quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A noite dos onze poemas



Caderno de poezias



Nego



Não vejo outra forma de viver que não seja poema.


Poucos ou tantos versos – é tudo igual,


Com ou sem rimas.


A métrica é o pulsar do meu coração.


A voz, o sopro dos pulmões.


Nasci, vivi e hei de partir poesia.


Não vejo outra forma de viver...








Noite


Não há lua

Não há estrelas

Não há ruídos

Nem lamentos.

Eu imaginara noite: era o nada.

Como eu imaginara a vida.

Da mentira nasceu a mentira.

Do vácuo veio o vazio.

Das reticências, o então.

Então acendi a luz e dei a luz aos meus olhos.

Amanheceu.





Liberdade


A minha cela tem dores.


A minha cela tem flores.


A minha cela é mais bonita que a tua.






Dulcinéia



O corpo arcado sobre o papel.

Escrevo ilusões.

Mesmo assim as costas se curvam.

Os pronomes me desafiam.

Adjetivos, desatinam.

Como Quixote, lânguido e louco,

Invisto contra os moinhos de letras.

Como Sancho, gordo e leso,

Troço e temo na mesma medida.

Tudo isso é vida.

Por isso, escrevo ilusões.





In:Sônia


Perdi o sono


na hora de dormir:


alguém viu uma musa por aí?






Aurora

Parecia irreverente

- mas era, apenas,

um poema nascente.





Rimas pobres, pobres rimas



Uma boina na cabeça


Uma caneta na mão


Um poema no papel


Uma certeza na razão


Uma coceira na pele


Uma formiga no chão


Uma manta no sofá


Um retrato no balcão


Uma mulher na janela


Um homem na escuridão


Uma montanha no horizonte

Um oceano na imensidão

Uma verdade na mente

Uma mentira no coração.






Latente


Sua presença é mais


que um corpo ausente.


Sua presença é poeira


sob o tapete.


Sua presença é vaga,


fluida,


gasosa.


Sua presença é ausência de vida,


de verso,


de prosa.






Viagem

Estou atrasado para ir a Órion

- onde me esperam Ivan, Dante, Miguel.

As horas passaram e o trem partiu.

Órion será minha espera,

Órion será a estação do meu destino certo.

Ivan me receberá com festa.

Dante, com amor.

E Miguel,

Miguel apenas abrirá o céu de Órion

para eu entrar.





Tarot



Minhas mãos sujas de tinta


Sequer sonhavam


Acordar mortas.


A minha morte, a minha carta,


A minha sorte de ter sido


– e ainda ser – o que sou.


Cortei os pulsos para ver


o que corria nas veias.


Era apenas sangue.


Lavei as mãos, lavei a alma.


Acordei vivo e atrasado para o trabalho.


Joguei fora o tarot.







A noite dos onze poemas


São Judas Tadeu valei-me.


Tantas causas impossíveis,


tantas – que te peço abrigo.


São Jorge Guerreiro protegei-me.


Tantos inimigos, tanta iniqüidade


– que te peço coragem e lealdade.


São Francisco de Assis, pai amado.


Pousa tua pobreza rica em meu pobre espírito


e me abençoa.


Sábia coruja vem trazer humildade na noite infinita.


Buda me lembra da paz que vive no outro.


Navegar, navegar.


Solto meu espírito pela noite


– sem pressa, sem destino.


Cristais, luas e sóis iluminam os caminhos.


A Natureza é mãe.


A Terra é avó.


O Universo é o todo.


Enquanto minhas filhas me observam,


eu lavo os olhos com a luz de seus corações.


Krishna sorri.


Santos, anjos, querubins me circundam.


Ciranda, ciranda celeste.


Foi preciso uma noite viva


para um poema nascer de mim.


A noite dos onze poemas é dádiva divina.


De joelhos agradeço.


Ofereço.


Ofereço-me.


Ofertório final.


A vida é um poema ritual.


Um poema parido na noite dos onze poemas.


