quarta-feira, 31 de agosto de 2011

estou esperando agosto acabar



estou esperando agosto acabar
com paciência oriental
com lealdade canina
com espírito tranquilo
com a alma lavada
com o riso e a risada
com toda energia
com uma imensa alegria
com paixão
com amor
com gosto
estou esperando acabar
agosto...


terça-feira, 30 de agosto de 2011

a poesia nossa de cada dia






na segunda-feira fiz uma poesia


em nome da liberdade


na terça-feira escrevi um poema


pela verdade


na quarta-feira, a dúvida


foi dos meus versos o tema


na quinta, sem alegria,


rimei pobre a hipocrisia


na sexta-feira, triste poema


cantava em versos o homem só


para só, então, no sábado, em elegia


renascer em si mesmo a poesia


que no domingo, leve e faceira


divinamente descansaria...








domingo, 28 de agosto de 2011

poma urgente


não resta muito tempo
para o tempo acabar:
algumas artimanhas
e uns poucos momentos racionais
por isso, por emergência,
rascunho este rápido poema,
uma forma de resistência
um gesto de sobrevivência
um libelo sem estilo...
um poema de urgência
em nome da minha própria existência

no mais, seria apenas uma rima
a mais...



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

paulistano inverno



de tão cinza a manhã gelada

que os prédios se deixam engolir

pela cidade acinzentada
 

domingo, 21 de agosto de 2011

meu filho sem nome




no palco da vida
- teatro materno -
o amor dividido
duas mães
o amor multiplicado
suas mães
o amor eterno




Assisto a peça como quem vê um poema. A poética da criação - muito além da procriação. O ritmo é lento e alucinante. Acalento e acalanto. Embala a realidade. Abala a ambiguidade. Assisto as personagens como quem lê a história. A histórica lenda mosaica - muito aquém do Nilo. Universal. Paradoxal. Maternal. Um filho sem nome batiza cada um de nós em sutil reflexão. Nos chama de humanos e nos faz sentir que humanos somos. Os dilemas moram ao lado. Os dilemas moram ao nosso lado. Os dilemas moram no nosso lado de dentro. É simples a equação, como simples é viver. Mãe é amor. Mãe é desprendimento. Mãe é acolhimento. Logo, amor é desprendimento e acolhimento. No palco, o roteiro nos leva a essa conclusão suave - mas não impunemente. É - ou talvez seja - essa, a moral da história: egoísmo e altruísmo não resumem a dor e a delícia de sermos o que somos. Digo talvez pois, de tão verdadeira, a ficção de Meu Filho Sem Nome falará a todos e a cada um de maneiras diversas, com seus silêncios e seus gritos. Do riso ao pranto, com escalas na reflexão, no sentimento, na satisfação, no medo, na revelação, no prazer, na persistência, no ideal. Teatro de gente grande. Teatrão. Que nos adota e nos joga na mais real das aventuras: a vida.

(assisti Meu Filho Sem Nome, de Izilda Simões, no Teatro Brigadeiro (SP), onde estará até o dia 18 de setembro, sábados e domingos. É a história da mãe biológica e da mãe adotiva de um amor. Se eu fosse você, assistia também...)


terça-feira, 16 de agosto de 2011

poma incorreto



escrevo
este poema incorreto
grito silencioso
e inútil
com sabor de derrota
mas coerentemente
resistente

dedico
este poema incorreto
à arrogância
à prepotência
à pequena
pequenez
do poder pelo poder

reviso
este poema incorreto
com a convicção de que
correto fosse
seria a apologia funesta
daqueles que se divertem
sem entrar na festa


