terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pouco




Pouco tenho de mim.
Tenho o que penso, o que sinto, o que lembro.
Pouco em mim é meu.
Minhas dúvidas, meus vazios, algumas frases feitas.
Pouco me dizem as dores.
Pouco me fazem os medos.
Sou um bloco de papel pronto a derramar poemas.
Sou um porta-retratos com fotos amareladas.
Sou um trinco a deixar ver sutil fresta.
Com a simplicidade de uma palavra amiga,
Com o calor de uma declaração de amor,
Com o sabor de uma noite mágica...
Pouco tenho de mim.
Pouco em mim é meu.
E tudo que tenho é fácil...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Equilíbrio





Uma balança imaginária coloca em pratos
A indignação e a resignação


A indignação é a nação dos sensatos
A resignação é o estado dos pacientes


A indignação é o motor dos brados
A resignação é o silêncio dos mudos


A indignação é o espaço das falências
A resignação é o cansaço das falácias


A indignação é a tristeza da matéria
A resignação é a riqueza do espírito


A indignação é a arma dos poderosos
A resignação é a calma dos humildes


A indignação corrói
A resignação constrói


Uma balança imaginária coloca em pratos limpos
A indignação e a resignação, o resultado das nossas incongruências...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Da natureza



Abalos sísmicos
Erupções vulcânicas
Descargas atmosféricas
Efeito estufa
Explosões solares
Derretimento polar
Radiação não-ionizante
Onda gigante
Tempestades tropicais
Chuvas torrenciais
Cheias, maremotos
Devastações, desertos
Invasões, secas
Ciclones, furacões
Tragédias gregas
Comédia humana

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Bom dia, São Paulo. Feliz aniversário, São Paulo



Bom dia, São Paulo.
Eu estou aqui, olhando você de longe, pelos binóculos da saudade. É como se a distância não parecesse. Minha cidade, minha memória, passado e presente. Faço trajetos mentais. Traço roteiros espirituais. Passeios a pé, de ônibus, metrô... até de bicicleta. Muitos quilômetros rodados de carro pela metrópole.

Mas as maiores aventuras foram – e são – as humanas. Os personagens que tropeçaram (ou “tropicaram”, como diz a nonagenária amiga dona Olga Baxmann) à minha frente e por minutos ou por anos tornaram-se parte da minha história. E da minha história de amor por São Paulo.

O Michel dias atrás, estava sentado numa cadeira forrada e sem encosto, no largo do Paisandu, esquina com a rua Abelardo Pinto, o palhaço Piolin da minha infância. Passei por lá e resolvi fotografar a placa com o pensamento do Piolin: “Meu sonho era ser engenheiro. Queria construir pontes, estradas, castelos. Construi apenas castelos de sonhos para muita gente. Sou, de qualquer forma, um engenheiro! E, estou feliz com isso!” Michel, ao me ver fotografar a placa, puxou prosa. Perguntou: “você sabe quem era o Piolin?” Respondo com emoção: eu vi Piolin no seu circo, na esquina da General Olímpio da Silveira com a Olímpia de Almeida Prado, na Barra Funda, quarenta e poucos anos atrás. Michel gostou da resposta. Apresentou-se. Contou sua vida de cantor de rua, cigano viajante, carioca que morou em Roma e que sabe muito da cidade de São Paulo. Passeou histórias pela 24 de Maio, pela rua Aurora, pelo Paisandu dos artistas circenses, pela Galeria Olido – pedaços inesquecíveis da minha infância no Centro paulistano. Deixei Michel como o conheci, sentado na esquina da rua Abelardo Pinto com o largo do Paisandu, e parti para continuar minha jornada pela cidade – agora mais rico do que antes. Uma riqueza que os personagens involuntários da cidade me trazem gratuitamente, quando tropicam e cruzam meus passos. Dois dias depois passo novamente pelo Paisandu e cruzo com Michel, que troca a bengala de mão e acena com a outra: “Como vai, tudo bem?”...

São espíritos como Michel que São Paulo proporciona. Eles vem pelo viaduto do Chá, olhos voltados para o Theatro Municipal, e me acompanham pela Xavier de Toledo até a 7 de Abril, apreciam a praça da República e o amado Caetano de Campos, seguem pela rua do Arouche até o largo onde flores e lembranças dividem o horizonte. Eles me mostram a São João, para cima e para baixo. O Empire State do Banespa. O Andraus. O Cinerama. O Minhocão, que se alguém se lembra é elevado Costa e Silva. O circo do Piolin. O quartel da Barra Funda. O Ponto Chic. O parque da Água Branca. Ciccilo Matarazzo cercado de taxis por todos os lados. A Pompéia.