Alguns santos, outros nem tanto.


Mas todos meus.


Obrigado, Deus.















terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fissuras

Caderno de poezias




Onde era a ordem surgiu o caos.
Paredes invisíveis, labirinto.
A delicadeza do tempo perdeu-se.
A cicatriz aberta.
Os olhos fechados.
Morte em vida, prisão na liberdade aparente.
Não se percebiam os odores típicos e pútridos.
Mas eles dominavam a atmosfera.
Eles dominaram a atmosfera.
Num canto ou noutro, fissuras abriam o solo
em riscos inexatos, em caminhos tortos.
Tortuoso, o meu destino apenas aguarda a sentença.
Viverei humano, imperfeito e egoísta,
com a imprecisão das minhas rupturas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pontos sensíveis


Caderno de poezias




Da cegueira

Eram apenas meus olhos,
E a dor de não enxergar a luz.
Eram apenas tristes,
De uma felicidade impertinente.
Eram apenas o escuro,
Filtrado pela teimosia do viver.





Da conjuntivite

Lágrimas purulentas e plurais
Secaram doentes
Tornaram feto o que fora sexo
Borraram a maquiagem
Cravaram estacas
E silenciosamente brotaram como dores.





Da insônia

Eram contos de terror em noite de lua cheia,
Eram mistérios, eram pesadelos,
Eram histórias mal contadas,
Eram dores inexistentes,
Até que acordei e percebi
Que não dormira nada.






Pontos sensíveis

Da cegueira
Da conjuntivite
Da insônia
Eram as dores
As dores
Dores.


.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Bússola 2


Caderno de poezias



Passei a vida a cuidar dos meus olhos
E não aprendi a enxergar.
Passei meus olhos sobre a vida.
Nem assim.
Perco-me entre pontos cardeais.
Paz?
Não mais.
Luz?
Jamais.
Dor?
Trezentos e sessenta graus.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O lado de dentro


Caderno de poezias



Há um lado mais sensível
- o lado de dentro.
Dentro habita a verdade.
A verdade é matéria-prima rara e cara.
Desvios, atalhos, remendos
Arremetem de fora para dentro.
Dor, cegueira, cânceres
Brotam de fora para dentro.
Tênue vácuo.
Silente gesto.
Morte moral.
A cara e rara verdade oprime o peito arfante.
Pouco – nada – valem as pupilas lágrimas.
Gotas desculpas tinta mal gasta.
A dor da tua irmã mentira é mentira.
A verdade rara e cara é a verdadeira dor.
Do lado de dentro.
A verdade e a verdade sabem doer.
Não acusam falsárias falácias,
desdenham das ilusórias ilusões,
eternizam-se no sempiterno vazio.
Sabem doer.
Sabem doar.
A verdade cara doa a quem a dor dói.
Não há nem haverá poesia esta noite.
Não haverá poeta, não haverá musa.
Não haverá canto, nem dança, nem rito, nem nada.
O universo encontra seu fim na volta ao Criador.
Cria a dor.
Há um lado mais sensível
- o lado de dentro.

O lado que dói…



.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Amanhã




Amanhã quando eu acordar quero sentir a pele molhada do suor da noite e entender que existe uma realidade onde o sonho se assentou.


Amanhã quando eu despertar quero sentir o mesmo desejo que a noite envolveu.

Amanhã quando eu entender o incompreensível e aceitar aquilo sobre o que não há controle eu quero apenas deixar que a lembrança assuma o comando desse rumo novo.

Amanhã eu quero transformar o passado em presente e viver intensamente o que vier pelo caminho.


Amanhã eu quero entender todas as coisas que entendi até hoje e aprender o que o novo haverá de me ensinar.

Amanhã quero ser mais poeta do que ontem e menos poesia do que depois de amanhã.

Amanhã está na agenda, está no calendário, está na esperança.


Amanhã será algo além de um dia.


Amanhã será uma realidade.


Amanhã será amanhã.


Amanhã, apenas.