segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Rapidinho




Com todas as peças pregadas
tropeços desencontros despedidas
e colapsos...
Mas também com alegrias
pessoas poesias avanços 
e mudanças...
vai-se um ano, 2012, rapidinho.
E vem, rapidinho, 2013
-- num segundo, tudo muda
até o que é igual --
com os melhores votos
de muita saúde
felicidade concentrada
novidades em tempo real
boas notícias convergentes
perfume no ar
cheiro de gente
queridos amigos
amores afins
sereias sacis princesas querubins
lendas e reais momentos
recordes e superações
em alta, as ações
boas de um mundo verdadeiro,
inteiro, florido, arborizado, preservado,
romântico e enluarado.
Vem rapidinho, 2013:
vou emagrecer
vou crescer
vou amar
vou somar
vou dividir
vou multiplicar
vou compartilhar
vou viver...
Rapidinho 2013, 
seu verbo será curtir.


sábado, 29 de dezembro de 2012

Das aspirinas e do ano novo




Três espirros, um arrepio.
Mezzo resfriado, mezzo mussarela.
Que me perdoem os gramáticos,
os revisores, os perfeccionistas.
Minha idéia não consegue ser ideia.
E muçarela ofende o teclado.
A pronúncia também.
Pergunto-me: onde andará a poesia
no ano que entra?
Tateio a lua em forma de carinho.
Respondido?
Colho flores amarelas em fotogramas digitais.
Respondido?
Ajunto promissórias e promessas.
Respondido?
A vida não para. Nem esquece.
A vida tem uma grande memória.
A vida é elefante.
Computadores têm grandes memórias.
Computadores são elefantes.
É lógico. Como a vida.
Passam pelo coador idéias (sic) e pó de café.
O espelho insiste em ressaltar rugas e olheiras.
Uma noite mal dormida, afinal,
pode ser um novo poema.
Durma pouco e escreva matinal.
O café rescende poesia.
A borra pede perdão.
Perdoai, ó seres, os meus erros.
E livrai-me dos abutres. Das catrunfas.
Dos chatos e dos intolerantes.
Livrai-me do mau humor e dos tumores.
Livrai-me das cólicas renais e da conjuntivite.
Sem pudor, desejo um ano regado ao nudismo.
Entregue à simplicidade.
Amável. Amoroso. Amistoso.
Um ano em que os pequeninos herdem o Reino dos Céus. 
E que os pequenos se enxerguem.
Desejo um ano não-sabático.
Um ano não-bissexto.
Um ano de felicidade plural.
Um ano anônimo e bem frequentado.
Sem mantras e mentiras.
Com estrelas e luas.
Sóis, um para cada dia.
Noites e modéstias. Diversidades.
Calores. Toques. Presente.
E enquanto as horas passam,
os dias vão e os segundos lembram,
leve consigo a esperança e um pote de aspirinas.
E não se esqueça: em caso de emergência, quebre as regras.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Do Natal




Há discórdia em mim. 
E nos caminhos minhas pernas sangram sem derramar. 
Sofro silêncios. 
Pranteio lágrimas secas. 
Meus pés cortam-se na areia vítrea 
que penetra na raiz dos erros. 
Agarro-me em Deus. 
Levito.
Por vezes penso que apenas morri, 
noutras, que venci. 
A jornada não termina. 
Amigos enxugam o suor,
molham minha boca,
apaziguam o sofrer. 
Bálsamos medicamentos chás analgésicos unguentos mezinhas pílulas fórmulas drágeas pomadas extratos xaropes pastas pastilhas misturas suturas cintas bandagens gazes méis féis infusões curativos inalantes. 
Alívio. 
Isso também chama Natal,
um bom dia para minha redenção. 
Feliz.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O que eu não falei para as minhas filhas sobre o Natal





Se eu contei das bênçãos,

Não falei dos sustos.

Se eu contei das auroras,

Não falei dos poentes.

Se eu contei das vitórias,

Não falei dos tombos.

Se eu contei presentes,

Não falei ausências.

Se eu contei da felicidade,

Não falei das tristezas.

Se eu contei da vida,

Um tanto não falei...

Mas contei do Menino Jesus.

Contei de Maria e José.

Contei da estrela-guia.

Contei dos Reis Magos.

Contei da árvore e dos enfeites coloridos.

Contei da esperança e contei da luz.

Contei da alegria e contei da paz.

No mais, se não falei, nem precisa...

Com o que elas sabem, elas vivem.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A minha árvore

A minha árvore




Nos galhos mais baixos, lembranças de pessoas que embasam minha história. São retratos palavras desenhos rascunhos momentos vozes perfumes sabores toques sorrisos lágrimas emoções. Logo acima, aparecem aquelas pessoas que marcaram minha formação. São professores camaradas críticas ídolos exemplos amigos cúmplices parceiros colegas incentivos compreensões. Nos galhos mais altos, as pessoas que fazem do amor seu maior exercício. São brilhos cometas arco-íris corações ouro incenso mirra luzes esplendores auroras poentes eternidades presenças. No topo da minha árvore está a estrela de Davi, meu neto, que nasceu neste abençoado 2012. É o futuro.

É pela estrela que me guio a vocês para juntos mantermos viva a esperança no amanhã.

