quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Viagem




Sonho.
A madrugada fervia e então esfria.
O suor corta o corpo em lágrimas lâminas linhas sinuosas.
Pinto minha cara de talcos e uso um capote negro
que vai se transformar em azul e depois furtacor.
Assusto sem susto as vizinhas do lado
que entram e saem pela porta virgem do mundo.
São bruxas lindas maviosas serenas afoitas alegres
maravilhosas que
enfeitiçam embelezam embebedam envaidecem
meu sonhar
e passam por mim, 
-- guardião da porta da casa da tia --,
uma a uma,a caminho da sobremesa irreal.
Entre elas escolho a mais magra
magríssima numa veste magra e musgo,
cabelos nem longos nem curtos, à Channel
que inda assim me dão um naco de nuca
um fio de pescoço para meu festivo beijo
 -- apesar de então meu delírio preferir escolher decidir
beliscar sua inexistente bunda ao passar
por mim e sem virar-se beijar-me pelo ar,
aéreo transporte teletransporte de toda sorte,
e prosseguir o desfile por mais quarenta ou cinquenta
centímetros de sonho,
quarenta cinquenta centímetros 
para eu retribuir o beijo e sacar 
que a noite continua
que a vida continua
que a festa continua
até que a dor nos desperte
a coluna torta sob o algodão suado
melado caramelado pesadelo
desta madrugada amanhecida de verão.
É hora. Desperto, levo a fantasia à padaria
e peço solitários dois pães uma média e um sonho.
Para viagem.


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