sábado, 30 de março de 2013

Séculos






Vivo intenso e não morro cedo.
Palavras me contam a vida.
Verdades e outras versões.
Perpétuos socorros.
Eram deuses, eram homens.
Mulheres.
Eram instantes, eram horas.
Séculos.
Eram acertos, eram erros.
Atitudes. 
Eram amores, era ódio.
Prazeres.
Eram paixões para a vida inteira.
E no quintal da memória mora um pé de sombra...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Boom.




A madrugada traz rostos sem véus, 
pudores sem sedas, 
nudez sem rendas.
Transparece o desejo.
Bocas e fantasmas se beijam.
Línguas se falam.
Se.
Houvesse lua seria louca.
Houvesse voz seria rouca.
Se.
Na entrelinha do pecado mora o riso.
Escárnio, deboche.
Mato a fome aos brioches.
Jorro poesia como um bang.
Estelar e vivo.
Nativo desta terrra sem nunca
ter viajado.
Gozo um poema destemido.
Sem prurido.
Central.
Oral.
Se.




quinta-feira, 21 de março de 2013

o tempo e o vento





doze são os meses do ano
e as gotas de veneno que pingo na garganta
do tempo
tempo é a abstração da vida
e a areia que escorre na ampulheta
da certeza

e entre os doze meses do ano
e o tempo abstrato
resistem heróis, covardes e apaixonados

terça-feira, 19 de março de 2013

intestinos




eu tenho muitas coisas por dentro
eu tenho tantas coisas por dentro
que por muitas vezes me surpreendo
com as coisas que descubro de dentro
de mim
são peças e construções
são sistemas e órgãos
são emoções e cismas
são tantas coisas que tenho por dentro
que de dentro eu sei que não me conheço
sou surpresa
sou descoberta
sou mistério
sou as coisas que tenho por dentro
e de dentro sou eu mesmo que vejo
e desse intestino ponto de vista
e desse sensível ponto de observação
e desse imprevisível ponto de interrogação
eu me pergunto o que tenho por dentro
que de dentro eu me entranho para fora...



sábado, 16 de março de 2013

haikai matinal





no campo sem futebol
sombras esguias
brincam e driblam o sol

sexta-feira, 15 de março de 2013

O querer




O querer pode ser da forma que quiser
...
o querer pode ser sincero
e ao mesmo tempo imponderado
sutil e democrático
verdadeiro e sedutor 
-- seja da forma que for
...
o querer pode ser inteiro
e ao mesmo tempo íntegro
nu e desnudado
livre e cativo
-- seja por qual motivo 
...
o querer pode ser sintoma
e ao mesmo tempo doença
desejo e vontade
suave e intenso 
-- seja da forma que penso
...
O querer pode ser da forma que quiser
-- e até mesmo o não querer.




O fruto geral




se é querer demais te querer
quis a cidade inteira ter você
inteira e toda
de todas as formas
a população a desejar
o desejo coletivo
em forma enfileirado
em posição de sentido
sentimento e desfrute
o pomo proibido
o fruto geral
na esquina do mundo
amadurecido e terminal.


quarta-feira, 13 de março de 2013

retrato




teu mistério é sépia
teu passado monocor
tuas sombras e tons
tua escuridão e tua moldura
teu quadro é pobre e
tua pobreza é quadrada
tua alma é fluida
teu caráter é gasoso
tua imagem é opaca
e tua mão treme
e tua voz vacila
e tua paz esvai em sépia, como 
teu mistério desvelado.



terça-feira, 12 de março de 2013

castanhos




amanhã vou trabalhar de sapatos novos
sem marcas na sola
nem riscos na carenagem
amanhã calçarei meu novos sapatos
e caminharei para o trabalho orgulhoso
dos meus sapatos castanhos
dos meus sapatos novos
dos meus sapatos brilhosos
dos meus sapatos quadrados
dos meus sapatos alados

amanhã voarei de sapatos novos...

encíclica





a escalada
a morte
a ronda
em volta da fogueira vive o breu,
a flama projeta minúsculos milagres
na parede do Paraíso:
além do tudo, o nada
a ronda
a morte
a escalada

domingo, 10 de março de 2013

humanidade





a mão que se estende
a palavra que ensina
o gesto que apoia
o pão que se divide
a verdade que se propala
a idade que exemplifica
o dia-a-dia que trabalha
o verbo que não se omite
a luz que se multiplica
a janela que se abre
o medo que se afasta
o sorriso que se oferece
a porta que se indica
a humildade que se guarda
humanidades.


sexta-feira, 8 de março de 2013





o que a fome chama insaciável
faz do desejo, casulo
cresce, transforma
voa arredia -- 
feito fantasia --
e se confunde com as nuvens
assume formas mágicas
e brinca dar mais vida
ao firmamento...
-- o que a fome chama insaciável
a sede entorna momento.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Pedra de luz




pedra de luz
clara e fria, bela
farol olhar brilho
pungente
pingente lágrima
coração
perda falta aflição
tão vago o luto
tão vazio
inóspito cruel uterino
tão vazia
íntima dorida pontiaguda
coberta de escaras
escarlatina da alma
piedade piedade nas ladeiras
o chão o piso o calçamento
pétreo: a queda.

e da base brota a fenda radiante
pedra de luz
clara e fria e bela...


águas de março





incolor, inodora, insípida
indolor: tão normal
a saudade,
que o fim é meio
de transporte de mágoas

todo o resto é cascata...