segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Minhas noites

Caderno de poezias


Minhas noites são insuficientes para minhas dores.



Minhas noites são insuficientes para meus amores.


Minhas noites são insuficientes para minha verdade.


Minhas noites são insuficientes para minhas mentiras.


Minhas noites são insuficientes para meus pecados.


Minhas noites são insuficientes para minha autosuficiência.


Minhas noites são insuficientes para meus sonhos.


Minhas noites são insuficientes para minha insônia.


Minhas noites são a dúvida, a incerteza, a impertinência.


Minhas noites são a solidão potencial, o vazio insalubre.


Minhas noites são a rima perdida, o poema quebrado, a poesia não escrita.


Minhas noites são tristes como os meus dias.


Durmo acordado.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Da mentira, hai-kai

Caderno de poezias



Como num porta-retratos vazio
O vácuo da verdade é a mentira
Que corre no escuro o rumo do rio

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Declaração de amor em preto, branco e vermelho

Caderno de redassões


Tuas calçadas, São Paulo, mapeiam a minha história. Como se eu nascesse no Anhangabaú e cruzasse tuas várzeas pelos teus rios, teu Tietê, teu Tamanduateí, teu Pinheiros. Pelo riacho Ipiranga de margens plácidas e bons ouvidos. Como se eu fizesse teus caminhos pelas avenidas de tantas pistas e tantos carros e tantas idas e vindas e tão belos nomes como a Pompéia do Vesúvio, a das Águas Espraiadas como paisagens, a Voluntários da Pátria dos próprios, a São João do bar Brahma. Como se a rosa dos ventos instalada na Sé indicasse a imensa roleta que mostra o destino da gente. É fácil ser poeta em São Paulo. A poesia brota em bairros como Luz, Liberdade, Vila Esperança, Bela Vista, Vila Formosa. A fé brota em tantos santos que um calendário seria pouco: Mateus, Judas, Bento, Catarina, Amaro, Domingos, Miguel Paulista, Cecília. A história brota em tantos lugares como se a ladeira da memória fizesse esquina com a travessa Gondoleiro do Amor. O amor brota do chão paulista, paulistano, alcança o ar, azuleja o céu, brilha estrelas, brinca com a Lua que se esconde por trás do pico do Jaraguá. Quando o dia cisma em virar noite, São Paulo caminha pelas vias congestionadas de esperanças: voltas por cima de Vanzolini; Deus dá o frio conforme o cobertor de Adoniran; trabalho é o Pai Nosso de Tom Zé; tuas oficinas de poetas teus deuses da chuva de Caetano. Tantas vozes, quantas paulicéias desvairadas, desviradas, destronadas, desligadas, desmanchadas, desmembradas, destemidas, despudoradas. Te amo, São Paulo pichada, grafitada, rabiscada, rascunhada. Te amo, São Paulo irrequieta, barulhenta, ruidosa, exagerada. Te amo, São Paulo das vilas, becos, ruas, avenidas, travessas e alamedas. Te amo São Paulo dos parques da Água Branca, do Ibirapuera, do Piqueri, de Itaquera. Do Jardim da Luz, te amo São Paulo do Trianon, nascido Siqueira Campos. Te amo, São Paulo das memórias, das meretrizes, das histórias, das cicatrizes. Te amo, São Paulo das rimas ricas, das rimas pobres, dos sonetos, dos poetas loucos. Te amo, São Paulo dos sex shops, das bocas, do luxo, do lixo. Te amo, São Paulo imprecisa, incorreta, indecente, interessantíssima. Virgem Maria Santíssima: amo São Paulo até debaixo da água que inunda o vale do Pacaembu ou das lágrimas que inundam os santuários profanos da metrópole. Te amo, São Paulo da maternidade, do cemitério, do Pátio do Colégio e da Sé. Te amo, São Paulo da Freguesia do Ó, da Santa Ephigenia, da Achiropita, da Moóca. Te amo, São Paulo da pizza, do pastel de feira, da mortadela do Mercadão, da garapa de cada bodega. Da pinga e do pingado no Cambuci dos meus dezenove anos, te amo São Paulo. Do desenho animado do Minhocão até o colorido louco dos prédios do Centro, te amo São Paulo. Itália, Copan, Martinelli, Caetano de Campos de tanto amor. Da República, da Independência, da Abolição, da Constituição, da Paz, da Consolação: te amo, São Paulo. São Paulo da minha infância, São Paulo adolescente, São Paulo da juventude, São Paulo da adultice, São Paulo que me fez gente, São Paulo, quiçá, da minha eternidade. Quero meu lugar no Araçá. E quando a noite da Morte quiser comigo brincar, quero ser nome de rua. Não pela minha fama, nem pela minha honra, mas pela minha paixão que é tua: pela eternidade de quem te amou ao último instante. Paulistano sou, paulistano vivi, paulistano morrerei amante.

