terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Paulistânia IX




A nona sinfonia. 
Inacabada.
Cidade-Estado da angústia.
Acordes. Palavras. Tons.
Que dor pensar nas tuas lágrimas...
Que dor pensar nas tuas trilhas...
Meu espírito vaga.
Avenidas desertas de memórias e de homens. 
Avenidas abertas em raios.
Radiais.
Como sóis. Estrelas. 
Estelas. Dalvas. Vênus. Mírias.
Que a palmilha dos teus pés não se corte nos paralelepídedos.
Não toquem tuas mãos o alto dos arranha-céus mortos.
Araçá. Gethsemani. Lapa. Consolação.
Teus mortos sem tradução.
Teus mortos sem tradição.
Teus mortos sem traição.
Olhos que não veem.
Bocas que não falam.
Ouvidos moucos.
De que adiantam hinos cantigas odes fantasias noturnos à garoa?
As virgens das tuas grutas deságuam pelas tuas ladeiras.
Poemas. 
Um ou outro louco.
Uma caixa registradora.
Um passe de mágica.
Uma infância perdida.
Um ferro quente a ponta rubra o cheiro da carne.
Navalha.
Cidade-músculo.
O braço que abraça, carinha, sustenta: 
Dá-me o braço, amada.
Leva-me daqui para o teu sempre.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Paulistânia VIII




Minhas palavras não ecoam no Anhangabaú.
Minhas palavras não chegam ao Jaraguá.
Minhas palavras são sussurros paulistanos:
narram causos da cidade,
contam histórias de amor,
divertem os mais novos,
trazem lembranças, espanam pó.
Minhas palavras são gritos do Ipiranga
em busca de outra liberdade.
São palavras desmedidas, despretensiosas, descoladas.
Palavras cruzadas com outras palavras.
Palavras que atiçam, desafiam, aventuram-se
pela garoa sem medo de resfriado.
Minhas palavras desconhecem a covardia.
Inflam-se de determinação e têm atitude.
Minhas palavras, 
doces palavras,
palavras fortes,
paulistânias palavras.

Paulistânia VII




Onde começa a cidade?
Na Sé? Na periferia? 
Nas avenidas gêmeas?
(tão diferentes, tão iguais)
Onde a esperança espera o bonde?
Onde as palavras grafitam poesia?
Onde nasci, onde vivi, onde morri?
Onde começa a cidade?
Nas oxítonas ruas de Cerqueira César ou
nas ruas indígenas de uma Moema cinza?
Onde começa a cidade?
No vão do Masp, onde esperei Godot?
Ou nas escadarias do Municipal, onde ele nunca esteve?
No Bixiga, onde Adoniram me veio em sonho
ou nos sonhos com o cemitério no Morumbi?
Onde começa a cidade?
No coração humilde da servente da escola?
Na fila dos aposentados?
Na xepa da feira de quarta-feira?
Onde começa a cidade?
Na resposta ambígua quando me perguntam
se sou feliz?
Ou na verdade que alimenta o poema perdido, escrito na contra-mão da eternidade...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Paulistânia VI




Fecho os olhos e escuto a cidade.
A imagem sonora. Imaginária.
Sirene chuva buzina poça automóvel.
O fator humano -- alguém sopra ao meu ouvido --
diluído.
Um rio? Um mar? Uma queda d'água?
Uma fonte? Uma grelha? Uma sarjeta.
No silêncio da nossa morte,
uma flor branca e um tarja preta.
Quem abriu o portão de ferro?
Quem deixou passar a vida entre as grades?
Quem rompeu as amarras?
(Fui morar na Barra Funda,
na Barra Funda aprendi
que a Liberdade é mais acima)
Ouço a música da cidade
e vozes gregorianas cantam uma história sem fim.
A liberdade é mais acima...


