sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Protagonista





às vezes
falta o sol pela manhã
às vezes
falta música
às vezes
falta o lençol dessarrumado
às vezes
falta o leite derramado
às vezes
falta o começo
às vezes
falta o meio
às vezes
falta o infinito
às vezes
falta uma razão
às vezes
falta a emoção
às vezes
falta um bom motivo
às vezes
falta a lágrima que fala
às vezes
falta o desaforo que cala
às vezes
falta apenas um pouco
às vezes
falta a força que cria
às vezes
falta o toque na pele
às vezes
falta massa molecular
às vezes
falta o sonho estelar
às vezes
falta o céu
às vezes
falta o chão
às vezes
falta o sim
às vezes
falta o não
às vezes
falta o papel de rascunho
às vezes
falta a tinta vermelha
às vezes
falta o sangue
às vezes
falta o leite
às vezes
falta o todo
às vezes
falta a parte
às vezes
falta a própria arte
às vezes
falta o artista
às vezes
falta a dor
às vezes
falta o protagonista...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Dos dias



Um dia é uma marca na agenda
Dois dias, tempo para pensar
Seis dias para criar um mundo
No Sétimo, descansar
Dez dias parecem muito quando esperamos
Quinze de prazo parecem voar
Ontem falei com meu pai no céu
Que veio à Terra me ninar
Antes de ontem com meu avô Francisco
Sempre a me acolher e ensinar
Hoje talvez eu acerte
Depois de tanto errar
Para amanhã, apenas amanhã
Meu caminho retomar.

A bênção, meus dias de tanta luz.






segunda-feira, 24 de outubro de 2011

certos dias


 certos dias parecem noite
o sol não abre os olhos
o pesadelo não acorda
não há perfume
não há desejo
não há sequer ruídos
o silêncio fere
o vácuo pesa
o infinito encolhe
sem poesia
sem vida
sem esperança


certos dias são natimortos
com horas amorfas
e seres de uma flacicez feroz
não têm calor
não têm anseios
não têm razões
a face enruga
o olho cego
garganta muda
sem voz
sem som
sem não até


certos dias foram feitos
para o nascer do falso
no horizonte da morte
sem piedade
sem fé
sem sorte...




domingo, 23 de outubro de 2011

Queda



 
uma escada qualquer
um degrau de desejo
um degrau de arrogância
um degrau de egoísmo
um degrau de ambição
um degrau desonesto
um degrau incorreto
um degrau obscuro

o salto
no espaço
sem fim

trampolim

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Poesia, pra que poesia...







Poesia pra cantar

Poesia pra contar

Poesia pra ensinar

Poesia pra bendizer

Poesia pra protestar

Poesia pra arrepiar

Poesia pra arrefacer

Poesia pra formar

Poesia pra informar

Poesia pra embalar

Poesia pra acordar

Poesia pra chamar a atenção

Poesia pra distrair

Poesia pra emocionar

Poesia pra resistir

Poesia pra chorar

Poesia pra sorrir

Poesia pra proporcionar

Poesia pra ouvir

Poesia pra recitar

Poesia pra dizer

Poesia pra marcar

Poesia pra viver

Poesia pra amar

Poesia pra carinho

Poesia pra caralho...



domingo, 16 de outubro de 2011

anjos e virgens


quando o sonho é um desafio
uma seda suave como um véu
guarda a beleza na intimidade
e torna a felicidade um bem maior
faz de conta que a vida
é brinquedo de criança
e com graça, dança nas nuvens
como fazem os anjos, os pássaros e as virgens.

sábado, 15 de outubro de 2011

Mais verdades (quase) absolutas



Em terra de cego é melhor abrir os olhos.



Ser ou não ser, eis uma questão de múltipla escolha.


A reta é o menor caminho entre:


Quem não tem muito a dizer fala demais.


É preciso muito tato para descobrir os cinco sentidos.


Triste, encontrou a verdade numa loja de conveniências.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Hai-kai



A frase (amoral) do dia:
a falsa coragem é pior
que a verdadeira covardia.


domingo, 9 de outubro de 2011

Mimetismos





Desloca-se entre os homens
Sem homem ser
Rasteja entre os calangos
Sem ser réptil
Mescla-se à paisagem
Nem folha, nem árvore
E no cenário do teatro
Esconde-se entre as cortinas.

Não tens forma certa
Nem cor
Nem ocupas lugar no espaço.

Não és da natureza
Nem da terra
Sequer do planeta.

Macróbrio, micróbio
Penetra nos seres
Injeta, envenena
Seivas viscosas, pruridos
Pegajosos unguentos fluidos.

Sorrateiro.
Poderoso.
Camuflado.
Imiscuído.

Só não resistes ao fino fio
Da alma pura que te estanca
Lâmina que te revela, talha, corta, disseca, aborta
E expõe tua incerta e dissimulada forma morta.


Verdades (quase) absolutas



Quem sabe, não fala. Quem fala, não sabe.



Poder é querer. Quem pode de verdade, não quer.


Intensa e suave, a emoção é a regra.


Suave e intensa, a regra é a emoção.


Verdades (quase) absolutas. Absolutamente relativas.


Pontos de vista são paralaxes da mente.


E nada é eterno, tudo acaba, tudo tem fim.


Ainda que seja finalmente.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

o olho mágico de Deus





surpresa celeste
íris surpreendente
surpresa divina
em forma de lente
o olho mágico de Deus
engole a arrogância
filtra a mentira
traça o destino
cega fé
credo infinito
o olho mágico de Deus
queima de beleza
e arde em justiça
intensa
com a mesma suavidade
que condena e prende
o olho mágico de Deus
tudo vê
tudo marca
tudo sente.