terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Meus males prediletos (ou, Deus nos livre)



Conjuntivite
Pseudocistos
Cálculos renais
Meias palavras
Mentiras verdadeiras
Falsos ídolos
Placas erradas
Calcanhar caloso
Unha encravada
Espinhas e cravos
Flores murchas
Gaiolas
Discursos 
Relatórios
Formulários
Burocracia e antiácidos.
Deus nos livre dos chatos.
Feliz ano novo.


Pela manutenção da vida



manter a respiração e a caixa de chás abastecida
manter a esperança e os pneus calibrados
manter a fé, nem precisa ser cega, e a faca amolada
manter a alimentação sadia e os carboidratos
manter a paixão e os corpos aquecidos
manter a razão e economizar nas regras
manter a mente quieta, a espinha ereta e ouvir Walter Franco
manter os olhos no infinito e chamar sonhos
manter a cabeça erguida e os pés no chão
manter um colírio à mão e um delírio ao luar
manter as certezas e deliberar as dúvidas
manter o juízo sem precisar ser juiz
manter a prosa com os amigos e a cerveja gelada
manter a poesia acesa e a luz apagada
manter a vida sobre todas as circunstâncias e ser feliz


domingo, 29 de dezembro de 2013

Poema desesperado



Quatro noites mal dormidas
e um poema desesperado.
Cheirando a água sanitária
como se quisesse lavar a iniquidade.
Sugando a verdade das entranhas
como se pudesse extinguir a mentira.
Cravando cruzes e estacas nos vampiros diários
como se exorcisasse.
Rindo descaradamente da mediocridade
como se isso fizesse diferença.
Jogando o jogo,
deixando pra lá,
fazendo de conta,
varrendo pra baixo do tapete,
fugindo da briga,
retirando-se do cenário,
fechando o ato,
corrrendo escapando arregando desistindo de ser poema
para se tornar apenas uma prosa leve.
Não.
Qualquer poema desesperado inda vale mais 
do que a melhor desculpa verdadeira.
Quatro noites mal dormidas 
e um poema desesperado
à procura da esperança.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Feliz sonho novo



Feliz sonho novo.
Com todas as lutas.
Com todas as letras.
Com todas as razões.
Feliz sonho novo.
Em boa companhia.
Em casa, na praia, na rua.
Em forma ou com sutil sobrepeso.
Feliz sonho novo.
De fraldas ou de vestido.
De uniforme solene.
Ou solene nudez.
Feliz sonho novo.
Com sabor inédito.
Com harmonia e cor.
Com bateria nota dez.
Feliz sonho novo.
De olho no sucesso.
De mãos dadas.
De braço gessado.
Feliz sonho novo.
Sob medida.
Sob encomenda.
Sob pressão.
Feliz sonho novo.
Com dias de 25, 28 horas.
Com semanas de três dias.
Com treze meses para dar sorte.
Feliz sonho novo.
Forte como os obstinados.
Livre como os amotinados.
Lindo como os determinados.
Feliz sonho novo.
Impecável.
Improvável.
Indecifrável.
Feliz sonho novo.
Champanhe, cidra, espumante.
Chorinho, samba, funk.
Castanhas, salada, rabanada.
Feliz sonho novo.
Tradicionalmente.
Novamente.
Decididamente.
Feliz sonho novo.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ruas de Havana



Ruas estreitas de Havana, saudades larga
Belas e únicas em emoção e personagens
Gente que abraça com ternuras
Passeios que levam ao mar
Calçadas que levam ao mar
Caminhos que levam ao mar
Lições que levam ao mar:
Aprendiz à proa, pronto a navegar por uma ilha de ruas e de histórias


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Rapidíssimo conto de Natal



     Eram mais de onze horas da noite. Janelas piscavam. Ruídos de festas. A toalha branca e verde e vermelha vestia a mesa. Duas taças prontas para o brinde. Mais uns minutos.  O telefone toca. O tempo é o presente: Feliz Natal, querido. Sim. Feliz Natal, queridos: meu espelho larga um riso de Noel e brindamos um Cristo que nasce para nunca mais nos sentirmos sós.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cubanas (13)



Há poemas tão grandes
que oprimem a própria poesia.
Falam de idos e idas.
De voltas e de vindas.
Constroem muralhas de palavras
contra o medo.
Fabricam armas de idéias
para uma artilharia de ideais.
Insuflam as crianças de sonhos
e fortalecem os adultos com seivas de verdades.
Sementeira. Escultura. Artesania.
Poemas que juntam mãos.
Poemas que viram hinos.
Poemas que gritam e que se seguem pelas ruas.
Há poemas que parecem homens.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cubanas (12)



Que heróis são esses,
que trabalham, trabalham, trabalham,
trabalham, trabalham, trabalham,
e trabalham para depois,
orgulhosamente, trabalhar mais?
São sorrisos ingênuos.
São notas musicais.
São estrelas e planetas.
São paralelepípedos.
São perfumes. 
São sabores.
E são domingos.


