Ariadne tecido com histórias, caminhos e sonhos. Assim, conduz o leitor ao encontro das raízes e da sensação de pertencimento, revelando a saga, a cultura e parte da desconhecida - entre nós - história da Grécia Moderna.

Odisséia de retornar a um tempo esquecido
Uma das coisas que mais ouvimos dos gregos é “siga, siga”, que, traduzido ao pé da letra, seria “devagar, devagar” ou o correspondente do nosso dizer “devagar se vai ao longe”. Praticamente não há conversa na Grécia em que não seja escutada essa expressão, como um conselho para as mais diversas situações. A sabedoria de quem vive num “tempo longo”, parece mesmo ser deles. Vassiliki usou dessa sabedoria para não desistir de um projeto que levou 16 anos para chegar a esse livro. Resultado de pesquisa histórica e 70 entrevistas realizadas desde 1993, o livro reconstitui parte da história da imigração grega no Brasil, através de depoimentos e um rico acervo iconográfico, composto por 380 fotos.


A narrativa resgata sonhos e lutas, as difíceis condições enfrentadas durante a viagem, profissões, as razões que os levaram a emigrar, como se adaptaram à nova realidade, além de uma linha do tempo sobre a história da Grécia Moderna. A autora é jornalista, nasceu em Atenas e chegou ao Brasil com três anos. Partindo da sua capacidade de pesquisadora, conseguiu reunir depoimentos, organizar a cronologia histórica e desenhar um mosaico, uma espécie de espelho, que reflete a eterna trajetória humana. Combinando isso com uma forma artística, visceral e afetiva de uma pesquisa que é, em parte, a sua própria história e da comunidade a que pertence. Essa é, portanto, uma obra viva, além de ter um rico material fotográfico e documental que acompanha a narração baseada na memória oral.


O livro “Os Guardiões da lembrança” é um registro gráfico que coloca disponível, para as gerações futuras, “uma janela aberta sobre um universo distante. Um convite ao olhar, uma viagem a um tempo esquecido, que só existe na memória dos velhos - os guardiões das lembranças”. Com projeto gráfico de Joel Trottier e tradução para o grego de Kriton Iliopoulos, a edição foi patrocinada pelo SAE - Conselho dos Gregos do Exterior – Coordenação Regional para a América Central e do Sul.


O site www.gregosnobrasil.com.br também faz parte do projeto de constituir um acervo sobre a imigração grega no Brasil, tendo como base a história oral. Nele, é possível conhecer outras histórias e fatos sobre os imigrantes gregos no Brasil, navegar pelo livro, acessar depoimentos (em grego e português) e assistir ao audiovisual - que contempla boa parte do acervo fotográfico da obra.


Quando cheguei à cidade em construção, eu pensei: aqui tem futuro. Aí fui trabalhar na construção do prédio do Congresso Nacional. Eu não tinha profissão, então tinha muitos que trabalhavam de mascates. Compravam roupas em São Paulo e vendia aqui. Tinha acampamentos lá, na Vila Planalto. Tinha 100 acampamentos de trabalhadores, com 100 bicamas cada um, bem organizados. Tinha os acampamentos dos engenheiros, a parte dos que tinham família – tudo madeira - tinha também igreja.
Aí um dia o Panayote (dono da madeireira) passou e disse: você não está fazendo nada, vem comigo. Fomos, que ele precisava tirar um pedido de portas com o administrador. Eu vendia roupa. O acampamento era cercado de arame farpado e nós íamos do lado de fora para vender roupas. Não podíamos entrar, ficávamos do lado de fora e o pessoal do acampamento não podia sair. O pessoal do nordeste ganhava o dinheiro e comprava uma calça, uma roupinha,botinas...
Na volta, eu vi que ele tinha muita amizade e falei: você podia falar para ele para me deixar entrar lá dentro para vender roupa, em vez de ficar lá fora...Ele não me falou nada, só deu uma volta com o jeep assim – zippp- e voltamos para trás. Vamos lá falar com ele. - - Ele disse, olha: meu amigo, patrício, bom rapaz e vende roupas junto com os mascates aqui. Não dá para ele entrar aqui dentro?Ele disse não. - Por que? - Porque entrar como mascate não. Você me dá a madeira e eu vou mandar fazer aqui uma lojinha para ele vender. Depois disso, do lado de fora, onde eram os mascates, começaram a fazer barracos e abriram uma rua só de comércio. Mas eu já estava lá dentro...
Depois, tinha um amigo meu que fez uma padaria lá em Taguatinga, e trazia pão para a cidade livre. Um dia eu não tinha trabalho, e ele me disse. Ilias, vamos comigo para fazer o pão (Taguatinga estava começando) Ele tinha família na Grécia, mas ainda não tinha trazido, estava sozinho. Chamava Stylianos Kokinos, 2 metros assim, loiro. Então vamos lá. Tinha um salão de alvenaria, 2, 3 quartos, tinha um forno que botava lenha dentro, esquentava e como fazia o pão? Tinha uma tina de madeira enorme no meio. Começou a colocar farinha, depois água e como que vai fazer isso? Ele me deu um short e disse vai tirar a roupa e venha aqui. Pegou as duas cordas, na hora que volto, vejo ele pá, pá, pá, dentro da massa. Depois tirava colocava na mesa e cortava a massa e depois no forno. Ficamos lá o dia todo, à noite pensei: eu estou comendo desse pão aqui...e tava gostoso...o suor todo lá dentro. Elias Demétrios Grintzos , Brasília 2008.

Meu pai, Antonio Stefan Minadakis, abriu um restaurante em Goiânia, por volta de 1955/56. Naquela época, a comitiva de JK descia em Goiânia e seguia para Brasília de carro. Paravam para almoçar no famoso “Frango do grego”. Mario Minadakis, Goiânia 2008.


Serviço:

Lançamento do livro “Os Guardiões das Lembranças: Memória e Histórias dos Imigrantes Gregos no Brasil”
Autora: Vassiliki Thomas Constantinidou
Local: Livraria Cultura (Shopping Center Iguatemi, SHIN CA4, Lote A, Lago Norte, Brasília, DF)
Data e horário: Quarta-feira, 9 de junho de 2010, 19 horas
Edição Bilíngüe: português e grego
Ano: 2009
ISBN: 978-85-906406-1-5
Páginas: 300
Preço: R$60

Locais de venda
Site www.gregosnobrasil.com.br
Livraria da Vila / SP
Centro Kavafis de Cultura Helênica / SP: (11) 3032-3939 / centrokavafis@uol.com.br

Contatos para entrevista
Vassiliki Thomas Constantinidou
Telefone: (11) 3285-1012 / (11) 9628-1651
E-mail: vassiliki@uol.com.br


Vassiliki Thomas Constantinidou nasceu em Atenas, (em 24 de junho de 1950), e chegou ao Brasil com três anos de idade. É jornalista e membro fundador do Centro Kaváfis de Cultura Helênica. Foi curadora da Exposição “Nossas Mulheres de Atenas” – sobre mulheres imigrantes gregas, com fotos de Olga Vlahou.

“Os Guardiões da Lembranças – Memória e História dos Imigrantes Gregos no Brasil” é o seu segundo livro, tendo publicado, em 2006, “A doçura da terra – Histórias e Lembranças de Antonio Pavan e Noemia Foltran Pavan”, uma biografia familiar. Dedica-se exclusivamente à pesquisa através da História Oral desde 2001. Antes, trabalhou nas áreas de Comunicação e de Assessoria de Imprensa da Eletropaulo e do Banco Itaú.