domingo, 29 de setembro de 2013

Primavera no Cerrado



Parecem almas
ou corpos despindo-se

Vida e morte aos laços
trançados destinos

Nas cascas dos bichos
das árvores e dos homens



sábado, 28 de setembro de 2013

setembro



setembro passou ligeiro
setembro passou rasteiro
pelas flores plantadas no gramado
pelas dores ensaiadas
setembro passou faceiro
setembro passou inteiro
pelas dobras do livro na cabeceira
pelas sombras de agosto
setembro passou setembro
tão setembro que quase outubro.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

visões (três haikais)




na sarjeta, indiferente
agoniza um sonho
sem agravo infringente

***

aos ventos
voavam poeiras e
lamentos

***

primavera com ciclone
sem dia, nem hora,
nem telefone...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Menina



A poesia,
essa menina rebelde,
modernizou-se:
saiu do papel e ganhou asa eletrônica,
dispensa acentos,
abrevia palavras,
joga fora vogais,
e está aberta a um mundo
novo, admirável,
menos sólido,
menos concreto,
menos práxis,
menos tudo...
E enquanto economiza árvores,
essa poesia menina
fuma menos (bebe mais)
e escala cordilheiras,
brinca com seriedade e
torna sua lucidez prima-irmã 
da ludicidade.
Precoce.
Abre a janela e ri de tudo.
De si mesma.
Do presente, do passado, do futuro.
Depois volta para o casulo e 
espera a hora de nascer.



recados




amor, chegarei tarde.
não esqueça de pagar o aluguel.
aniversário do Gabriel.
comprar chocolate em pó para o pavê.
tem suco na geladeira.
ligue para sua mãe.
amor, fui.


sábado, 21 de setembro de 2013

rapina



como se o hoje fosse último
não protesto em vão
faço da verdade, grito de libertação




se eu morrer hoje,
tenham certeza: vivi. 

se eu morrer hoje,
poupem-me de necrológios.

se eu morrer hoje,
apontem meus defeitos.

se eu morrer hoje,
não foi apenas a conexão que falhou.

se eu morrer hoje,
que linda primavera teremos.

se eu morrer hoje,
minha consciência me levará ligeira ao céu.

se eu morrer hoje,
perdoem minhas ofensas.

se eu morrer hoje,
nem tentem entender as minhas razões.

se eu morrer hoje,
façam uma piada como "game over"...
(ou, como dizia meu pai, "ele merece, ele merece...")

se eu morrer hoje,
amanhã será apenas domingo.

se eu morrer hoje,
levarei comigo qualquer ingratidão.

se eu morrer hoje,
rifem as minhas máquinas de escrever.

se eu morrer hoje,
encerrem meu blog.

se eu morrer hoje,
amanhã estarei alerta.

se eu morrer hoje,
morro feliz... morro numa oração e num poema mal ajambrado -- mas, sempre, um poema.

se eu morrer hoje,
morro poeta.

e ainda assim, se a Morte se distrair
e eu não morrer hoje...
a morte do dia estará garantida
e eu vou dormir realizado,
poeta e homem.


elas por elas


a nudez do caráter
-- de paris a marrakech --
a geografia desconsidera a razão
-- da áfrica à oceania --
arqueologia do ego
-- das ilhas gregas lotadas de monstros e deuses --
a mudez do meu caráter
a dor que assumo
a dor que resumo dor
brilho fosco
vinho branco
cálice sem milagre
-- das lições de prazer à independência (ou morte?) --
uma toalha suada de sangue
um santo pendurado na parede
um vazio por dentro
uma borboleta vai
e eu vou,
como um poema,
louco e nu...



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

olho mágico


_ Vai chover - disse o olho do profeta.
E chove.
Brincam as gotas de ciranda.
Lágrimas sem disfarces.
Entre júbilo e cheiro de terra,
contrastes.
O anel que tu me destes.
A fotografia em branco e preto.
Transgênicos. Insensatos. Mascarados.
O baile da mesa solidão.
A água escorre em veios de plástico.
Água em vinho em sangue em plasma.
Descuidos em série destilam bílis.
Por onde anda a verdade?
O olho mágico do profeta sentencia:
Vai chover.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

dementes



são sementes de flores tortas
flores natimortas
sem cor nem perfume
sementes de frutos secos
aflitos
dementes
semeadura iletrada
sem pureza
sem poesia
sem perdão


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

das ruas



a poesia da ruas
não é minha
nem sua

a poesia das ruas
não tem copyright
nem plágio

a poesia das ruas
é mais
grafite e liberdade, gravidade

a poesia das ruas 
é mais
voz e libertação, violão

a poesia das ruas
é inodora, incolor 
e nunca insípida

a poesia das ruas
tanto grita
quanto agita

a poesia das ruas
salta aos olhos
e puxa a orelha

a poesia das ruas
não usa óculos
nem gravata

a poesia das ruas
não é minha
nem sua
nem de ninguém...


domingo, 15 de setembro de 2013

país das maravilhas



setembro ligeiro
como o coelho de Alice
setembro louco
como o Chapeleiro
setembro sem medida
como o sonho
setembro das maravilhas
como o país...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Anti-horário



caminho pela casa
e encontro relógios errados,
relógios errados,
relógios errados:
são oito e meia,
é meia-noite ou meio-dia,
são três e quinze...

não sei as horas
não sei as eras
não sei das iras

caminho pela casa
e encontro relógios errados,
tão errados quanto eu...


domingo, 1 de setembro de 2013

Primavera



A poesia tímida.
Triste e desnecessária.
De adjetivos menores.
Sem flores nem esperanças.
Seca tórrida vermelha poeira.
Nem sombra de vida.
Árvores e amores podados.
Riscados sem linhas poemas bélicos.
Belos epitáfios.
O fogo que arde na cripta.
O cálice vazio.
O cristal trincado.
O corpo em cinzas.
O frágil esperar da primavera.