Itinerário sem igual. Os espíritos, meus espíritos, falam comigo, brincam, contam, acenam, mostram, lembram.

Há uma ligação paulistana e eterna entre nós, chamada São Paulo.

(P.S. Feliz aniversário, São Paulo)


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Da palavra




A força da minha palavra está nela mesma.
Quando falo fogo, fogo faço.
Quando escrevo gelo, congelo.
Quando calo, me agiganto
na palavra silenciosa.
A força da minha palavra é a sua estatura,
altura que poucos alcançam
e que menos ainda entendem
e que muitos menos admitem.
A força da minha palavra faz a estrutura
gramatical, social, universal
vibrar, tremer, enrugar, torcer, ruir.
A minha palavra não alivia a dor, comete pecados e erra redondamente.
Mas a minha palavra não mente.
A minha palavra está acima do homem.
A minha palavra é divina.
Definitiva ou incerta, irrisória ou fundamental,
a minha palavra vale ouro
e foi rabiscada à imagem e semelhança,
coisa e tal.
Deita no meu colo, feito criança,
e chora sob a opressão,
sente medo, tem espasmos.
É uma palavra solta em si e presa às convenções.
É uma palavra sincera, bem humorada e desmedida.
Tem a força da vida, a minha palavra.
Uma palavra pronta para o parto.
Nascida frágil e criada livre,
a força da minha palavra nela mesma está.
Como os anjos, as verdades e as ilusões.

 

 

 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Paulistanas reflexões (2)



Das portas
Havia mais de uma, duas, três portas. Não havia janelas. Era uma sala de opções. Eram escolhas. Não havia medo. Nem receio. Sequer cautelas. Diante das portas, eu era apenas observador. Meu destino, esse já tracei antes de entrar na sala.

Manchetes
Chamam novas as velhas notícias. Nossas mentiras mudaram muito pouco nos últimos séculos...

A arte
Desenho palavras.
Escrevo linhas.
Misturo conceitos sem preconceito:
da luz, a sombra; do som, o eco.
Não sou nada além de poeta.
Talvez, poesia.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Paulistanas reflexões



Da vida



Quando os olhos anônimos encontram meus olhos vivos, sequer imaginam as perdas, as pedras, os preços que a vida paga para ver...






O 15o. andar


O 15o. andar do meu prédio não existe. Nele moram alguns segredos, umas antenas e um sentimento impreciso de que saltar é provisório.





O poema perdido


O poema perdido não se alcança. Ele tem pernas de moça bonita e asas de anjo. O poema perdido tem perfume de adeus primaveril.


sábado, 14 de janeiro de 2012

Piolin, que a rua chama Abelardo Pinto





Tiraram a lua do lugar
Mudaram o nome da rua
Fizeram do artista, memória.
Palhaço.
Brilho eterno.
Riso, sorriso.
Fiapo de vida, Piolin.


História do picadeiro.
A cal cosmética da maquiagem,
Marte vermelho nariz planeta,
Teus olhos tristes transformam
A lua de verdade
Em rua de brinquedo.


É tarde, o circo começa.
É cedo, a vida vai...
A agilidade do mágico.
O passo da bailarina.
O risco do equilibrista.
A precisão dos malabares.
A doçura das feras.
O olhar do domador.
Seus ares, sua dor.
Feita risada.
Desgarrada.
Livre, solta, viva, querida.
Transformadora.
Transformada.


Hoje tem marmelada...



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Onde, onde?




Onde moram as nossas decências?
Onde habitam as nossas dúvidas?
Onde as nossas fragilidades se guardam?
Onde fica
Onde brinca
Onde esconde onde
A nossa pura emoção?
Onde estão as sensações?
Há um porto, há um parto,
Uma memória, alguma lembrança?
Há um lugar incerto indefinido impreciso
onde encontramos a nossa angústia?
De qual janela observamos a vida?
Qual a cortina que se afasta
para mirar o espelho do medo?
Nem tão sisudo, nem tão leve,
nem intenso ou profundo,
raso ou tênue,
nem tão rumo, nem perdição.
Apenas e completamente vida.
Resultado das nossas mais sinceras buscas
e das sonolentas e insones elocubrações.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012



Meu cérebro brinca
mil poses
para registrar a mulher
iluminada.


