quinta-feira, 19 de julho de 2012

arroz com feijão




este é um poema concreto
real, tátil, preciso, exato,
milimétrico -- pois mensurável.
é um poema de protesto
contra a ilusão e a dubiedade
e a favor do arroz com feijão.
não vou fazer poesia
nem gastar verbo com paixão,
nem metáforas, nem silepses.
é um poema comum para um homem normal.
é possível afirmar -- sem medo --
que o homem normal é aquele
que acorda cedo, pega ônibus,
bate ponto, trabalha, trabalha, trabalha,
bate ponto, pega ônibus, descansa...
sem paixão, sem erro, 
sem pecado nem omissão.
às quartas-feiras ele assiste o futebol, 
esse homem normal.
é para ele este poema tão certo, 
tão reto, tão palpável, 
tão arroz com feijão,
que não foi feito para impressionar
nem para encantar, iludir,
dourar a pílula ou tergiversar.
é um poema bicicleta, automóvel, chave-de-roda,
lâmpada, pincel, gilete, cadeira, prato,
piso, colher, formulário, gps,
WD-40, homem de ferro, tony stark,
romário, telefone, parafuso, bilhete,
barbante, mortadela, pente, unhex,
gravata, graxa, flanela, aspirina,
RG, moeda, sapato, bigode, fechadura,
caixão, vela, jornal, hemorróida, esparadrapo,
correia, ouro, óculos, caneta, pão,
pimenta, ovo, banana, arroz com feijão.


Um comentário:

Renata Diniz disse...

Homem comum. Diferente daquele que, porventura, Clarice Lispector se referia. "O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções." Acho que ela apreciava o que não existia! Abraços!