Os pássaros




Caderno de poezias


O pássaro que me acorda em São Paulo
é o mesmo que mesmo que me acorda em Brasília
com dez andares de altura
e uma tonelada de consciência de diferença.
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.

O pássaro que me acorda em São Paulo
desperta-me ferido, fera, acuado, forte e louco
co-mo-a-me-tró-po-le.
Como a metrópole, avanço sobre todas as presas.
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.


O pássaro que me desperta em São Paulo
com seu canto lírico, com seu trinado bíblico,
transforma a manhã criança em mulher da vida
que me escorraça, me arregaça, me destroça em sonhos.
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.


O pássaro que me desperta em São Paulo
tem a faca no cantar e a lança na voz,
tem a força na garganta e o sangue a jorrar,
decapitado cântido de amor e morte.
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.

O pássaro que me desperta em São Paulo
é um funcionário público do cadafalso,
com sua negra veste onde se veem apenas olhos
impiedosa e inapelavelmente negros como a asa da graúna.
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.

O pássaro que me desperta em São Paulo,
com sua linda voz que grita, me mata e me ressuscita
minha morte confirma e minha vida afronta
minha luz cega e meu brilho ofusca
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.

O pássaro que me desperta em São Paulo
me joga do décimo-terceiro andar
e me faz aprender a voar - pois, viver é aprender -,
e, sobreviver, resistir à queda no ar.
A ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.


O pássaro que me desperta para a morte
é o Rei Sol de todas as manhãs da vida
e eu, o mais humilde dos aprendizes, Aquiles e calcanhar.
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá
e, decididamente, a ave que aqui gorgeia não gorgeia como lá.



sábado, 11 de setembro de 2010

Plural

Caderno de Poezias



Com tuas unhas, me unhas

Com tuas garras, me agarras.

Com tuas falas, me falas.

Com tuas mãos,manipula.

Com tuas faltas, me falta.

Com tuas vidas, me matas.

...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Vocabulário

Caderno de poezias




Piolim. Urubu. São Paulo.
Lápis e caneta. Borracha.
Andrades. Mário. Oswald.
Carlos. Calos. Selos.
Filatelia. Ídolos.
Idolatria. Música. Rito.
Drops Dulcora. Padre.
Bento. Papa. Pio. Pedro.
Pedra. Areia. Cal.
Praia. Areia. Sol.
Grande. Veia. Aveia.
Mingau. Cor. Verde.
Laranja. Fruto. Preto e
branco. Fotonovela. Flit.
Calor. Teia. Tela.
Chinelo. Praça. Azul.
Marinho. Quartel. Escola.
Amarelos. Lírios. Roupa.
Jaleco. Pururuca. Tinta.
Academia. Sangue. Papel.
Delírio. Forma. Tostex.
Band-aid. Censura. Henfil.
Mãe. Pai. Irmão. Avós.
A voz. Infância. Jovem.
Adulto. Tempo. História.
Ciências. Currículo. Boletim
Folha corrida. B.O. Biografia.
Ponto. Vírgula. Reticências.
...

17



Caderno de poezias

Dezessete.
Queria ter dezessete anos.
Fumar sem culpa.
Beber sem fim.
Protestar sem causa,
gritar sem voz.
E ainda assim,
ficar rouco...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Hai-Kai


Caderno de poezias

Clausura:
guardei dentro de mim
minha própria censura