sexta-feira, 29 de julho de 2011

Leituras



Leio os movimentos dos seus olhos
como leio as notas musicais
numa pauta imaginária:
leigo, não procuro nem encontro sentido
em sua melodiosa cegueira.


Leio as mensagens do seu silêncio
como leio as palavras não escritas
num caderno em branco:
incauto, não descubro nem pretendo saber
da sua impenetrável mudez.



Leio,
e minha leitura tem a dor da imaginação.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Hai-kais de inverno



Como raio cortou o horizonte
Dividiu a dor
Em duas frontes


Buscou no relógio, vazio
O tempo que faltava
Para o nada não vir


A âncora, o mastro, o vento
O rumo era incerto
Ilusório e impuro movimento



No curso do rio
Jazia, afogado em ti
O teu próprio frio

sábado, 23 de julho de 2011

Paralelas



a minha poesia é a razão que brota da lama do meu cotidiano


a poesia é a minha razão que brota da alma do meu cotidiano

quinta-feira, 21 de julho de 2011



nasci lúdico

dentro de uma livraria,

cresci em quadrinhos,

tive uma infância livros e gibis...

adolescente, brinquei com poesia...

só podia dar no que deu

sou um super-herói disfarçado

(não conte para ninguém, mocinha)

sou o homem-quadrado.

 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Os sentidos



penso
não penso
passo
não passo...

viajo em sonho
em sonho desperto
tão longe
tão perto...

toco nuvens
bebo algodão
subo degraus
canto o refrão...

vejo a luz
e ouço vozes
por todos os lados:
o tato é o olhar dos apaixonados.

sábado, 16 de julho de 2011

Horizontes



O sol por trás dos prédios
conta e canta
Nostalgia e desejo



O sol por trás das nuvens
encanta e desenha
esperança e beleza



O sol por sobre a água
tremula e transmite
ondas fuidas de sangue e luz



O sol direto nos olhos
fere teima ferve e queima
uma vontade enorme de derreter meu próprio gelo...

sábado, 9 de julho de 2011

Poeticamante


Falar de amor
É poeticamente correto
Protestar contra a opressão
É poeticamente correto
Denunciar a mentira
É poeticamente correto
Enunciar a verdade
É poeticamente correto
Jogar com as palavras
É poeticamente correto
Rimar sem medo
É poeticamente correto
Louvar o sol que acorda cedo
É poeticamente correto
Chuva, garoa, sereno...
É poeticamente correto
Liberdade total
É poeticamente correto
Emoção geral
É poeticamente correto
Humanismo
É poeticamente correto
Realismo
É poeticamente correto
Sorriso
É poeticamente correto
Um pouco de non-sense
É poeticamente correto
Escrever uma epopéia
É poeticamente correto
Transformar arte em versos
É poeticamente correto
Fazer pequenas concessões
É poeticamente correto
Inventar neologismos
É poeticamente correto
Revisar os galicismos
É poeticamente correto
Prosear sobre a própria poesia
É poeticamente correto
Parodiar os mais doutos mestres
É poeticamente correto
Ser um pouco narcisista
É poeticamente correto
Brincar de ser artista
É poeticamente correto
Poetar por todo o dia
É poeticamente correto
e ser poeticamente correto
é, poeticamente, poesia...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Marginais








No Jaçanã perdi o horário.
Que trem, que nada...
Fiz o trajeto ao contrário
Até chegar na Santa Cecília
Onde mora a família
E minha mãe não dorme sem eu chegar.


Voltei pela Fernão Dias
-- tal qual destemido bandeirante
à procura do ouro no interior --
Até então alcançar o Tietê,
até desaguar nas marginais
e me perder como jamais...


Cada beco, cada alameda
Cada viela, cada córrego
Cada casa velha ou prédio
abandonados ou habitados
Cada história um poema
Cada poema um caminho.

Se vou para o norte, subo o monte
Se vou para o sul, desço a serra
Se vou para o leste, o sol nasce
Se vou para o oeste o sol some
Se eu corro o bicho pega
Se eu paro o bicho come.


Dispenso rótulos, desprezo estilos
Desencontro as paralelas,
Descarrilam tantos trilhos.
São pais, tios, irmãos e irmãs
São japonesesas, turcos, alemãs
São teus netos, são teus filhos.


São Paulo de Cabrobó
São Paulo de Piratininga.
São Paulo da minha avó.
São Paulo da Capitinga.
São Paulo poeira e pó.
São Paulo poesia e ginga.


Tietê e as marginais.
Aricanduva. Carrão.
Penha. Maria. Guilherme.
Placas de contramão.
Chagas na epiderme
Qualquer que seja a direção.

Ponte das Bandeiras.
Ponte da Casa Verde.
Ponte do Limão.
Da ponte da Freguesia do Ó
Até a ponte do Piqueri
O sol confunde a visão.


São Paulo não tem hora.
Tem pressa a metrópole.
O Tietê encontra o Pinheiros.
Ponte, viaduto, passagem
de nível, metropolitano
sonho pesado pesadelo paulistano.


Sou caipira urbano.
Sem noção, mas matuto.
Capiau do cimento e da cola
de sapateiro, de pedra o pedreiro
fez do arranha-céu alado
o futuro e o passado.


Espaço limite
Sanidade ou sanitário
Teu riso ou teu pranto
São iguais, tão iguais, muito iguais
Iguais a ti São Paulo, amores
Assim, marginais.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Noturno



Frio na rua fria.
Árvore, garoa, sereno.
Luzes revezam-se com sombras.
Caminhada fria.
Passos tão irregulares quanto os passeios.
Janelas dormem.
Alguns morrem em sono vivo.
Outros apenas vivem em sonos mortos.
Portas. Portões. Grades. Lanças.
Há cadeados humanos.
Há homens trancados.
Há mulheres travadas.
Não há sons nem há silêncio.
A atmosfera corta.
A água congela.
O fogo míngua.
O ferro fere.
Nos olhos um poema triste.
Na noite um noturno poeta.
Vagamente feliz.






sábado, 2 de julho de 2011

Da memória




Fotografias desbotadas


Retratos de família


Bilhetes, guardanapos, rascunhos


Frases anônimas, citações


Alguns enganos, poucos acertos


Um cacho de cabelos


Agulha, areia, moedas


Pedra plástico papel


Materiais infindáveis


Gavetas de retalhos


Jóias bijuterias contas


Espelho partido


Partidas


Poeiras


Perdas


Pó...