terça-feira, 31 de julho de 2012

olhos grandes




grandes são os olhos 
que miram meus olhos
grandes são meus medos
que miram seus dedos
grandes são as alianças
que guardam seus dedos
grandes são meus medos
que fazem alianças
grandes são seus olhos

sexta-feira, 27 de julho de 2012

das estações




o outono entregou-se ao inverno
sem cerimônia e nem com tanto frio
a primavera não veio na hora certa
atraso marcado no calendário
mas veio
como virá o verão
-- verão  -- e então
feito criança a empinar sua pipa
subirei brincarei voarei
ao bom vento das mudanças.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

arroz com feijão






este é um poema concreto
real, tátil, preciso, exato,
milimétrico -- pois mensurável.
é um poema de protesto
contra a ilusão e a dubiedade
e a favor do arroz com feijão.
não vou fazer poesia
nem gastar verbo com paixão,
nem metáforas, nem silepses.
é um poema comum para um homem normal.
é possível afirmar -- sem medo --
que o homem normal é aquele
que acorda cedo, pega ônibus,
bate ponto, trabalha, trabalha, trabalha,
bate ponto, pega ônibus, descansa...
sem paixão, sem erro, 
sem pecado nem omissão.
às quartas-feiras ele assiste o futebol, 
esse homem normal.
é para ele este poema tão certo, 
tão reto, tão palpável, 
tão arroz com feijão,
que não foi feito para impressionar
nem para encantar, iludir,
dourar a pílula ou tergiversar.
é um poema bicicleta, automóvel, chave-de-roda,
lâmpada, pincel, gilete, cadeira, prato,
piso, colher, formulário, gps,
WD-40, homem de ferro, tony stark,
romário, telefone, parafuso, bilhete,
barbante, mortadela, pente, unhex,
gravata, graxa, flanela, aspirina,
RG, moeda, sapato, bigode, fechadura,
caixão, vela, jornal, hemorróida, esparadrapo,
correia, ouro, óculos, caneta, pão,
pimenta, ovo, banana, arroz com feijão.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Aforismos




Sístoles e diástoles,
que mais eu quero?
Afinal, a máquina funciona.
-- O que emperra é paixão,
função mais estomacal do que cardíaca.


Quisera a poesia para encantar
e a prosa para explicar.
Errei a mão.
-- Em prosa ou verso,
é inexplicável e desencantadora a paixão.


Cabelos, unhas, maquiagem
e um universo a deslindar.
Nem mapa, nem astrolábio.
-- A paixão cega serve apenas
aos homens mudos de razão.

terça-feira, 17 de julho de 2012

da emergência





corro contra o tempo
sempre corri e correrei
tanto
que de repente não sou eu quem corre
é aquele que o tempo quis fazer
corro em pensamento, palavras e em atos
corro em pecados e confissões
corro para a frente, corre sem destino
corro em desatino, corro em desespero
corro a sangrarem os pés
como correm hermes filípedes 
deuses homens e eu
eu, que corro na raia da emergência
que corro para sentir a velocidade viva
que corro para entender
que a vida é contagem regressiva.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

meteoro






de que me vale a polêmica
se as minhas verdades são tão anêmicas
quanto as serifas das minhas letras...


é esse movimento que eu canto,
cigarra,
o trabalho da formiga
-- e fujo da briga sem medo de tropeçar nas pedras do caminho


transformo em poema
medos e credos e conceitos e teorias
encaro a estética,
o livre-pensar,
o certificado retangular enquadrado e emparedado,
o certo e o errado,
enfrento a ética,
a falácia,
a falsidade ideológica
e uns tantos lugares-comuns


vejo águias e enxergo pardais,
uso e abuso dos símbolos
fálicos - inclusive - 
e conto os sonhos que tive
e os que eu não tive,
compromisso com a verdade


persevero no azul da água
insípida inodora incolor
e juro por tudo quanto é mais sagrado
a inocência do culpado
e o tédio do entediado:
prefiro a ausência da vaidade
à verdade da audiência


solicito gentilmente ao dragão plantonista
que confira, na lista,
o lugar que ocupo na fila:
traço uma espera em ponto e vírgula
com a sensação de que minha vez passou
como minha voz


e nesse momento decido,
entre o vazio e o nada,
fazer do espaço atalho,
pontilhar de asteriscos a jornada
e chamar de estrelas o que é sonho...



