quarta-feira, 29 de junho de 2011

DA PAIXÃO





A paixão arde
A paixão morde
A paixão marca
A paixão forte
A paixão fácil
A paixão sorte
A paixão início
A paixão fim
A paixão então
A paixão enfim
A paixão clara
A paixão lua
A paixão sombra
A paixão tua
A paixão grita
A paixão sussurra
A paixão surta
A paixão norte
A paixão sul
A paixão encontra
A paixão desmonta
A paixão vai
A paixão vem
A paixão entra
A paixão sai
A paixão vibra
A paixão volta
A paixão troça
A paixão traça
A paixão nova
A paixão antiga
A paixão medo
A paixão vida
A paixão toda
A paixão inteira
A paixão parte
A paixão música
A paixão arte
A paixão vista
A paixão perfume
A paixão silente
A paixão reta
A paixão errada
A paixão certa
A paixão prosa
A paixão poesia
A paixão trova
A paixão treva
A paixão absoluta
A paixão relativa
A paixão imprecisa
A paixão certeira
A paixão mostra
A paixão forma
A paixão molda
A paixão dá
A paixão tira
A paixão verdade
A paixão mentira.



domingo, 26 de junho de 2011

Das celas



Quem te vê liberdade
Nunca percebe
As celas que te cercam
A prisão que te guarda
A solidão que te isola

Quem te vê caminho
Sequer imagina
Os limites que te marcam
O tua curta estrada
À tua frente a frágil jornada

Quem te vê sorridente
Ao menos se ilude
Das ilusões que te enfrentam
Do medo dissimulado em ti
Da máscara que o teu riso ri

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Anchieta


Anchieta
Teus olhos miram
Teus olhos oram
Teus olhos guardam o
Planalto
Paulista
Paulicéia
Panacéia
Implacável

Anchieta
Teus olhos de estátua admiram
A estatutária alma paulistana
Paulistânia

Anchieta
Tem um rasgo de riso em tua fronte
Enquanto a cidade arde em vida

Anchieta
Tu nem podias imaginar
Onde ia, aonde ia dar
Esse Piratininga

sábado, 18 de junho de 2011

Das definições indefiníveis




 
1.
Eu não sou um poeta – tenho, apenas, surtos de poesias.

2.
Tu não és um amor – tens, apenas, surtos de mentiras.

3.
Eles não são falsos – têm, apenas, surtos de verdades.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Do Inferno




Ainda que eu desça à profundeza maior do Inferno
E te encontre em teu mais verdadeiro disfarce
Enrugada, maltrapilha, suja, descabelada e cega
Reconhecerei teu torto olhar
Sentirei teu fétido perfume
Lembrarei das carnes úmidas e pútridas
Com que me brindaste no cálice de estanho
Recordarei o vinagre falso vinho avinagrado
Pelas tuas ensandecidas palavras
Rememorarei a aspereza dura das escamas
Cobertas de espinhos que de ti brotam
E que na maldita hora em que me encontre esse encontro
Eu tenha a força do tamanho da dor para te encarar
Eu tenha a honra concedida pelos ancestrais como herança para desafiar
Eu tenha o ódio necessário para te deixar viver o terror
Do último instante da última hora do último dia do meu amor.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Uma lua só para mim



Abro uma fenda no teto para colher uma lua só para mim.
Descolo a retina no breu da surpresa:
Uma estrela de prontidão brilha mais que o teu dorso.
A meia luz do quarto vem do teu sorriso.
Meio sorriso.
Meio escuro.
Os contrastes em branco-e-preto.
Fotogramas seguidos dão a idéia de um filme B.
Movemos lentamente nossos corpos.
Mal ensaiados.
Batizamos de amor o que é cena apenas.
Chamamos de prazer a dor patrocinada pelo egoísmo.
Rompemos o silêncio em caóticos gemidos.
Sussurros baratos, exclamações supérfluas.
Você tenta gritar: “Amor...”
Tesão.
Que tesão que é fingir.

Um dia ainda colho uma lua só para mim...








domingo, 5 de junho de 2011

O parto da lágrima



A descoberta da dor.
Intensa.
Gritada pelas ruas vazias.
Revolta.
Meticulosamente projetada.
Divina.
Explosão espontânea.
Humana.
Gerada no amor pirata.
Romance.
Parida a fórceps.
A lágrima nasceu de ti.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Feliz aniversário.





Cinco ponto um.


Vou ao salmo 51.


Encontro um pouco de mim.


Ensaio palavras simples para contar minha história.


Espelho olhos nos olhos.


Ilustro como num livro de histórias.


Prosa, verso, reverso.


Começo , meio e fim.


Um fim iluminado e não necessariamente finito.


Ritos de passagem.


Um poema em forma de construção.


A construção do poema.


Uma sístole, uma diástole.


Inspira, expira.


A rotina vital como ela é – ou não.


A lógica da não lógica.


Impressões.


Digitais.


Os dedos correm as letras como Braille.


Relevos.


Novelos.


Revelações.


Ações que o tempo registrou.


Não há impunidade para quem ama.


A moral e os bons costumes agradecem tanta hipocrisia.


A alma acontece.


A alma apenas acontece.


Como nos filmes noir.


Como nos velhos dramas de família.


Há um sarcástico sorriso na tradução do delírio.


Tradutor, traidor, trabalhador da verdade e da mentira.


Inventor de lendas.


Qual o idioma da sua língua?


Não sei a resposta.


Não há uma resposta.


Não existe resposta verdadeira, real, completa, perfeita.


Um jorro de adjetivos me distrai.


Como os mágicos nas matinês.


Surgem, passam, vão – vagos.


Vazios.


Vagas palavras em busca de um enredo.


Mistério, drama, comédia.


Segredo.


Um incontável inventário de contos não contados.


Percorro a memória em busca de referências.


Não se fazem mais sonhos como antigamente.


Enlouqueço, amaluco, desatino.


Entrego a Deus o meu destino.


Acendo a luz e descubro que o espelho envelheceu.


Ao lado, uma caneta nova e uma poesia recém-nascida.


Talvez eu a chame Vida...