domingo, 30 de junho de 2013

Sinais




Não mando flores, mas sinais.
Nem perfumes ou chocolate. Desejos.
Abro mão da burocracia falaz do eu te amo.
Fica comigo.
Lua, sol, tudo igual.
Dia e noite. Encontro.
Sonho, presença.
É quando descubro a impossibilidade de viver só.
Encantamento. Emoção. Encarnações.
Vidas.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

vitral



minhas estrelas
sem pontas
nem brilhos
nem estrelas são
constelação de nadas
plêiade de vazios
nem luz própria
nem a própria luz
minhas estrelas 
sem pontas
sem brilhos
sem vida
sem cor


circular



o tormento que minh'alma embaça
não chama vida,
que a vida passa
o tormento que minh'alma persegue
não chama vida,
que a vida segue
o tormento que minh'alma turva
não chama vida
que a vida curva


haikai insone



Raja o vácuo 
feito vento
noite adentro

segunda-feira, 24 de junho de 2013

balas perdidas



zune rente ao ouvido uma verdade
dor de gente grande
projétil que transpassa meus sonhos
feito bala perdida

brada o choro a sombra a meia-luz
com discreto pesar
a lua irrompe o negro toldo e mata
feito bala perdida

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Das pedras perdidas



Quando a pedra parte
parte parte da vidraça
parte parte da dignidade
em mil cacos e nenhuma razão...

Depredam minh'alma
depredram as convicções
escudos tapumes estilingues
nem brinquedos e nenhuma razão...

Cometas juninos e sem santos
Dias de estrelas cadentes
Carentes de brilhos
de filhos e nenhuma razão...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Das alamedas




Caminho pela alameda
ensolarada
Por duas filas de árvores
ladeada
Com seus brilhos e sortes
ensejada
Com suas sombras e mortes
destinada

Caminho pela alameda
e me perco em divagações


terça-feira, 18 de junho de 2013

da alegria triste



minha alegria anda triste
meu riso, sem graça
meu sorriso, amarelo
meus olhos andam mais míopes do que nunca
-- tal qual meu coração.

meu metabolismo tem-se mostrado irregular
meu fígado, insensível
meu apêndice, relutante
meu estômago, estomagado 
-- comigo, comigo.

minhas soluções tão sem problemas
andam raras e ralas
sem pesar na balança, nem passar na peneira
das minhas decisões
-- tão indecisas quanto eu.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Todo amor



Todo amor é inteiro
Todo amor é estranho
Todo amor é de dentro
Todo amor estrangeiro
Todo amor intestino
Todo amor investido
Todo amor tem destino
Todo amor bem amado
Todo amor bem vivido
Todo amor da retina
Todo amor cristalino
Todo amor tem verdade
Todo amor de verdade
Todo amor é de perto
Todo amor vem de longe
Todo amor é incerto
Todo amor é arteiro
Todo amor tem mentira
Todo amor é entrada
Todo amor tem saída
Todo amor tem parada
Todo amor tem seu dia
Todo amor é poesia

sábado, 15 de junho de 2013

Da habilidade com as mãos



Datilografo o tempo, carinho analógico
cafuné na memória.
Meticulosamente desenho garatujas
engraçadinhas.
Mais que imagens, mais que palavras.
Traço círculos dentro de círculos
dentro de círculos.
Inauguro o tempo outro.
Justo preciso micróbio e anônimo.
Manipulo o desejo com maestria,
elegia à cegueira, choro sem luz.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Da invenção do outro



Eu gosto de você
Eu gosto muito de você
Eu gosto tanto, muito de você
Que
Machuco magoo maculo marco
e destruo
aquilo que você tem de mais lindo:
a pureza de não existir.



Zero



tomaram-lhe a razão
e a falta
tomaram-lhe o dia
e as horas
tomaram-lhe o digno
e o indigno
tomaram-lhe a pressão
e o zero
tomaram-lhe o zelo
e o descuido
tomaram-lhe vida
e o que lhe restou tentar...


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Primeiro ato




Fácil. Tanto que palpável.
Palco. Dimensão do drama.
Forca. Gravata de seda pura.
Plateia. Olhos dispersos.
Faca. Tal qual navalha.
Plano. Horizonte desenhado.
Fim. Epílogo ou epígrafe.
Palmas. A hora da estrela.



Dos ares



Lágrima mais pesada que o ar,
pranto aéreo.
Levitar inevitável.
Um dia te prendo no olho sem razão
e vou brincar com aviões de papel
no quintal que não mais existe.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Santa Poesia



Santa Poesia dos enamorados
Santa Poesia dos desesperados
Santa Poesia milagrosa
Santa Poesia dadivosa
Santa Poesia padroeira das causas escritas
Santa Poesia de Parnaso
Santa Poesia dos guardanapos
Santa Poesia dos hermeneutas
Santa Poesia dos incompletos
Santa Poesia das rimas pobres
Santa Poesia das primadonas
Santa Poesia dos satiristas
Santa Poesia dos haikais cirúrgicos
Santa Poesia dos sonetos clínicos
Santa Poesia dos poemas épicos
Santa Poesia dos líricos
Santa Poesia dos cínicos
Santa Poesia dos lunáticos
Valei-nos.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

do contraste



do vento
do frio
do gelo
do corte jorra o sangue
mistura de vida e morte

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Das lições (para Mariza Schiochet)


Das lições

(para Mariza Schiochet)


Vida para viver
Aprender aprender apender
Lição por lição:
O dia da caça é o dia do caçador

Mudar, viver
Meus modos minhas mãos
Meu medo minha mudança
Não é um poema que apaga o medo
Antes tarde do que cedo

Planar, viver
Meus planos meus planos meus planos
Panos quentes sobre eles
E o vapor embala o balão num voo solo
Do sonho ao real

Tocar, viver
O gado a música o tato a letra
Nos livros a versão mais pura
Aprender ensinar aprender
Todas as letras

Ensinar, viver
Ensina-me assim a ser
Mestra das mestras
Ensina-me a ser eu mesmo
Ensina-me a aprender
 


quarta-feira, 5 de junho de 2013

das pedras




a pedra da história
a pedra lascada
a pedra polida
a pedra jogada
a pedra doída
a pedra encravada
a pedra perdida
a pedra lapidada
a pedra nos rins
a pedrada...

haikai duro



dois passos no escuro
e um nariz quebrado
de encontro no muro