quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Universos


 

Todas as normas

todas as formas

todas as regras

todos os sinos dobram por nós

todas as velas

todos os vales

todas as celas

todas as rezas oram por nós

todas mazelas

todos sintomas

todas as dores

todos os males cabem em nós

todos os mares

todas os pares

todos os ares... todos os ares

todos os poros

todos os solos

todos os seres

todas as criaturas buscam por nós

todas as luas

todas estrelas

todos cometas

todos faróis luzem por nós

todas as folhas

todos papéis

todos os mapas

todas as vozes dizem de nós

todas as vias

todos atalhos

todos os rumos

todos caminhos levam a nós

todas as odes

todos poemas

toda poesia

todos universos em nós


 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

de fortalezas e quintais




Pelos claros entre as pedras 
espreitam os inimigos
sem saber do ataque original:
o medo nasce dentro dos fortes,
células metástases gêmeos
múltiplos, muitos.
Luta batalha guerra combate.
O medo penetra feito água
pelas frestas.
Invade, encharca, rói.
Aquarela dos fracos, outras tintas
escoam por mapas, pergaminhos, murais
enquanto as muralhas assistem
a morte espraiada nos quintais.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

todas as coisas





todas as coisas que aprendi
venceram
todas as coisas que guardei
para que...
todas as coisas que vivi
memória
todas as coisas que senti
houvera
todas as coisas que eu quis
quimera
todas as coisas que eu vi
velaram
todas as coisas que passei
passaram...


das dimensões do horizonte




linhas imaginárias, imaginem,
transbordam o horizonte
-- onde a distância é longe,
onde a razão é canhota:
amores e ódios 
são uns poucos distúrbios
pontos cravados em cartas náuticas
com alfinetes coloridos.

Não fossem uns heróis ocasionais
-- a maioria morta sem glória --,
e o horizonte teria 
o tamanho dos alfinetes,
a aflição dos perdidos,
a felicidade dos imorais.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

meus ritos




meus ritos
são poemas escritos
a dor
e quem não se contentar
com eles
que escreva
poesias de amor

sete mares





nas vagas nos vãos do oceano
navego navego navego
ou apenas vivo incertezas e disparates
torço o nariz para facilidades
e nem me deixo cair com a queda da bolsa
dos juros e das juras
desço ao inferno da memória
busco histórias onde há deuses
e neles encontro meus ideais
minhas perguntas mais agudas
e umas tantas crueldades
-- quem são os homens que constroem barcos
quando a razão se despede no cais?


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

dos destinos




são caminhos trilhas atalhos
registrados em mapas ou estrelas
sem porto e sem escala
roteiros desiguais
insistir paralelas
resistir horizonte
perdido
não tens rumo
não tens tino
destino, quem sabe, destino...

domingo, 14 de outubro de 2012

A flor e a seca




A flor se foi com a seca
Com a seca a flor se foi
Com a flor se foi o dia
Com o dia a flor se foi
Foram a flor e o dia
Foram com os olhos secos
de lágrima de cor de luz de perfume.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

do tempo





enquanto o tempo passa
e a razão enfraquece
não há como negar,
o coração envelhece...
é físico, é emocional
é algo que não se esquece
é sensível, líquido e certo
que o coração envelhece...
beira a vida, circunda a morte
sua marca na face aparece
enruga, vinca, desgasta
e o coração envelhece...
o olhar que a tudo assistia
subitamente entristece
nem lágrima, nem miopia, apenas a visão
do coração que envelhece...
quebra-se o espelho
e a imagem desvanesce
foi infância e juventude, maduro
o coração envelhece
cansado de resistir
não mais se reconhece:
rasga contratos, rompe o trato
o coração que envelhece...
das farsas mal ajambradas
ao drama que enternece
vão-se os dedos e os anéis
e o coração envelhece
na ofício da sua origem
a aranha a teia tece
imune à fatal verdade:
o coração envelhece...
a vida veio, a vida foi
tantas vezes que nem parece
que o triste e o belo findaram
no coração que envelhece


bloqueios



o verbo a ação o agente a reação o atraente a atração são elementos da mesma razão são componentes de toda emoção são o tempo da colheita e o fruto da plantação e enquanto à noite as estrelas se escondem em nuvens uma lua teimosa tenta furar o bloqueio dos sonhos e iluminar os mais óbvios dos desejos, a irresistível vontade de resistir

terça-feira, 2 de outubro de 2012

dos fragmentos




ainda ontem eram cristais
cacos
ainda ontem eram músicas
notas
ainda ontem eram tecidos
retalhos
ainda ontem eram mortalhas
fiapos
ainda ontem eram hiatos
vazios
ainda ontem eram mergulhos
quedas
ainda ontem eram poemas
palavras
ainda ontem eram todos
pedaços
ainda ontem eram valores
frações
ainda ontem eram caminhos
atalhos
ainda ontem eram sóis
poentes
ainda ontem esperanças
nascentes
ainda ontem eram inteiros
fragmentos...