Cubanas (11)



São supernovas.
Explodem nascituras.
Cristal carvão cosmos calor crosta e cromossomos.
Combinações vitais.
Vistas ao longe são estrelas.
Vestem o essencial.
Por dentro, lavas e rios.
Veios de líquidos sanguíneos.
São rasgos de neon a anunciar a próxima estação:
o novo mundo novo.



Cubanas (10)



Passa um homem quieto.
Passa uma mulher colorida.
Pela rua substantiva transitam adjetivos.
Engasgado em poesia a síntese te absolve.
Curto e grosso como convém.
Não é uma vitrine nem loja de conveniências.
É uma janela sem cortina que te guarda feito anjo.
Dorme na vida o menino que desafiou a morte.
Como numa manchete de jornal
ou no título de uma cantiga,
nesta rua não moram interrogações.


Feliz aniversário



o tempo contado em pulsos
dias de vigília
horas de medo
minutos caros
momentos únicos
e no calendário da parede
o xis marca o teu aniversário
um jeito sutil de morrer uma vez por ano
o tempo cortado em pulsos


Cubanas (9)



A rua queda deserta.
Desertada de seres.
Ao longe parece um gato.
Não é, é poça d'água.
Nem bípedes nem ruídos.
Silêncios não caminham.
Nem luzes nem reflexos.
Cinzas não gritam.
Manchas nas paredes não são heróis.
Que medo de morrer cedo 
e não voltar ao teu vazio cheio de esperanças.


Truculências



Aquilo que aos olhos provocam
as pupilas
dilatadas de medo desfocam

Cubanas (8)



O ritmo da tua cintura denuncia vida.
Danças maravilhosamente bem.
Nem a música te supera nem a poesia te encanta.
Danças feito naja albina.
Arredondas o movimento com tuas longilíneas provocações.
Cigana. 
Enganas ao longe as tuas intenções.
E de perto tornas mais fácil ensinar teus passos.
Posarás nua em tua vaidade.
Lua. Lua. Lua.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Cubanas (7)



Além da linha do horizonte serei seu melhor e único amigo.
Poeta e parceiro.
E com todo o tempo do mundo para ser feliz.
Traga-me desafios.
Traga-me uma bebida quente.
Traga-me alguma verdade.
Que a ilusão e o sonho eu garanto.



Cubanas (6)



Ainda não entendi
se o mapa é uma cruz
ou se a cruz é o mapa.
Que calma que mistério que viagem
a planar.
Tem um passado descendo a escada.
Tem um sonho mordendo o calcanhar.
Tem uma luz e tem um fogo que nem sol nem lua.
Tem música.
Tem cor.
Tem vida.
Tem o timbre do sagrado e o ritmo profano.
Tem tanto e nem precisa de tanto para ser.


sábado, 14 de dezembro de 2013

Cubanas (5)



Todas as cores da aquarela.
Branco e preto.
A síntese e o exagero.
Adequados como chinelos de borracha
para passar poças,
matar baratas
e não sujar os pés nas pegadas dos homens sem caráter.



Turbulências



Quem dera os cintos de segurança
fossem tão seguros
quanto a mão estendida de uma criança


Cubanas (4)



Não faço poemas vãos
nem preciso dicionário
para expressar a dor.
Acompanho com os olhos
aonde vão minhas palavras.
A tradução é imprecisa
naquilo que precisa de tradução.
Fosse escultura, seriam ferro.
Fosse pintura, seriam ocre.
Fosse singular, seriam plurais.
Essas palavras sabor anis.

Cubanas (3)



Quantas natividades.
Tanta música.
Símbolos africanos.
Marcas universais.
Cicatrizes.
Olhos miram,
olhos mágicos.
Um corsário, uma fantasia, um reino.
Uma razão ou outra.
Ambas.
Acenda a luz do candeeiro e 
venha dormir.