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Paulistânia V





É mulher essa cidade.
Metrópole de olhos castanhos.
Correta nas suas curvas,
nos seus montes,
altos e baixos.
Sensual -- mas, sobretudo, sedutora.
Um pudor limítrofe. 
Vergonhas na corda-bamba.
Um bolero, uma guarânia, um samba-canção.
Noite de festa, madrugada aberta.
Garoa destilada a embriagar de prazer.
Sabores perfumes carinhos palavras fotogramas.
A cidade e seus sentidos.
Fêmea de tantos bairros, de tantos retiros,
de redutos e de regaços.
As vestes, retalhos no chão, celebração, rosa-dos-ventos.
Se fosse rascunho essa São Paulo seria a musa
improvável de um poema marginal.
De tão real, a cidade sorri malícias e confessa pecados.
Nenhuma omissão. 
Nenhuma covardia. 
Nenhuma deserção.
Atos de amor.
Atos de amor...


domingo, 20 de janeiro de 2013

Paulistânia IV




Por favor, tirem esse trem da minh'alma:
os trilhos do progresso enferrujaram.
Guardem seus tacapes, tupis.
Que a televisão vem aí.
Aviões descambam Congonhas.
Helicópteros de Marte.
Risos, do Theatro Municipal.
Um cenário de luxo.
Praticáveis de ouro da praça da Sé.
Quintais recheados de segredos.
Boléias de caminhão. Vagões da periferia.
Tenha fé: nenhum aventureiro levará
um fiapo de tuas vestes, meu São Paulo de Piratininga.
O medo foi-se embora para outro plano.
Finda a cena. Cai o pano.




sábado, 19 de janeiro de 2013

Paulistânia III




Paralelepípedos vestem a rua de cinza
e a chuva rega o piso com efêmeros brilhos.
Nos meios-fios a correnteza acontece.
Águas de janeiro, fevereiro e março.
Águas de sempre. Mágoas de caboclo.
De caipira, de caipora, de matuto, de jeca.
De afros, de bantos, de libertos, de iorubás.
De índios, de mamelucos, de misturas finas.
Mágoas sem preconceitos.
Águas de todas correntes.
Anchieta, onde o mar levou teus versos?
Pelos caminhos do rio que encontra a praia?
Das areias, da ampulheta, do cimento ou da serra?
Do lar ou da lide de Joana. Enfermeiras como Ana.
Marceneiros feito José. Torneiros como tantos.
Ferramenteiros tal qual Santos. Santos como Paulo.
Soldados e cafetinas. Motorneiros ou motoristas.
Eletricistas. Fugitivos. Dentistas. Ajudantes gerais.
Jesuítas. Bandeirantes. Poetas. Paulistas.
Salada mistura bonde lotado de gente estátua vida.
Não sei exatamente onde o poema nasceu,
dizem que foi em São Paulo.
Quem sabe...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Paulistânia II




Respiro fundo a minha cocaína
-- a fuligem da atmosfera paulistana --
e alimento meu ego com o destino
coalhado de frios e calores;
tremores alcançam meu centro nervoso
ótico caótico catódico católico acólito;
aceno para o nada com a esperança
de um eco responder:
nada...
Eu nunca fui a Paris nem conheci Amsterdã
mas escrevi dores universais.
A fuligem chega ao cérebro feito confete.
Uma festa à impunidade.
Todo pecado será perdoado.
São Paulo, meu amor.




quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Paulistânia




Olhos voltados para São Paulo.
Tem uma cidade que me amou.
Vejo a transformação nas calçadas.
Nas ruas de nomes tão próprios.
No cheiro azedo de domingo.
No pet shop que brotou onde era um bingo.
Na volta ao quarteirão.
Na subida da Consolação.
Grafites denunciam quase arte.
Cinza por toda parte.
Anchieta na parede, São Judas Tadeu no metrô.
Tubaína retrô para saciar minha sede de saudade.
De Liberdade. Saúde. Conceição. Barra Funda.
De tantas luas. De tantas lutas.
Imbecis turvam as águas plácidas do Ipiranga.
Imbecis traem o meu amor pela cidade.
Imbecis tentam apagar a memória da ladeira.
Eu gargalho da incompetência imbecil.
Essa é a minha luta. 
Da minha maneira. Meu amor juvenil.
Os imbecis? Vão à puta que os pariu...
Parabéns, São Paulo de Piratininga.
Parabéns, minha cidade.
É a parte linda da minha vida.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pêndulo




sim não
certo errado
devo ou não
faço não faço
vou fico
livre laço
sorte azar
pago passo
vai vem
vida morte
começo fim

