quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Poema rico



Mil duzentas e dezenove mentiras.
Setecentos e cinquenta e sete calores.
Vinte e sete milhões e cinquenta e nove mil estrelas,
contadas uma a uma.
Milhões de neurônios.
Bilhões de homens.
Incontáveis razões para não acreditar.
Meus dez dedos das mãos apontam o céu 
enquanto meus dez dedos dos pés pisam a Terra.
Planeta números.
Planeta vida.
Amarro uma fita de Nosso Senhor do Bonfim no pulso.
Pulsar.
Quase esbarro numa verdade.
Quasar.
Acendo uma vela de sete dias para São Jorge.
Outras para São Judas. São Francisco. São Bento.
Santa Bárbara. Nossa Senhora Aparecida. 
São João José da Cruz.
São quarenta e nove dias de luz.
Teresa de Calcutá e Bezerra de Menezes me valham.
Vivi dez anos em um ou dois.
Perdi as contas - nunca, a esperança.
Perdi o sono também.
Contei carneiros, perdi rebanhos.
Mas o Senhor é o meu pastor.
O poeta é um profeta.
Escrevi, revisei, corrigi.
O tempo vai e vem.
Arregimentei a fé onde menos se esperava.
Tirei leite de pedra. Litros e litros.
Juntei patuás e figas. Às pencas.
Terços, rosários, ladainhas rezei.
A Prece de Cáritas. O Salve Rainha.
Oremos. Oremus.
Ergui o olhar.
Vi Harael, arcanjo.
Respirei fundo.
O tesouro aberto.
Ouro, incenso, mirra.
Desde o nascimento do sol até o ocaso, 
o nome do Senhor seja louvado.
Carisma, nobreza, humor e valentia.
Um fio de sol denuncia.
É aurora. 
Obrigado, Pai, por mais um dia


terça-feira, 19 de novembro de 2013

hora pro nobis



espírito da noite
que me traz o frio
ladeia o meu leito
e deita ao meu lado,
faz do medo a medalha,
faz da morte a mortalha,
faz do fio o tricô das minhas tramas
-- teia indelével das minhas palavras
poesia? prosa? proclama?
a dúvida do estilo reclama
a indefinição iconoclasta 
de contra-regras e de cenógrafos:
ao largo, os falsos ídolos 
e os ídolos verdadeiros
debatem o preço do pão francês
enquanto a fome brasileira
brinda com sidra de maçã
a santa hora de honrar a novela das sete...
e a história se repete.
Espírito da noite que me traz o frio,
ladeia o meu leito e deita ao meu lado.

domingo, 17 de novembro de 2013

enquanto o amor dorme



enquanto meu amor dorme
a vida comove
enquanto meu amor dorme
o mundo se move
enquanto meu amor dorme
as crianças crescem
enquanto meu amor dorme
o silêncio prenuncia
enquanto meu amor dorme
as dores se esquecem
enquanto meu amor dorme
as alegrias anunciam
enquanto meu amor dorme
as luzes descansam
enquanto meu amor dorme
os sonhos acontecem
enquanto meu amor dorme
as palavras se escrevem
pois
enquanto meu amor dorme
o amor prevalece


lindo povo brasileiro



lindo povo brasileiro
de todas as faces
de todas as raças
de todas as roupas
de todas as cores
de todos cabelos
de todas as formas
de todos os risos
de todas as crenças
de todos os lados
de todos os ritos
de todos ofícios
de todas as manhas
de todas manhãs
de todas as tardes
de todas as noites
de todas as horas
de todos momentos
de todas as ruas
de todas estradas
de todos os cantos
de todos os santos
de todas as vilas
de todos os mares
de todos os rios
de todas as pontes
de todos os rumos
de todo futuro
de todo passado
de todo presente
de todos os tempos
de todas as peles
de todos os pelos
de todas as pedras
de todos caminhos
de todas as gemas
de todas as prosas
de toda poesia
de todos os nomes
de todos apelidos
de todo sobrenomes
de todas as artes
de todos os sons
de todos silêncios
de todas as danças
de todos os hinos
de todas as rimas
de todas famílias
de todas idades
de todos gêneros 
de todas cidades
de todos estados
lindo povo brasileiro
de toda esperança
de todos adultos
de todos os velhos
de todas crianças
de toda alegria
de todos os dias
de todo país




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

menino de lata



menino de lata
cor de prata
estátua viva 
para tão pouca vida
menino de prata
cor de lata
marmita fria
para tão grande fome
menino de lata
menino de prata
menino homem


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

paulistas



lua paulistana 
sem lira
mas delirante
poesia que não dorme
luzes que não apagam
estrelas que não chegam
nem partem
estateladas avenidas paulistas
do céu vistas feito destinos
pouco menos que eternas
pouco mais que emoções





segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Aforismos



o dia surge em preto&branco
brandura de tons
explosão de contrastes
: a verdade é tanta
que parece mentira
: o ódio é tanto
que inspira amor
: a loucura é tamanha
que é normal

a que hora a aquarela da vida
vai adornar esta manhã?



domingo, 10 de novembro de 2013

Sexo



sombras suores sutilezas
sorrisos sensíveis
sensuais
suaves sensações
e suas saudáveis seivas
somos sabores
somos sonhos
somos sempre
súbita semântica
sabedoria...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Do bom amor



bom amor, bom humor:
o resto é discutir relação
-- para que tanto relacionamento sério,
se são os relacionamentos divertidos
que transformam o drama em comédia?
-- para que tanta condição imposta,
se a liberdade é que nos prende?
-- para que tanta teorias e a própria conspiração,
se o que afaga é o gesto?
-- para que tanto blá-blá-blá,
tanto adjetivo, tanto advérbio
se o que vale é o gesto?
Vai daí, dessa inconclusa conclusão,
a nota mais alta desta sinfonia:
anjos não têm sexo,
mas fazem poesia...






quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Elevadores



São cruéis os elevadores.
Descem e acentuam nossa solidão.
Sobem e ressaltam o vazio lotado.
Não nos poupam solavancos.
Não nos livram de sobressaltos.
Blindam nas celas a submissão ao nada.
Laços fora: eis que abdico ao elevador
e, inconteste, vou pela escada.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Da nobreza


torres de amianto
berço de manzanas
trono de chita
muralhas de blocos
relógio de sombras
fornalha de lata
cortinas de estopa
balcão de pingentes
vestes de retalhos
sapatos de trabalho
coroa de espinhos
cara de gente