Cubanas (2)



As janelas não têm legendas.
As sacadas não têm explicação.
As calçadas são estreitas 
e eu sou míope.
Um ciclope abre a baía
e o mar se agita.
Soa um canhão
que caçoa do meu susto.
Não perco o sono
nem o sonhar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Cubanas (1)



Que ruas são estas
que me procuram?
Paralelo e oblíquo
perco-me em encontros.
São surpresas, duas a duas,
a poesia destas ruas.
Nem minhas nem suas,
a poesia destas ruas.



25 fotogramas (um poema cubano)



não estou infeliz
não estou feliz
estou feliz
estou triste
vejo uma lagartixa
lembro você
tem uma baita lua no céu
meia-lua
desfilam mulheres nas esquinas
nunca fui a Paris
nem conheço a Noruega
sombras surgem e somem
perdi a memória
encontrei um amigo
fiz um novo amigo
nem me lembro
canto gregoriano
flores de plástico
velhas histórias
acendo um cigarro
não fumo
acendo uma cerveja
não bebo
acendo um lamento
não vivo



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

das esperanças que restam





era uma vez um homem bom
-- e isso por si já valeu um poema

era uma vez uma boa mulher
-- que a bondade é fêmea

era uma vez uma dor aguda
-- que as dores abençoam os nossos rins
e outros órgãos do nosso frágil corpo

era uma vez uma quase prosa
-- que da poesia se despia para parecer romance

era uma vez uma luz inquieta
-- que dos anjos seria se não fosse fria

era uma vez uma vontade infinita
-- que vinha luta a luta por todo o tempo

era uma vez uma esperança 
-- que de outras brotava feito flor teimosa
e que de tanta esperança em si restava


Do tempo




tracei linhas imaginárias 
em fronteiras do improvável

-- desfilaram ante meus olhos
o passado e o presente --

não sei se o tempo é carrasco
ou salvador das aflições

não sei se o tema da nossa prosa envelheceu
ou se foi somente o jornal que nada trouxe de novo

não sei se os culpados estão impunes
ou se fomos nós mesmos que os absolvemos

-- e entre tantas dúvidas e tão poucas certezas,
vejo a folhinha que perde os dias
e me pergunto em qual espelho
embaçaram os meus sonhos --

não sei se o dia escureceu
ou eram apenas nuvens que choravam...



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Poesia molhada



as palavras e o espaço brigam em poesia
prazer e sexo na arena branca e pura
as pupilas dilatam 
os poros extravasam
as peles encharcam
os pelos se abraçam
artérias e veias marcam sístoles e diástoles
movimentos certeiros vitais inteiros
mortais e deliciosamente animais




Pintar estrelas



eu tenho pressa mesmo sem saber aonde ir
eu vou à caça mas nem sei o que procuro
eu faço histórias sem pé nem cabeça
eu aprendo sem aprender e ainda sei
eu traço planos e sei pintar estrelas
eu canto cantigas que bem podiam ser hinos
eu durmo em paz como dormem bons meninos...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

definições



há quem chame amor
há quem chame paixão
há quem chame apenas
há quem chame então
há quem chame eterno
há quem chame tesão
há quem chame aceso
há quem chame emoção
há quem chame calor
há quem chame razão
há quem chame saída
há quem chame portão
há quem chame suor
há quem chame porão
há quem chame sozinho
há quem chame solidão



da pressão




pressão de cima
pressão de baixo
pressão de lado
pressão de
pressão de
pressão de
pressão



Sessão corrida




a vida drama
a vida comédia
a vida aventura
a vida roteiro
-- e roteirista -- 
a vida é curta
metragem
a vida é bela
como no cinema

domingo, 1 de dezembro de 2013

Poema pobre



Hoje é quarta-feira e a luz da lâmpada treme. 
Eu tenho medo das verdades do dia.
Eu tenho medo das mentiras da noite.
O suor delata tantos medos e um ou outro calor.
As pupilas dilatam versões incompletas
de um poema solto.
Poema órfão. 
Poeta de aluguel.
Criadores e criaturas engalfinham-se.
O poder está na mesa.
Podre e redundante.
Atraente.
Cheio de adjetivos e advérbios.
Metáforas. Metalinguagem. Metástase.
O ódio o ócio o led a tela a televisão.
O óvulo o avaro o medo a vulva a válvula.
Ovo.
No princípio era o fim.