dos elementos






uma tempestade em copo d'água,
deixei molhar
os ventos que sopram do leste,
sorri
o fogo que vem de dentro,
acendi
e do cheiro que brota da terra,
brotei
água, fogo, terra e ar:
vida elementar

sexta-feira, 13 de julho de 2012

da delicadeza




são quadros
são molduras
são pinturas, fotografias, 
gravuras, aquarelas
são flores pessoas cidades barcos traços crianças formas paisagens nus retratos espelhos enigmas
arquitetura
colagem
desenho
espaço
o branco esparrama um sorriso
e a tarde é plenitude

uma atitude mantém a delicadeza


quarta-feira, 11 de julho de 2012

legado





nem a arrogância dos poderosos
nem a subserviência dos mortos-vivos
quero deixar palavras que comovem
e exemplo que movem
-- pois o silêncio do feito
só se compara ao verso não declarado
ao poema não declamado
ao pensamento deixado ao cosmos


terça-feira, 10 de julho de 2012

rito





com a vontade na ponta da chuteira,
derramou areia, 
 sal grosso espalhou
pelos quatro cantos do quintal,
terra medida,
terreiro santo virou
preparou a oferta do seu jeito,
entornou a cachaça do seu jeito,
vestiu o santo do seu jeito
e sem jeito convidou a luz para entrar
disse adentrar, 
mas não tinha mal
nem bem 
que fizesse o verbo errar,
já aplicava advérbios sem pudor,
exagerado, adjetivos exagerou
nem da lembrança dos românticos
se furtou: abriu-se em versos,
derramou rimas pobres,
escorregou nos hiatos,
abusou dos cognatos,
e desandou a falar nagô
zulu, banto, iorubá, gogô
dançou, girou, caiu, ergueu, voou, sambou
e pelas sete portas fez brotar
um canto puro,
puro lamento
de seu instante real
e vestido de rei
abriu seus braços 
e chorou, humilde,
a fé daqueles que colocam
a vontade de viver na ponta da chuteira,
imunes à justiça dos homens, 
mas jamais impunes à verdade.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

taturanas



as sobrancelhas de Deus
criaram as taturanas
essas criaturas que apenas a imaginação 
das criaturas humanas
não criaria...


resistir




resistir
com a energia e a vontade
daqueles que sabem ser preciso
viver

persistir
com a convicção e a serenidade
dos que conhecem o caminho
 a seguir

insistir
com teimosia e predestinação
na conquista dos limites
a romper

para então riscar 
da lista de nossas opções
o perigo o risco o verbo 
desistir





sábado, 7 de julho de 2012

meus dias



meus dias têm me estampado
a vida e a morte 
mostradas na mesma janela

meus dias têm me jogado
aflições e luzes
que fazem da vida gangorra

meus dias têm me ensinado
morais e lições
nem todas úteis

meus dias têm me contado
histórias e lendas
algumas reais

meus dias têm me lido
livros, poesias e atas
sem muitas diferenças

meus dias têm me trazido
amigos e amores
que se misturam no afeto

meus dias têm me dado
prazeres até demais
e uns bons momentos

meus dias têm me calado
diante da miséria humana
e da humana miséria

meus dias têm me escorrido
pelos calendários gregorianos
como se fossem areias

meus dias têm me feito
propostas indecentes
e quantas rejeito

meus dias têm me despertado
fé e força
em Jorge e em Judas e em Francisco 

meus dias têm me deixado
de joelhos
diante de um mundo de credos

meus dias têm me transformado
naquilo que eu sou
e assim eu vivo

meus dias têm me lançado
pedras e flores
na mesma quantidade

meus dias têm me gritado
o silêncio do vácuo
e o rumor dos ventos

meus dias têm me ensinado
no dia a dia serem eles
meus dias inteiros meus


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Reticências



...
não são estrelas
não têm luz própria
não ocupam lugar no espaço
- ou se ocupam, é tão pouco
que nem se confundem com existir - 
com tão pouco, 
as reticências dão uma esperança
do tamanho de um bonde
...