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

tanta dor




noite, dor
dia, dor
dores minhas
dos outros
(e procuro com os olhos
e procuro com a alma
a linha imaginária da verdade,
analgésico de tanto sofrer)
dia, dor
noite, dor
dores minhas,
dores tão minhas...
(e procuro com a vida
e procuro com a morte
a tangente esperança,
bálsamo do suportar)
dores,
tão dores
que nem delas abro mão
com medo de perdê-las...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

da simplicidade




cantar de pássaros 
chuva no fim da tarde
jabuticabas abraçadas ao tronco
abacate caindo de maduro
caminhar na sombra
sorrisos sussurros sementes
pão quente a toda hora
carona de amigo
bife com batatas fritas
bom humor
água fresca
roda gigante
entardecer na praia
beijo na boca
cinema cinema cinema
bilhete de amor
curativo no joelho
festa de aniversário
carinho de mãe
espirro arrepio soluço
sorvete de limão
cheiro de alfazema
fotografias de família
fim de semana de sol
música música música
pergunta de criança
presente de namorada
recado na porta da geladeira
flor do campo em ramas
passar a noite entre amigos
ver o sol nascer na rua
e então...
dormir na santa paz do poema escrito.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Anjo




procura-se um anjo
para cinco de janeiro
um anjo que tenha 
a simplicidade de uma colcha de retalhos
um anjo que seja
de caráter forte como rochedos 
um anjo que venha
com a humildade de pés descalços
um anjo que traga
nos braços a tatuagem das virtudes
um anjo que toque
a música exótica do Oriente
um anjo que ensine
as lições que preciso aprender

procura-se um anjo que faça humanidade
da massa crua e ázima que se imagina gente...



sábado, 5 de janeiro de 2013

Ludus




Desenho personagens, crio brinquedos, 
Trilho tabuleiros, traço trilhas,
Invento jogos, formulo regras,
e armadilhas e dinâmicas e ludos.
E poemas.
Alinho palavras, alinhavo conceitos.
Misturo letras como quebra-cabeças.
A primeira pessoa do singular.
O criador.
No plural, as criaturas.
Filhotes. Rebentos. Crias.
Planetas. Estrelas. Luas.
Escritos. Rascunhos. Laudas.
No princípio era o vácuo.
Depois veio o som.
Nasceu música. 
No princípio era o Verbo.
Depois veio o verso.
Nasceu poesia. 
Pedido. Vontade. Desejo. Apelo.
O rito. O roteiro. A rima.
O milagre. A falta. O labor.
Filhos da Terra, cantai.
O joio. O trigo. O jugo. A luta.
A liberdade sílaba a sílaba.
O alimento naco a naco.
A cilada. A queda. A odisséia.
Mortos. Por todas as casas.
Muros. Arrimos. Quedas.
Paredes. Móbiles. Sepulcros.
Uma fenda aberta a faca:
Cegueira. Surdez. Mudez.
Nudez.
O rei está nu. 
O rei caiu. 
O rei morto.
O rei posto.

Na imperfeição, no erro, na falha
geodésica do caráter humano,
o jogo tem que continuar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Viagem




Sonho.
A madrugada fervia e então esfria.
O suor corta o corpo em lágrimas lâminas linhas sinuosas.
Pinto minha cara de talcos e uso um capote negro
que vai se transformar em azul e depois furtacor.
Assusto sem susto as vizinhas do lado
que entram e saem pela porta virgem do mundo.
São bruxas lindas maviosas serenas afoitas alegres
maravilhosas que
enfeitiçam embelezam embebedam envaidecem
meu sonhar
e passam por mim, 
-- guardião da porta da casa da tia --,
uma a uma,a caminho da sobremesa irreal.
Entre elas escolho a mais magra
magríssima numa veste magra e musgo,
cabelos nem longos nem curtos, à Channel
que inda assim me dão um naco de nuca
um fio de pescoço para meu festivo beijo
 -- apesar de então meu delírio preferir escolher decidir
beliscar sua inexistente bunda ao passar
por mim e sem virar-se beijar-me pelo ar,
aéreo transporte teletransporte de toda sorte,
e prosseguir o desfile por mais quarenta ou cinquenta
centímetros de sonho,
quarenta cinquenta centímetros 
para eu retribuir o beijo e sacar 
que a noite continua
que a vida continua
que a festa continua
até que a dor nos desperte
a coluna torta sob o algodão suado
melado caramelado pesadelo
desta madrugada amanhecida de verão.
É hora. Desperto, levo a fantasia à padaria
e peço solitários dois pães uma média e um sonho.
Para viagem.