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Poema rico



Mil duzentas e dezenove mentiras.
Setecentos e cinquenta e sete calores.
Vinte e sete milhões e cinquenta e nove mil estrelas,
contadas uma a uma.
Milhões de neurônios.
Bilhões de homens.
Incontáveis razões para não acreditar.
Meus dez dedos das mãos apontam o céu 
enquanto meus dez dedos dos pés pisam a Terra.
Planeta números.
Planeta vida.
Amarro uma fita de Nosso Senhor do Bonfim no pulso.
Pulsar.
Quase esbarro numa verdade.
Quasar.
Acendo uma vela de sete dias para São Jorge.
Outras para São Judas. São Francisco. São Bento.
Santa Bárbara. Nossa Senhora Aparecida. 
São João José da Cruz.
São quarenta e nove dias de luz.
Teresa de Calcutá e Bezerra de Menezes me valham.
Vivi dez anos em um ou dois.
Perdi as contas - nunca, a esperança.
Perdi o sono também.
Contei carneiros, perdi rebanhos.
Mas o Senhor é o meu pastor.
O poeta é um profeta.
Escrevi, revisei, corrigi.
O tempo vai e vem.
Arregimentei a fé onde menos se esperava.
Tirei leite de pedra. Litros e litros.
Juntei patuás e figas. Às pencas.
Terços, rosários, ladainhas rezei.
A Prece de Cáritas. O Salve Rainha.
Oremos. Oremus.
Ergui o olhar.
Vi Harael, arcanjo.
Respirei fundo.
O tesouro aberto.
Ouro, incenso, mirra.
Desde o nascimento do sol até o ocaso, 
o nome do Senhor seja louvado.
Carisma, nobreza, humor e valentia.
Um fio de sol denuncia.
É aurora. 
Obrigado, Pai, por mais um dia


terça-feira, 19 de novembro de 2013

hora pro nobis



espírito da noite
que me traz o frio
ladeia o meu leito
e deita ao meu lado,
faz do medo a medalha,
faz da morte a mortalha,
faz do fio o tricô das minhas tramas
-- teia indelével das minhas palavras
poesia? prosa? proclama?
a dúvida do estilo reclama
a indefinição iconoclasta 
de contra-regras e de cenógrafos:
ao largo, os falsos ídolos 
e os ídolos verdadeiros
debatem o preço do pão francês
enquanto a fome brasileira
brinda com sidra de maçã
a santa hora de honrar a novela das sete...
e a história se repete.
Espírito da noite que me traz o frio,
ladeia o meu leito e deita ao meu lado.

domingo, 17 de novembro de 2013

enquanto o amor dorme



enquanto meu amor dorme
a vida comove
enquanto meu amor dorme
o mundo se move
enquanto meu amor dorme
as crianças crescem
enquanto meu amor dorme
o silêncio prenuncia
enquanto meu amor dorme
as dores se esquecem
enquanto meu amor dorme
as alegrias anunciam
enquanto meu amor dorme
as luzes descansam
enquanto meu amor dorme
os sonhos acontecem
enquanto meu amor dorme
as palavras se escrevem
pois
enquanto meu amor dorme
o amor prevalece


lindo povo brasileiro



lindo povo brasileiro
de todas as faces
de todas as raças
de todas as roupas
de todas as cores
de todos cabelos
de todas as formas
de todos os risos
de todas as crenças
de todos os lados
de todos os ritos
de todos ofícios
de todas as manhas
de todas manhãs
de todas as tardes
de todas as noites
de todas as horas
de todos momentos
de todas as ruas
de todas estradas
de todos os cantos
de todos os santos
de todas as vilas
de todos os mares
de todos os rios
de todas as pontes
de todos os rumos
de todo futuro
de todo passado
de todo presente
de todos os tempos
de todas as peles
de todos os pelos
de todas as pedras
de todos caminhos
de todas as gemas
de todas as prosas
de toda poesia
de todos os nomes
de todos apelidos
de todo sobrenomes
de todas as artes
de todos os sons
de todos silêncios
de todas as danças
de todos os hinos
de todas as rimas
de todas famílias
de todas idades
de todos gêneros 
de todas cidades
de todos estados
lindo povo brasileiro
de toda esperança
de todos adultos
de todos os velhos
de todas crianças
de toda alegria
de todos os dias
de todo país