terça-feira, 10 de julho de 2012

rito





com a vontade na ponta da chuteira,
derramou areia, 
 sal grosso espalhou
pelos quatro cantos do quintal,
terra medida,
terreiro santo virou
preparou a oferta do seu jeito,
entornou a cachaça do seu jeito,
vestiu o santo do seu jeito
e sem jeito convidou a luz para entrar
disse adentrar, 
mas não tinha mal
nem bem 
que fizesse o verbo errar,
já aplicava advérbios sem pudor,
exagerado, adjetivos exagerou
nem da lembrança dos românticos
se furtou: abriu-se em versos,
derramou rimas pobres,
escorregou nos hiatos,
abusou dos cognatos,
e desandou a falar nagô
zulu, banto, iorubá, gogô
dançou, girou, caiu, ergueu, voou, sambou
e pelas sete portas fez brotar
um canto puro,
puro lamento
de seu instante real
e vestido de rei
abriu seus braços 
e chorou, humilde,
a fé daqueles que colocam
a vontade de viver na ponta da chuteira,
imunes à justiça dos homens, 
mas jamais impunes à verdade.



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