Meus músculos ensaiam
mil posicões
para seduzir a mulher
desinibida.


Meu beijo destila
mil porções
para o prazer da mulher
apaixonada.


Há mil razões para a emoção.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A minha poesia (2)



a minha poesia

é estímulo e resguardo
é porta aberta e cela silenciosa
é meu quarto e meu universo
é o medo e a decisão
é a suavidade da palavra e o rigor do termo
é a emoção e a regra
é o dia de ontem e a esperança do amanhã
é o que eu tive e aquilo que perdi
é o íntimo e o superficial
é o Bem e o Mal
é a verdade sobre a mentira
é a linha, é o ponto, os dois pontos, as reticências
é a paixão e é a ciência
é a paciência, é a paciência...

a minha poesia
é estado de felicidade e de angústia
dói, marca, magoa, dá prazer e satisfação
é companheira e companhia
é parceira e parceria
é a delícia do ousar com a malícia do querer
é o brado indignado, é a declaração de intenções
é a comédia, é a tragédia, é o romance
é uma regra sem regras,
uma métrica sem medida,
uma força intensa e suave.

a minha poesia
é simples como eu.



sábado, 7 de janeiro de 2012

Sentinela




De uma torre imaginária
Guardo a cidade vazia das investidas piratas
Dos corsários dos falsários dos lamentos
Das donzelas das mazelas das mal-amadas
Dos perigos e dos perigosos aventureiros
Que fazem a simplicidade refém
A moral esquecida
A nudez vestida

Do alto dessa torre imaginária
imagino vencer a morte
tal qual venço a vida...



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Meu herói




Herói sem tempo, vilão por acaso

Não sou mais - nem menos - que humano

Imperfeito, incoerente e falível

Um tanto cansado de tantas lutas

Mas sem conseguir fugir da próxima

Virado em quadrinhos

Salto do videogame para a vida

Brigo com a sombra e com as sombras do Mal

Em nome do Bem e da Justiça

Ganho estrela de xerife

Espada de espadachim

Capa de super

E caneta de poeta, da hora.

Para quê?

Ahhhhh...

Para contar a história de dentro pra fora.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Finalmente




Finalmente o horizonte me encontra



Finalmente o sol e a lua se apresentam


Finalmente olho para o espelho e me reconheço


Finalmente se aproximam da memória
as coisas que não esqueço


Finalmente resgato meus dons
mais puros: dignidade, honestidade, verdade


Finalmente eu me descubro senhor da vida,
senhor da minha vida, senhor do universo
sem limites de existência no Deus que me proporcionou


Finalmente fiz as pazes com o Criador


Finalmente a dor e o amor se entendem


Finalmente a luz acende e a conta está paga


Finalmente a faca recua e a mão acaricia


Finalmente o grito cala e a boca beija


Finalmente as reticências ampliam meu poema


Finalmente confesso meu medo de morrer


Finalmente confesso que esse medo
me faz escrever poemas em vez de testamentos


Finalmente rio de mim com uma baita vontade de chorar


Finalmente choro
 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Veredas




Há um silêncio entre nós
Uma espera de palavras que jamais virão


Há um escuro entre nós
Uma ponte que une duas ausências de luz


Há um abismo entre nós
Uma fenda aberta no teu no meu coração


Há um descompasso entre nós
Uma vontade, um desejo, um átimo, universo


Há um amor entre nós
Uma vereda de vazios que o tempo esqueceu...



domingo, 1 de janeiro de 2012

Da esperança





Gosto de verbos.
Indicam ação: fazer, acontecer.
Provocar, desafiar, atiçar.
Sentir. Gostar. Estabelecer.
Gosto (também) de advérbios.
Até dos não absolutamente necessários.
Indubitavelmente. Verdadeiramente. Sempre.
Gosto de adjetivos mas a eles prefiro os substantivos.
Paixão. Amor. Emoção.
Verdade. Fé. Dignidade.
Paciência. Luz. Tranquilidade.
Aprendiz, gosto das palavras que entendo
e tento entender as novas lições.
Sou movido a poesia.
Ainda que, vez por outra, ela venha

em forma de esperança...