sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Parto



Joguei fora a magia e fiquei com a realidade nas mãos.
Tranquei na gaveta uns tantos sonhos.
Perdi a chave da porta que dava para o mundo.
Busquei respostas.
Enumerei teorias.
Pensei, refleti, filosofei.
Deitei fora velhos conceitos e preconceitos.
Desnudei a alma.
Fiquei nu.
Fechei as janelas e cerrei as cortinas.
Fiz da atmosfera da cela um habuitat.
Respirei meu próprio ar.
Bebi meu suor salobre.
Alimentei-me de mim, me embriaguei.
Guardei silêncio e abri a escuridão.
Deixei-me envolver de mim.
Senti calores.
Tremores me moveram.
Movimentos contidos, retilíneos, universais.
Senti-me sugado.
Arrastado.
Arrancado.
Meu ventre me expulsou.
A noite rompeu em dia.
A luz cegou meus olhos.
Os ruídos me ensurdeceram.
Um raio gelado cortou meu peito.
Um grito seco me despertou.
No momento do parto, parti e cheguei.
Talvez eu tenha renascido.
Jamais saberei.
Talvez seja apenas a vida,
a insistir na minha fome de sonhar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sina



Eu não sei que horas são no universo.
Mas o universo sabe que a minha hora é agora.
Quito meus sonhos com poesias.
O poema é o posto que me acolhe.
Deixo de lado a paixão.
Não faço concessões nem exigências.
Traço minha rota com estrelas.
E sigo meu caminho peregrino.


A esperança é movida por verdades.
 

Boca do Lixo





Tuas atitudes se diluíram


em palavras.


Tuas palavras se esquivaram


pelas esquinas.


Tuas esquinas te traíram


pelas noites.


Tuas noites se perderam


dos anseios.


Teus anseios te escorreram


pelos seios.


Teus seios se disfarçaram


pelas luzes.


Tuas luzes se mostraram


escuras.


Teus escuros se fartaram


de mentiras.


Tuas mentiras proliferaram


pelos dias.


Teus dias se dividiam


em razões.


Teus razões multiplicaram


tuas pedras.


Tuas pedras atiraram-se


na cruz.


Tua cruz se escondeu


em silêncios.


Teus silêncios gritaram


paixões.


Tuas paixões calaram


tua voz.


Tua voz propagava-se


em alucinações.


Tuas alucinações se fenderam


em verdades.


Tuas verdades rasgaram


tua boca.


Que pena.


A única boca das tuas verdades


é a boca do lixo.




quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Imagens



Olho para o poema como quem olha para o espelho.

Procuro em cada palavra uma ruga,
em cada verso, um senão.
Encontro um ou outro motivo.
Descubro uma ou outra razão.
Faço uma revisão dos meus dias.
Algumas imagens são nítidas lembranças.
Algumas lembranças são tímidas imagens.
Brinco com as palavras e as transformo em pequenos arco-íris.
Faço luzes nas paredes, grafito emoções.
Rabisco raios sonoros que chamo de arte.
Não sou artista, sou arteiro.
Faço do ofício de poeta o labor do carpinteiro.
Tiro lascas, moldo, talho, lapido, esculpo.
Invento formas. Construo figuras de linguagem.
Admiro a imagem invertida.
E miro as palavras inventadas.
Provoco o poema para ver sua reação.
Prefiro o sim ao não.
Prefiro o movimento à estática.
Prefiro Literatura à Matemática.
Prefito o grito ao que não se diz.
E olho para o poema com quem olha para o espelho:
minha alma assim se me faz feliz...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Alucinação





brilho lunar,
a noite rompida,
imagens em profusão:
são faces são cenas são celas
são demais
rasgam o sono em átomos
cercam
circulam
circundam
desenham um halo,
auréola do meu desejo,
no quadro negro da imaginação...
nem vida, nem morte:
alucinação.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

das noites



a noite fria não é tão fria
nem a noite quente tão ardente
que a noite hoje não te abrigue
ou a noite passada não te recorde

a noite alta não é tão tarde
nem a noite finda tão matinal
que a noite inteira não te provoque
ou a noite seguinte não te convide


a noite de sonho não é tão viva
nem a noite viva tão irreal
que a noite tua não te aproxime
ou a noite minha não te comova


domingo, 4 de dezembro de 2011

alguma ilusão





a manhã
da noite que não existiu

o verso
do poema não escrito

a imagem
da mulher que não se viu

a vida
do homem que não viveu

o toque
do amor que não se fez

a cena
do roteiro não vivido

a colheita
daquilo não plantado

o perdão
do pecado não pecado

o medo
de se arrepender não sentido

o sentido
do caminho que não trilhado

a trilha
do disco que não foi tocada

o silêncio
dos gritos que não gritaram

o sim
do não que não foi ouvido

o não
da verdade não falada...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

o tamanho do meu coração




meu coração não tem tamanho
nasceu grande como minhas orelhas
cresceu comigo
e fomos trocando as dimensões,
eu, aumentando
ele a diminuir

hoje, meu coração está apertado
pelo meu cérebro puído

hoje, meu coração dolorido
apenas bombeia
a sanguínea esperança
de morrer grande
como, tanto, quando,
eu ainda era criança...