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Delicada relação


Hoje acordei com vontade de sentir seu toque. Ele não sabe, mas seus toques me alimentam e me transformam. Por vezes, me transportam. Levam-me a lugares próximos e distantes - mas invariavelmente belos. Sinto pelos seus toques. Dos toques suaves feito as finas areias aos mais intensos que trazem a pressão do fundo do mar. O belo e o profano vêm pelos seus toques, como arrepios a transpassar o comprimento dos dedos - vindos dos mais profundos filamentos do sistema nervoso - e a descarregar estáticas elétricas esotéricas energias sobre meu corpo entregue. Minha vontade, meu desejo. Desperto inerte a esperar a hora do encontro. Preparo-me com lascívia e sutilezas. Com sabedoria e resignação saberei esperar. Qual criminoso a espera de sua sentença sei que o momento do encontro pode significar a vida em liberdade ou a dura reclusão. A única certeza é a do momento. A aura da iniciativa recobre a ampulheta e faz o tempo passar ansioso. De suas mãos, de seus dedos, de seus toques virão a poesia encantadora e a prosa intrigante que nos fará passarmos horas e horas integrados, unos, únicos, universais. Símbolos reais da simbiótica relação. Sutil idolatria parte de mim e parte de mim o idolatra. Sacrílega relação, aceito suas condições dominadoras que tantas vezes humilham minha imobilidade e fazem brinquedo minha passiva atenção na esperança de que o prazer compense meu sacrifício. Prazer. Com que prazer o espero. Com que prazer me preparo. Com que prazer me abro para sua vontade, para suas vontades. Sensual e deliciosamente. Suave e intentamente. De todas as maneiras. De qualquer jeito. Sinto que ele se orgulha de mim. Orgulho-me dele. Muito. Sinto que ele me gosta. Gosto dele, demais. Mais do que devia. Mais do que posso controlar. Paro e sinto que é chegada a hora dele vir. Presumo seu perfume. Antecipo suas unhas mal cortadas que deixaram em mim suas marcas enquanto caprichosamente criador e criatura se fundirão em toques pela minha sintética pele. Meu homem, meu macho, meu dono, meu senhor. Faz-me teu. Eu sou apenas teu teclado, pronto a te servir.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

poema emergente




eu escrevo sob encomenda
eu sou escravo das minhas letras
e por elas, e para elas escrevo
um poema de emergência
um poema feito de dor
um poema irado
que
pode parecer feliz
pode parecer moderno
pode ser coisa do destino
mas é um poema intestino
dolorido, interno
e que todos os outros
vão pro inferno
pois não é poema celeste
nem poeta inconteste
sou
pois escrevo sob encomenda
das minhas letras senhoras
essas alfabéticas gurias
esguias
redondas
curvilíneas
oblíquas
donas de um poder inocente
- por isso, o poema emergente
nasce da minha escravidão:
ceifo palavras como cortador de cana,
a foice afiada à mão
o grito contido ao silêncio
feito faca que o fato fere
- mas nesse caso, o fato é apenas
um poema emergente -
por isso, um poema inocente,
escrito sob encomenda,
desgraçadamente inspirado na visão
que a cegueira resguarda,
com todas as letras, senhoras
do meu trabalho,
em nome das quais
poesia espalho
graciosa, gratuitamente
àqueles que possa interessar
até mesmo
àqueles incautos
inaptos
ineptos
consortes
das viúvas vivas,
carpideiras da arte
- um aparte -
senhores, senhoras
minhas letras gregas, romanas, góticas
formam poemas métricos, tétricos,
contraindicados a menores
pois eu escrevo sob encomenda e
por um triz, atendo cada sílaba
da imperatriz
da meretriz
da rima pobre de marré, marré, marré...
enfim, eu escrevo de encomenda
eu escrevo de aluguel
eu escrevo de esguelha
eu escrevo de canhota
eu escrevo um poema emergente
- tão emergente quanto você.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

poema oculto




da gaveta brotam verdades
da gaveta brotam memórias
da gaveta brotam lembranças
da gaveta brotam rascunhos
da gaveta brotam retalhos
da gaveta brotam perfumes
da gaveta brotam imagens
da gaveta brotam papéis

e no meio de todo caos
um poema oculto à vida
no fundo da gaveta jaz...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Poema culto



Reich emprestou-me uma couraça,
Freud um complexo.
Não vivo as transformações de Lavoisier
Nem a relativa relatividade de Einstein.
Tenho a dureza do titânio e a energia do urânio.
Nuclear, olho em volta e namoro órbitas.
Uma constelação de sonhos colore
a vã filosofia herdada de Shakespeare -
com sua licença poética, Camões,
por ares nunca dantes imaginados...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Poema curto


não cabe em mim
meu próprio poema

o cobertor é menor
que meu próprio corpo

algo fica de fora:
ou cabe a dor
ou abrigo a falta.