sábado, 30 de abril de 2011

Como bicho


Tenho dormido pouco

Mas isso pouco me incomoda
Faltar o sonho é que a falta faz



Sonâmbulo consciente
Por mais que os olhos reclamem
A ousadia me resgata



Faço poesia como vagalume
Brilha na noite




Faço amor como peixe
Em águas profundas




Não sei nada da vida
E enquanto vivo
Aprendo a morrer




Procuro a razão
Que não encontro
Nos livros




Procuro livros,
Encontro cadernos



Faço poesia insone
Como um morcego




Tenho sorrido pouco
E rio para gastar meus dentes
E espantar o medo




Homem sério,
Correto, cumpridor
De deveres




Faço amor como morcego
Faço poesia como peixe




Um dia eu acordo
E viro bicho



Então, quero ver
Quem faz amor comigo...


sábado, 16 de abril de 2011

Mitologia

Caderno de poezias


Nasci ao contrário:

Vim da morte à vida,

Sem escala.




Tirei diploma

Antes mesmo de entrar

Na escola.




No primeiro dia

de lida

Abandonei o trabalho.




Vivi errado,

Cresci menino,

Envelheci criança.




Ganhei a esperança e,

Desiludido,

Amei à toa.




A vida é boa,

O tempo ido, foi

Da popa à proa.




Vazei o mar,

Bêbado vazio

Dos copos quebrados.





Cheguei ao poente

Enquanto a aurora

Ia-se embora.




Chamaram-me deus,

Feito à imagem e semelhança

Humana.




Sem certezas,

Sem rancores,

Amadureci temporão.




Virei poeta,

Deixei a leitura,

Perdi completamente a compostura.




No relógio da minha insistência,

Não sobrou tempo

Nem para morrer.




terça-feira, 12 de abril de 2011

Caderno de poezias



O tempo vai-te roubando à minha memória.

Faz-me favor a cronologia

- tanto quanto a psicologia.

Na linha do tempo, passado virastes.

E quão mais a minha lembrança te busque,

Tão menor o espaço que ocupas.

Fogem gestos, cheiros, imagens, sabores.

És cada vez menos tátil, mais fluida.

Assim fez a vida.

Assim te fez a vida.

Pouco mais que algo impreciso.

Nada além de um talvez.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Luto

(No Caderno de poezias, para as crianças perdidas)


Triste

Impotente

Derrotado moralmente

Sou um país de luto

Sou uma nação estarrecida

Sou um pai que olha à distância

Para a vida, a vida, a vida.



Meu pavor é ser cúmplice

Da insanidade inevitável

Inexplicável imperdoável

Dos loucos alimentados

Dos esquizofrênicos esquecidos

Dos psicopatas perdoados

Dos corruptos de plantão.



Meu terror é ser igual

Ao abominável outro

E esquecer que no fundo, no fundo

Eu sou o outro do outro.


Triste

Impotente

Derrotado moralmente

Eu sou o país de luto

– inda que em nenhum momento

Fuja à luta.


domingo, 3 de abril de 2011

Dez minutos


Caderno de poezias

Atrasei-me dez minutos.


O que são, afinal, dez minutos?


O que são dez horas?


- Um dia de trabalho?


O que são dez dias?


- Um terço do mês?


O que são dez meses?


- Pouco mais que uma gestação.


O que são dez anos?


- Tempo de esquecer.


O que são dez vidas?


Nascidas, vividas, morridas, renascidas...


Afinal, o que são dez mortes?


Senão, um pequeno atraso de dez minutos entre vida e morte...