segunda-feira, 30 de abril de 2012

no labirinto




paredes muralhas passagens 
de papel e de papelão
cenários folhagens contornos
desenhos góticos
colunas gregas
projeções
capitéis
um céu inteiro
e o caminho sem fim
sem fim
sem fim
...
nem minotauro, nem teseu
nesse labirinto de espelhos
o habitante perdido sou eu,
sou eu...

terça-feira, 24 de abril de 2012

óbvio




Entristece-me o óbvio. 
É a falta de espaço. 
É o poema sem graça. 
É a clara manifestação do medo. 
É a constatação do sabido. 
É a anulação do improvável. 
É abrir mão da fantasia. 
É o arrego. 
É o descarrego sem posse. 
É a tosse tuberculosa. 
É a palavra fim, no fim. 
É o fim. 
Entristece-me o óbvio. 
Por isso, ressuscito.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

pontes




de que lado do vale
ficaram meus sonhos?
de que lado do vale
ficaram as ilusões?
o que era certo tornou onde
o que era ponto virou pó
o que era luz, escuro
o que era laço, então nó
só não mudou a sede da procura
nem minguou a fome do buscar
busco a resposta onde estiver
busco o caminho, aonde der
busco o outro lado da ponte
busco da vida o horizonte,
a linha imaginária da minha fé.

sábado, 21 de abril de 2012

haikai: do coração




meu coração singelo
exige muito vigor
da minha veia poética


quarta-feira, 18 de abril de 2012

revisão





a noite passa fria
condensa o suor diurno
brotam lágrimas nos vidros,
nos azulejos encardidos,
no espelho enrugado.


o sol chega manso, 
despretensioso e tímido,
para passar a limpo a história
toda a história
do ontem e de outros tempos.


são mortes, vidas, chegadas,
idas, portas, janelas, risadas,
lamentos, prazeres, poeiras,
garrafas, gavetas, geleiras,
pedras, pesares, pessoas...


imensa é a linha que separa os tempos,
intensa é a revisão das nossas almas:
no inventário dos meus erros
um acerto ou outro 
é apenas revisão.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

a poesia, essa companheira




a poesia é companheira de todos os momentos:
faz da noite um ritual e dos dias a surpresa...
faz-se mulher e, então, seduz
faz-se conselheira atenta e desanda a falar, falar, falar...
vem como quem não quer nada e se faz presente,
vem como que de passagem e fica para sempre
assim assim,
para acompanhar atentamente 
a luta da caneta contra o papel em branco...
é nesse momento que se torna cúmplice das marotices,
parceira nas insanidades,
lado a lado nas traquinagens,
até se mostrar íntima para as mais gostosas rimas...
vem em forma de musa e, como tal, 
entontece...
vem acompanhada de vinho e, então,
enternece.
aceita a crítica com bom humor
e deita-se na cama,
depois da fama,
a provar o melhor do amor...
adora as entrelinhas
sem dispensar o revisor,
este poeta desatento e errante,
humano pois...
pois a poesia o trata de igual
para igual,
sem preconceito nem soberba,
sem medo nem modéstia,
criador e criatura
deliciosamente mancomunados
na defesa de seus pecados
e na pureza de suas almas...
então, com calma, 
a poesia declina dos adjetivos fúteis
e abraça o poeta substantivo
esse ser vivo
e tão querido
que lhe vive a amar...





sexta-feira, 13 de abril de 2012

das cores






a liberdade é usar um guarda-chuva pink 
sem medo de ser feliz


a felicidade é ter a liberdade de sorrir
até diante de um sorriso amarelo


a liberdade é entender que o azul celeste
está assim na terra como no céu


a felicidade é vazar o azul celeste
com um arco-íris gigantesco


a liberdade é usar todos os tons de verde
para celebrar todas as formas de esperança


a felicidade é escrever com liberdade sobre tudo,
sobre nada, ou até sobre amizade...


colorida, inclusive.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

equador



a linha imaginária do teu sorriso
não deixa dúvidas:
há uma lua acima e um mundo abaixo
a serem suavemente pecados.


terça-feira, 10 de abril de 2012

iguais




uma blusa de lã
uma caneta
uma maçã
um sorriso
um automóvel
a verdade...
o que têm em comum?
foram-me igualmente
furtados...


domingo, 8 de abril de 2012

das cruzes







Brotam apenas flores
Dos altares cristãos
Aos amores pagãos
De certas incertezas
Às mais incertas certezas
Das esperanças mortas
À fé viva dos crentes

Não semeamos falsas luzes,
e ainda assim iluminamos:
Brotam apenas flores
Do alto das nossas cruzes.




quinta-feira, 5 de abril de 2012

da janela (haikai)




a chuva molha
a tinta borra
a vida apenas olha...



haikai da coragem




salto no vazio
da tua alma
caio feito lágrima


quarta-feira, 4 de abril de 2012

das cinzas (haikai)






o céu cinzento
abraça lento
teu corpo de cimento



terça-feira, 3 de abril de 2012

cartas de um velho poeta




estas mal traçadas linhas
não encontram outro destino
que não seja o de encontrar-te
em algum lugar do planeta
em qualquer momento da lembrança
alhures no reflexo frio de um espelho desbotado
pelo tempo


não têm, estas mal traçadas linhas,
outro fito que não seja o de confessar
antigos pecados e amargas descobertas
como se por onde andasse - eu conto -,
como se por onde passasse
te acompanhasse ponto a ponto
no espaço


e ainda que outras vontades tivessem
- se tivessem desejos, quereres ou que tais -
estas mal traçadas linhas
de pouco valeriam tais ambições
pois o tempo passou, o espaço acabou
a vida, a vida simplesmente se foi
eterna...

domingo, 1 de abril de 2012

azuis





a felicidade é azul claro
a borboleta é azul brilhante
a verdade é azul royal
a mentira é azul glacial
o mar é azul marinho
a Terra é azul do céu
a vida é azul azul...