quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Bondes



Não há vaga esperança.
Vaga é onda. 
Onda é maré.
Maré é movimento.
Movimento é força. 
Força é fé.
Fé é esperança.
Há esperança.
Do tamanho de um bonde.
Até para quem nem tomou bonde.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Oz



nem a estrada de pedras amarelas
the yellow brick road
nem as bruxas dos pontos cardeais
witches
nem o homem de lata, nem o espantalho, nem o leão
men
nem o mágico
wizard
nem Oz
Oz
-- o meu caminho sem cor,
sem sonho
nem tradução...

domingo, 27 de outubro de 2013

Dias de noites



outros outubros
dias de noites
o sol machuca o olho
enfraquece a luz
vermelho poente de sangue pisado
a esperança e o medo bailam
um poema de plantão anuncia a lua
-- meia lua, como andam pela metade as certezas --
um poeta sofre em silêncio,
dor indivisível,
uma loucura que ninguém entende
e ninguém duvida.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Entradas e bandeiras



vazaram homens pelo ralo
da aventura
escorreram pelos bueiros
da ambição
desaguaram pelos rios
do desatino
infiltraram pelo barro
da criação e então
fizeram-se deuses entre os homens
e deuses romperam fronteira
e deuses decidiram mortes
e deuses pouparam vidas
e deuses seduziram homens
... até a esquina da insanidade.


Da hora que vem



De todas as horas
a hora que vem é a mais viva.
Traz o dia, traz a noite.
A hora que vem é a mais certa.
Faz das horas, instante.
A hora que vem é a mais reta.
Traz no rumo a hora incauta.
A hora que vem é a mais hora.
Agora e na hora da nossa morte.
Amém.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Paciência



Atenta-se contra o poeta.
Tenta-se calar a poesia.
Descartam-se valetes e reis.
Não há jogo.
Paciência.
Desmancham-se colunas.
Ás, dois, três, quatro... sete.
Ímpar. Pares.
Não dá jogo,
medo, nem prudência:
paciência.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

da morte e da vida



o sol se põe
e traz o medo
a perda
a dor
-- a morte é rápida e 
morrer não dói --
o frio
o vazio
o gosto ácido amargo áspero acre
na boca
no íntimo
na noite
interminável
que termina com o sol 
na luta para nascer
milímetro a milímetro do horizonte
para tingir de ocre os olhos duma coruja 
pousada num braço de cruz
a gritar intransigente na defesa do ninho
-- pode ser vida.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ruídos



Não é da noite o escuro que o faz escravo.
Não é da noite o frio que o torna gelo.
Não é da noite o medo que o faz arredio.
São noites tantas que tantas noites se consomem.
São insônias, são tremores, são tristezas enlatadas.
São ecos, são gritos, são apelos.
Só quem a noite engole escuta os ruídos da alma...

Legado



Mais dúvidas que dívidas.
Tantas horas perdidas.
Alguns amigos perdidos também.
Amores? Talvez.
Mais dores, de todas as formas,
forças, tipos e lembranças.
Poemas públicos e privados.
Três livros publicados.
Velhos volumes em perfeito estado de amarelidão.
Palavras que valem algo.
Heróis e covardes enfileirados.
Pecadores e pecados.
Personagens como eu.
As roupas fora de moda.
Palétos um pouco cansados e até um sapato furado.
Do que resta, resta o resto.
Meu grande legado: sonhos.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aromas



há aromas inconfundíveis
chá de hortelã fresca
dama-da-noite
terra molhada de chuva
pão quente
casca de mexerica
café coado
carro novo 
casa da avó
sabonete phebo
talco de bebê
teu perfume...

domingo, 13 de outubro de 2013

Poemática



ofício e labor e sina e vício
os olhos procuram o longe
-- amiga miopia, o quanto me vale  --
não há destino, não há rumores:
escrevo com os dedos em lágrimas
de loucuras de verdade de dores
traço melindres e invejas
rasgo rascunhos e abro potes de poesia
-- que as horas do dia se bastam --
e enquanto sonho, escarneço
e enquanto sofro, esqueço
e enquanto somos, estremeço
pois o plural é muito mais que alguns singulares
e a tarefa será sempre interminável...




sábado, 12 de outubro de 2013

Sortilégios




rezas mandingas e patuás
figa ferradura vela tambor
preta galinha uca charuto
saúva coruja banto urubu
santos demônios anjos serafins
entidades e divindades
preto velho e yalorixá
babalorixás padre filho
santo espírito
santo expedito
são judas tadeu
jeová jesus khrisna zeus 
odin vênus baco júpiter thor
phobos ares gita poseidon
ísis osíris seth aton amon rá
tomás agostinho francisco
assis jerusalém guadalupe karnak
são bento são josé são jorge
tereza dulce menininha beata
cristo kardec chico emmanuel
terço ladainha corrente oração 
oxalá xangô e todos orixás
saravá cosme e damião
legião e legionários
aleluia milagres e crendices
yahweh maomé deus meu pai 
do fundo do coração
nossa senhora aparecida
por nós rogai...


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Criança



Pirulitos me mordam!
Quem colocou gnomos na  maionese?
Imagino o mago Merlin a pular amarelinha.
Inferno
1
23
4
56
7
89
Céu 
Pirilampos e lanterninhas.
Tom & Jerry nas matinês.
Não gosto de sopa de feijão.
Brincar na praça.
Não quero cebola nem alho.
Correr no parque.
Não vou dormir cedo.
Viver no sonho.
Tem um paraquedas no meu quarto.
As nuvens da parede nunca chovem.
Carrinhos e monstrengos correm e concorrem.
Um segredo jamais revelado.
O afago da mão do pai.
O perfume doce da mãe.
Tempo de criança.


Balaio



são idéias, são visões
são dispersas e universais 
sonhos imagens fotogramas legendas
planos desejos esperanças citações
baguás perrengues colagens polainas
símbolos e peças sem encaixe
num quebra-cabeças imaginário
-- nem fuga, nem perspectiva --
colo feito velcro meu pesadelo ao travesseiro
conjugados suores e humores
amores tortos tortas linhas mal-traçadas
esmiúço a memória à procura do nada
nada ensaiado, nada combinado, nada previsto
nada, nada, nada...