sábado, 31 de julho de 2010

Calibre, colibri



Caderno de poezias



Calibre.

Tua pesada arma letal mata qualquer esperança.

Tua fascínora passividade agride qualquer vã filosofia.

Tua indiferança existencial não faz a menor diferença.

Tua presença só existe ante a tua ausência.

O que dizer do calibre das tuas balas de hortelã,

Colibri?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Minhas férias




Redassão

Minhas férias

Minhas férias foram muito boas.
Passei quinze dias sem notícias do Brasil. Para não ser uma criatura completamente alienada, alguém em algum lugar me comunicou que a seleção brasileira de futebol tinha um novo técnico. Mano.
Outra coisa que fiz (ou não fiz, já que não tive notícias) foi esquecer que o telefone celular existe. Até que um dia, numa loja, ouvi o toque característico de uma mensagem entrante. Podia entrar onde quisesse: não era no meu aparelho. Mano...
As minhas férias foram intensas. Em alguns instantes pensei na vida. Pouco. Muitos outros momento preferi viver sem pensar. Um exercício e tanto. Senti a deliciosa sensação de ser uma criatura sem passado, sem presente, sem futuro. Mano...
Pulei na piscina de relógio. Dancei rock de dia no meio da rua. Batuquei um frevo nas coxas (na parte acima dos joelhos). Tomei refrigerante todos os dias. Não me pesei nenhum deles. Nunca fui dormir antes de uma da manhã. E nunca reclamei de acordar. Mano...
Deixei de lado pequenos vícios como escrever todos os dias. Não escrevi uma linha até a hora de voltar. Reclamei muito pouco. Dei muitas risadas - até do que não tinha graça. Contei piadas sem graça. Tomei sorvete e me melequei todo. Comi hamburger e me melequei todo. Mano...
Fotografei muito, pouco com seriedade. Fotografei cabelos, carecas, faces desfocadas. Sem compromisso. Fotografei gente. Fotografei brinquedos. Fotografei parques. Fotrografei-me. Mano...
Minhas férias foram muito legais. Depois de amanhã volto à rotina. Que nunca mais será a mesma. Com certeza, mano...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Verbos


Caderno de poezias

Verbos



Ser
Estar
Agir

Crer
Falar
Parir

Ver
Calar
Ferir

Ter
Amar
Seguir

A conjugação distraída
Nem se deu conta

Do tamanho do universo...


terça-feira, 6 de julho de 2010

A cachoeira


Redassão

A cachoeira

A cachoeira é bela. Impávida. Poderosa.


Derrama um volume incalculável de água sobre as pedras, com tanta força que chega a parecer violenta.


Mostra seu poder. Exerce seu poder. Contamina a atmosfera com um odor úmido e salpica reminiscências que contra a luz simulam arco-íris.


Transforma as pedras e suas pontas em leitos e curvas. Emerge as areias que não se prestam a contar o tempo. Provoca redemoinhos. Convida à vida. Traz a morte.


A cachoeira é alta. Olhar para ela faz ver o céu e cerrar os olhos com a luz do sol quase a cegar. Traz a água sem regras para baixo, com espumas e ruídos.


Em volta da cachoeira, olhos espreitam sem entender exatamente de onde a água vem, para onde vai. Como no poema de Olegário Mariano.


Às margens da cachoeira uma criança brinca, uma mãe descuidada se bronzeia, um homem abre uma lata de cerveja e ri. Num outro grupo, namorados se beijam deitados em toalhas coloridas. Fotografam-se. Riem e falam e beijam e posam.


Nem a borboleta azul que passa nem o gavião que plana nem as nuvens que espreitam importam-se com a cachoeira. São apenas os homens, e os homens sempre são apenas, que tentam entender de onde a água vem, para onde a água vai. Mesmo assim, nem todos.


Um homem abre uma lata de cerveja e ri.