quarta-feira, 28 de agosto de 2013

do medo da morte



Sim, eu tenho medo da morte.
Mas, não da morte súbita.
Toda morte é súbita.
Mas, não da morte dorida.
Toda morte é indolor.
Mas, não da morte dolente.
Toda morte é ímpar.
Sim, eu tenho medo da morte.
Da morte medíocre.
Da morte artificial.
Da morte impune e desregrada.
Sim, eu tenho medo da morte.
Da morte do real.
Da morte da razão.
Da morte do riso.
Sim, eu tenho medo da morte.
Da morte substantiva.
Da morte subversiva.
Da morte subserviente.
Sim, eu tenho medo da morte.
Da morte automática.
Da morte autocrática.
Da morte autodidata.
Sim, eu tenho medo da morte.
Dessa morte que me mantém vivo.
Sem direito a habeas corpus.

domingo, 18 de agosto de 2013

da lanterna



do mar do sol da luz do brilho do caminho
sabe a lanterna
da história do dia da noite da fantasia do real
sabe a lanterna
do fundo do raso do largo da rocha do medo
sabe a lanterna
do simples do complicado do singular do plural
sabe a lanterna
da mesa da sobremesa da surpresa da rotina
sabe a lanterna
da retina do beijo da faca do queijo do clima
sabe a lanterna
do riso do risco do rito da rima do rio dos rins
sabe a lanterna
do fim da rua da rota da volta da ida
sabe e brilha eterna
a lanterna...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Deslizes



ouro prata alma pura lata
palavras-tatuagens
corpo casca ovo craca crosta
imagens-cicatrizes
meus poemas eram cruzes
hoje são deslizes

Dezenove gotas



dezenove gotas de adoçante separam a mágoa do ódio
são dezenove gotas, do tamanho de lágrimas, 
artificiais e transparentes como o plástico da embalagem...
e assim são as aflições, a impunidade, o desengano
e assim são a fragilidade, a rejeição, o desenredo
e assim se criam o egoísmo, o desprezo, o medo
e assim se destilam dezenove gotas de adoçante,
o sabor doce da ilusão travestida em verdade.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

simplicidades



da insônia aprendi paciências
da humilhação tirei lições
da mentira busquei verdades
da vida reparti mortes
da arrogância colhi risos
da estultícia brinquei peças
da esperteza evitei crias
da opulência criei cascas
da saudade sofri medos
da simplicidade rompi ritos
e fui tomar sol no parque...


dos riscos



onde estão as pedras do dominó?
embaralha-me a visão
onde a minha trinca encontra a tua?
jogos de amor e de guerra
onde as minas foram escondidas?
e jogos da verdade jogados de mentira
onde foram parar meus chinelos?

certas coisas



não ouço, não vejo, não falo
nem penso
as pequenas coisas pequenas
que se acumulam no existir
-- como a cicatriz que nunca cicatriza ou
a unha encravada a sangrar orgulho
no rodapé do sentimento.

como são frágeis as certezas
como são certas as fragilidades

haikai tosco


as luzes dos seus cabelos
ofuscam o brilho
fosco e fátuo dos seus olhos


terça-feira, 6 de agosto de 2013

dos desencontros



para lá, para cá
para onde vou?
Pasárgada? Nirvana?
para um lugar ao sol?
para lugar nenhum ou 
para o Vale do Silício?
para o cilício?
para as Índias Ocidentais?
para o Oriente, 
para trás, para a frente...
para fora, para dentro...

com uma bússola no lugar do coração
eu vou
ao encontro dos meus desencontros.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

tem dias



tem dias que não começam.
tem dias que não terminam.
tem dias que não existem.
tem dias que não cabem no calendário.
tem dias que as regras não valem.
tem dias que às cegas não vemos.
tem dias que não permitem.
tem dias que não são de verdade.
tem dias de mentira.
tem dias de luta.
tem dias de luto.
tem dias de plantio e de colheita.
tem dias de mala mal feita.
tem dias que não são fáceis.
tem dias que não são dias.