Feliz Natal e um Ano Novo estelar.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Triste




Escrevo triste.
Cansado também.
Sei que escreverei o que não devo.
A tristeza facilita adjetivos.
O cansaço pede advérbios.
Reside em mim uma angústia.
Melancolia residente, agonia.
Não é incerteza.
Não há explicar.
É fundo estanque aquário.
Um peixe ornamental deformado abissal sôfrego arrítmico plácido.
Eu, peixe.
Guelras nadadeiras bolhas.
Um peixe de aquário.
Um respirar artificial.
Inumano e crônico.
Uma cabeça. Pulsar.
Uma beleza provisória.
Dor.
Unguentos, cápsulas, lâmina.
Corte.
A sangria. Devaneio.
A vida que foi.
A morte não veio...


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

das unhas





das unhas que escrevem certo por riscos tortos
surgem sanguíneas palavras não escritas
cicatriz de prazeres, poema concreto
sólidos geométricos, paralelogramos
-- nem tão perto, nem tão longe do sonho --
e dos desenhos animados,
dos rabiscos mutantes,
de paralelos e de meridianos
brotam luzes e perguntas:
qual farol indica o rumo?
qual vento leva ao porto?
qual vela sela o destino?
(silêncio)
há um vácuo humano no fim do mundo
feito ácido que as unhas corrói.




sábado, 15 de dezembro de 2012

poema limpo




quero um poema
que não despeje carbono no ar
quero um poema limpo
limpinho, no mínimo
-- sem ser irônico --
mas um poema simples
como banana com açúcar e canela
assim doce, mas que alimente
e tenha sabor de infância
um poema que relembre quem fui
e dê uma esperança
gramatical, no mínimo
de tempos leves
um poema antigo na forma
-- sem ser romântico --
mas eficiente na mensagem
um poema inteiro que independa dos meios
isso:
um poema independente
limpinho, novinho, magrinho
mas competente
extremamente competente
na arte de revolver o chão e tirar a vida do lixo,
reciclada, no mínimo.


estilhaços


 
 
eram homens mulheres crianças
era longe
eram distantes
estilhaços
e nem por isso não vazaram nossos olhos
e nem por isso não salpicaram nosso chão
sem estrelas
e nem por isso tornaram o dia menos dia
a luz não faz ideia da beleza que é o reflexo do vidro quebrado nas paredes de uma tragédia...

sábado, 8 de dezembro de 2012

Amarela




alguma flor amarela
rompe a madrugada
desvirgina a fantasia
transforma a boca em coração
desvirtua a ordem
inaugura canais
abre o livro não lido:
a clausura do improvável
as pontas mais duras do seu chicote
o sonho a força o gozo
a disciplina escorreita
a moral e os bons costumes
os queixumes, azedumes
o prazer, esse inesperado
companheiro do vazio...
a história em versos
sem pudor -- e por isso história
o drama se reproduz
em farsa comédia falsete
tuas cantigas acalantos
ninar...
um capítulo na alma
um risco no corpo:
suas cicatrizes fecham o pranto
dos seus olhos cegos.

Desperta a manhã
e colhe flores amarelas
num jardim virginal,
real...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Das noites

 
 
Noite indefesa...
Tem lua tem estrela
Calor calor calor
Analgésico
Tucunaré
Pastel de vento
Exercício de aritmética
Deusas gregas
Amantes romanas
Sonhos sem cor
Alice
Sem país das maravilhas
Navalha na carne
Riso torto
Paletó branco
Cravos vermelhos.
 
 
Noite indefesa...
Tem razão tem emoção
Flor flor flor
Vaso sem flor
Enciclopédia
Desaforos
Pedras polidas
Orangotangos
Travesseiros vazios
Pelos macios
Barba por fazer
História universal
Livro sagrado
O mundo inteiro
São Jorge Guerreiro
E o Dragão.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Saudade



Um relógio de sol sorri o tempo sem sombras:

domingo com macarrão e tubaína.

Uma cidade inteira a deslindar,

a vila mundo adentro.

Uma história sem quadrinhos,

heróis ou vilões -- a história

de todos nós.

Um bom motivo para estar vivo,

algumas razòes para ser.

Um sonho, uma verdade,

quantas buscas...

Um brincar com as palavras,

quebra-cabeças.

Uma vontade no paletó,

a gravata e o nó.

Um forte cheio de gás,

uma lamparina.

Uma moldura sem quadro,

um quadro sem figura.

Um cavaleiro andante,

uma dulcinéia na luta,

um escudeiro sem escudo.

Um perfume toma o ar,

um simples aperto de mão,

a impressão daquela presença.

Uma ausência.

Uma saudade.

Uma latência.

Um relógio de sol sem tempo

e vão-se embora

o domingo, o macarrão,

a tubaína...

 

domingo, 2 de dezembro de 2012

A poesia




A poesia vem fácil e fácil vai
A poesia de tantos poetas
A poesia de tantas estrelas
A poesia de tantas luas
A poesia das ruas
A poesia dos guardanapos
A poesia dos esquecidos
A poesia apaixonada
A poesia que protesta
A poesia que encanta
A poesia em desencanto
A poesia da cidade
A poesia rimada, certinha, 
gigante em simplicidade
A poesia que inventa moda
A poesia que acorda cedo,
dorme tarde e nunca para
A poesia de todas idades
A poesia de toda bondade
A poesia dos malefícios
A poesia que é hábito
A poeisa dos vícios
A poesia bem humorada
A poesia dos bem amados
A poesia dos bons exemplos
A poesia dos desesperados
A poesia concreta, abstrata,
heróica, parnasiana
A poesia cotidiana
A poesia de todos estilos
A poesia de tantos destinos
A poesia de toda poesia,
que vem fácil e fácil vai.