terça-feira, 23 de abril de 2013

São Jorge dos Jorges.







Salve, Jorge.
Salve, São Jorge.
São Jorge dos Jorges.
São Jorge da Capadócia,
da Barra Funda, da Asa Norte,
da Pompéia, da Lua, do Céu e 
da Terra.
São Jorge Guerreiro.
São Jorge ferreiro, artista, dentista,
professor, doutor e peão, 
poeta e arqueólogo.
São Jorge de além-mar.
São Jorge de lança em punho.
São Jorge de matar dragão
-- como tantos brasileirinhos,
como tantas brasileirinhas...
São Jorge de dia santo, 
São Jorge de dia inteiro.
São Jorge de todos os dias,
semanas, meses.
São Jorge de Fé.
São Jorge de força.
Salve, meu santo.
Salve, Jorge.
Salve, São Jorge.
São Jorge dos Jorges.
Deste Jorge, São Jorge.
Salve. Salve.


Desenhos





Na topografia do seu corpo
A altimetria insinua seus altos e baixos
A assimetria distribui seus dotes
A calorimetria desnuda seu fervor
O mapa colorido que a sua pele porta
Aberta e descoberta sua mudez
 Não traçam linhas tracejadas
As suas curvas
Mas extrapolam letais a rosa
Dos ventos de seus pontos cardeais.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

desvios





rotas e rotinas
desvios e desvãos
espaços abertos que ensinam trilhas
aprendi com meus caminhos
ensinei minhas filhas
jornadas de morte e vida
verdades, mentiras
velhos hábitos, virtudes, 
vícios, costumes
-- o costume é uma roupa
e o amor, uma pele --
e nos desvios das artérias
a vida imita a arte gráfica
nas mais frias constatações:
enquanto as estrelas se escondem
nuvens
os desvios humanos proliferam...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pudores




Como sombra percorro a luz
Jogo sobre você minha escuridão
Torno retorno em torno do breu
-- não é você, sou eu --
Sou fluido ocupo espaços invado formas
preencho os vazios atrás dos seus olhos
e te invado pródigo e promíscuo
pelos seus poros perfumados
pela impureza da sua presença
pela podridão parida da sua palavra
pela perda total do seu pudor.




quarta-feira, 17 de abril de 2013

Paralisia




Não penso.
Não posso.
Não passo.

O curativo cobre o corte e sela a cicatriz:
o que os olhos não veem o coração não mente.

Estanco. O sangue,
o gozo,
o movimento,
o fio da meada.

Não penso.
Não posso.
Não passo.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Batom




estatura
-- a referência da profundidade
que a tua memória ilude --
a tua altura
-- não há sorriso, não há matéria,
não há sonho --
atitude
-- um ideograma grafado na pele
a marca da morte --
todo o mais é batom rabiscado no espelho 
que um pano qualquer limpa...

Cantigas





Não é o rock que absolve
Nem é o samba que explica
Os acordes em desperdício
Os semitons em vícios
A insanidade da melodia
A irreverência da noite
A monotonia do dia
Uma insensatez pela madrugada
Uma unidade medida
Uma cerveja uma talagada
de cachaça
Enquanto passa pela moviola
a sequência final:
nem todo colírio do mundo
cura a cegueira do amor.
Daí épico, daí cínico, daí falso
como uma paixão de estante:
tira do monte o livro certo
que teus poemas são espertos
o suficiente para serem eternos.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Cigarra




embarquei pela porta da frente
de uma nau de uma hipótese
e quando cheguei à Lua
lá encontro hasteadas
bandeiras mais firmes que minhas pernas
São Jorge vitorioso
e um dragão carente
...
no espaço da liberdade
uma libélula viaja
à toa, à toa
comovida
como a vida
com a vida
de uns tantos poetas


provocações




três xícaras de café,
duas fatias de queijo,
uma noite mal dormida
e alguns delírios indecentes:
retratos lembranças epopéias e virgens
queijos vinhos fumos e mulheres
long-playings cantigas danças e divas
poesias brinquedos jogos e paixões
espasmos estrias histórias e estrelas
o ministério da saudade adverte:
excesso de cafeína provoca a vida.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Meus erros meus desejos




Meus erros meus desejos se encontram em você. 
Quando você surge me desnudo. 
Quando você some desengano. 
Quando você vive me engano. 
Quando você vai me vou.
Quando você vem me perco.
Quando você some me encolho.
Quando você surge escolho.
Quando você fala nem preciso.
Quando você cala rasuro.
Quando você chama me queimo.
Quando você fogo, chama.
Quando voce água, sede.
Quando você terra, raiz.
Quando você ar, decolo.
Quando você leite me colo.
Quando você colo me acabo.
Meus desejos meus erros encontram você.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Digitais




Nasci analógico.
Cresci analógico.
Amadureci analógico.
Agora sou digital.
Por bem, ou por mal.
Ainda uso relógio com ponteiros.
De dar corda ao tempo.
Ainda escrevo bilhetes, recados, rascunhos.
Ainda rabisco poesia em guardanapos.
Ainda tenho a máquina de escrever que veio com meu avô fugido do nazismo.
Ainda guardo umas folhas de papel carbono.
Ainda tenho centenas de fotografias em papel mate.
Algumas em papel brilhante, 
que revelam sutil e descuidadamente as minhas digitais...
Ainda sonho analógico.
E, é lógico, ainda choro lágrimas reais.
Que as virtuais não têm gosto de sal.




segunda-feira, 1 de abril de 2013

Do simples




Da simplicidade do simples
O menor é maior
Da humildade do puro
O aprendiz é sábio
Da qualidade e da atitude
Singular é plural
Da pluralidade do olhar
Olhos são visões
Da verdade e da certeza
Errar é certo
Da distância do objeto
Longe é perto
Da suavidade do intenso
Intensa é suave
Da intensidade do suave
Suave é intenso


Esquinas




Teus credos não creem os meus
E por isso
Teus medos não medem os meus
E assim
Tuas rimas não rimam as minhas
Pois
Teus imãs não imaginam os meus
Então
Tuas vidas não vivem as minhas
Enquanto
Tuas cruzes não cruzam as minhas


Luares




Lua de quatro fases
Faces lunares
Vida de todos luares