domingo, 30 de setembro de 2012

das lendas





uma felicidade provisória
empresta sua alegria
aos mais tristes dos meus dias
faz de conta que é verdade
e como uma lenda,
verdadeira assim, faz de mim
o menos covarde dos mentirosos 
e nem por isso mais valente
e nem por isso mais feliz...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

soneto das palavras




as palavras se explicam
as palavas formam frases
orações, petições, redações
e poesias

as palavras se estendem
as palavras se encaixam
quebra-cabeças, quebra-poemas,
quebra-nozes e quebrantes

as palavras se definem
as palavras se completam
as palavras se condensam

as palavras se concentram
as palavras se entendem
as palavras sentenciam


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

mato grosso




quisera escrever um poema pantaneiro
mas eu não sou daqui
nem marinheiro sou

queria um poema campineiro
chapado veadeiro guimarães
planalto planície cerrado

-- cerrado como meus olhos 
para o tão pouco 
que conheço...

basta então o poema urbano
de massa e pó de cal
de ponte viaduto túnel canal

nem todo Bem, nem tanto Mal.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

da Morte




a justiça é intangível
como intocável é o amor
impossíveis, nem um nem outro
tão remotos, tão distantes
e atraentes, desejáveis, irresistíveis
-- ao mesmo tempo, invisíveis
e por vezes insensíveis...

da justiça e do amor
espera-se a Verdade,
tão impessoal quanto a Morte.

sábado, 15 de setembro de 2012

Acaso






E se a poesia não vier?
E se o dinheiro não der?
E se nem homem, nem mulher?
E se o acaso fizer?
E se a flor não abrir?
E se a bolsa cair?
E se a doçura acabar?
E se a amargura adoçar?
E se a loteria sair?
E se o tom desafinar?
E se Deus quiser?
E se o diabo carregar?
E se o galo não cantar?
E se o pão queimar?
E se o corpo arder?
E se o tempo volver?
E se a verdade brotar?
E se o pouco crescer?
E se a força falhar?
E se a falha forçar?
E se o gesto tremer?
E se a hora chegar?
E se a resposta negar?
E se o sol não nascer?
E se não houver luar?
E se não der pra correr?
E se o bicho pegar?
E se ficar?
E se não ficar?
E se a bolha explodir?
E se o céu despencar?
E se a veia romper?
E se a porta fechar?
E se o grito calar?
E se a vida passar?
E se a vida passar... 


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

o sono dos meus sonhos




meus sonhos dormem 
não dormem
em travesseiros estampados
veleiros sem vento
listas sem contrastes
céus sem lua nem estrelas

meus sonhos dormem
não dormem
na realidade de ontem
e na insônia de sempre
na esperança do amanhã
na esperança da manhã

meus sonhos dormem
não dormem
ilusões sem fantasia
silêncios sem explicações
poesia sem fim
paixões, paixões, paixões

meus sonhos dormem
não dormem
com música ambiente
com lágrimas disfarçadas
com jeito de gente
com leite quente e chocolate

meus sonhos dormem
não dormem
ternura, espasmos
rasteiras, melindres
mortalha, cantigas
cigarras, formigas

meus sonhos dormem
não dormem
o sono do escuro
o sono dos medos
o sono dos mudos
todos os sonhos do mundo...



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Proposta indecente de uma louca


Maria, Lorena,
deste delicioso blog  
http://frasesoltasdeumalouca.blogspot.com.br/
propõe:

"Perguntas para esses queridões aí responderem:"

1- Quais as férias dos seus sonhos?

Budapeste e Roma.


2- Qual motivo o levou a criar um blog?

Poesia, sempre a poesia.


3- Qual o motivo o fez sorrir pela última vez?(Algo corriqueiro mesmo...)

O vídeo dos patinhos atravessando a rodovia no jornal Hoje de hoje, 5 de setembro


4-Chorar, gritar ou calar?

Chorar. Quem não chora, não mama.


5-Qual seu estilo musical?

Música de qualidade, tanto faz o estilo.


6- "Me entristeço com..."

... injustiça.


7-"Meus olhos brilham quando..."

... escrevo.


8-"Gostaria de nem levantar da cama quando..."

... faço amor.


9-"Me dá água na boca..."

... chocolate.


10- Uma saudade:

Meu pai.


11-Uma meta a ser superada:

A tristeza de hoje.


Taí, Lorena... minha vida é um blog aberto. Por uma louca. 



poema triste




o poema não é triste por que quer
o poeta não é triste por que quer
o poema não é o poeta
nem o poeta é o poema
os dois são tristes
nenhum deles por querer
o poema é triste por que é cercado de mortes
o poeta é triste por que é cercado
o poema é triste por que é marcado a ferro
o poeta é triste por que é marcado
o poema é triste por que é
o poeta é triste por que não é
não ilude a fantasia
não encanta tecnologia
não motiva, não arrepia
não não não não
o poema é triste pois não
o poeta é triste pois

e numa garrafa vazia de vida
vermes embebedam-se de vácuo

o poeta é triste por que o poema é triste
o poema é triste por que o poeta é triste


envelopes pardos



envelopes pardos
envelopes pardos
envelopes pardos
envelopes pardos
envelopes pardos
envelopes pardos
que vida triste...


terça-feira, 4 de setembro de 2012

poema substantivo





sobriedade força desejo
estilo e sabedoria
meias de seda e chocolates
rouge batom fragâncias
opinião reserva olhares
medidas e reservas
poesia poeta métrica
método e consequência
ciências e aforismos
matemáticas e experiências
Lavoisier Marx Reich
Ruschi e beija-flores
amores canções histórias
mentiras e verdades
angulares plurais agudos e graves
sons e atitudes
antúrios copos-de-leite margaridas
espadas-de-são-jorge
comigo-ninguém-pode
cama e mesa
barba e bigode
o fio da navalha
a mortalha e o tear
o fazer o ser o sonhar
sonho noite insônia sol
cortinas e cenários
rosários
contas
miçangas
terço
orações ladainhas e clero
lero-lero
quero-queros
passarinhos vôo céus
abelhas e méis
canetas dobradiças anéis
bordel e corcéis
imagens delírios miragem
impressões
digitais
identidades e remendos
durex cola-tudo araldite
borracha erros grafite
cinzas fumos cigarro
cigarras e centopéias
leite-moça e geléias
amarras ancôras rumos
estômago intestinos 
destinos próstatas rins
parintins e cardosos
miguel gabriel serafins 
a bússola o astrolábio
o beijo o lábio a sorte
a morte
o riso
o fim


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

olho mágico




eu tenho um olho mágico
um olho hermético
um olho estrábico
um olho de verdade
cansado de ver o mundo
com outros olhos
esse meu olho vislumbra
um ponto de fuga
pespectiva frágil
dos meus enganos:
não serei do mundo a palmatória
- isso é outra história - 
serei apenas o mergulho certeiro
no passado incorrigível
que os humildes chamam vergonha
e, os poderosos, fraqueza.