Parceira



eu tenho velhos hábitos e antigos vícios
a virtude, limita-se à poesia
essa parceira do dia a dia...

terça-feira, 3 de julho de 2012

máquina de escrever



as teclas do meu sonho, vez por outra,
engripam no atropelo mecânico das hastes metálicas
giram na margarida bem-me-quer dos tipos
e esbarram num retrocesso quase memória
nasci remington, cresci olivetti,
hermes adolescente, amadureci práxis
contei, rimei, discorri, discursei, amei
desamei, derramei, verti, escrevi, apaguei
d-a-t-i-l-o-g-r-a-f-e-i uma vida passada a limpo
na ilusão de que, com papel carbono, 
seriam gêmeas as nossas emoções...

dourados




sonhos ou cabelos
pouca diferença
o sol quando neles bate
doura
e o vento quando sopra
dispersa
e a música quando soa
compassa
e a arte quando abraça
emoldura
cabelos e sonhos
dourados
tão belos, tão amarelos
tão iguais...


manhã de inverno




nem frio
nem fogo
a cena é velha conhecida
um sol de pouco brilho
uma janela semiaberta
outra que se abre
e mais uma e mais outra
o dia acorda
uma mulher acorda
a vida acorda
café
creme dental
nudez
mudez
um despertador
uns pássaros
carros
olhos e ramelas
bocejos
espreguiçadas
movimento e vida
abre a cortina
passa o ar
arrepio
sorri a alma:
o espetáculo tem que continuar...



segunda-feira, 2 de julho de 2012

da loucura



a cegueira em si não se bastou
mortos olhos e escuridão
cercados de medos por todos os lados
ilhas, arquipélagos 
na forma de homens e mulheres 
aos trapos
maus tratos
desesperanças
destemperos
tremem as mãos
os dedos inseguros dóem castigos 
tentam agarrar o nada
e o nada escorre
e o nada escárnio riso gargalhada
e o nada silêncio 
silencia o grito rouco
de tom louco
de tez gélida e dura
como a boca aberta em sangue
da virgem louca loucura



das reticências





sinto falta das reticências que não vieram
do fim sem fim das reminiscências
das ciências humanas e das biológicas
das proeminências de formas e conteúdo
do feudo das evidências ocultas
que apenas as reticências dão conta...

do quadro





da tela do desespero
às tintas da agonia
o cansaço, a fuga, o medo
não pegam senha
entram pela fresta da alma
arranham as paredes do estômago
destilam bílis 
e provocam o rigor da autopiedade
que a garganta insiste em sufocar...

das luzes




cintilam brilhos
cores espargem
o branco reflete
o preto absorve
a cidade pontilhada
emoções à parte
a luz, as luzes
e os espelhos vazios...


parafernália




não mais me pertencem 
os cacarecos das gavetas
a tralha juntada pela vida
poemas em guardanapos
calendários, agendas, cadernetas
mequetrefes inominados
caixas, envelopes, baús
cadeados sem chaves
pesos de papéis, canetas
lápis, grafites, apontadores
apontamentos e desapontamentos
óculos, lentes, binóculos, janelas
chaveiros, pecinhas, traquitanas
pregos, tachas, prendedores de gravatas
botões descamisados
paletós desconjuntados
espirais, tesouras, relógios sem ponteiros
clipes, moringa, ampulhetas e suas areias
poeira cósmica sedimentada em sonhos
não me pertencem mais
os cometas que passaram
as estrelas que caíram
os dias que findaram