sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

31 de janeiro



Nada como um dia após o ontem
Talvez seja hoje
Talvez não seja
Talvez nem talvez...


O.P.A.C.A.



Você é opaca ou menos
Você é escuridão
Você é silêncio depois da partida
Você é pegada depois da trilha
Você é longe
Você é queda
Você é vício
Você é você
Opaca
Ou menos



Do trauma



O calor me tira o sono.
O vento não me deixa dormir.
Falsos amigos e verdadeiros inimigos.
Beethoven ou Mozart.
Teorias, teorias, teorias...
Memórias do que eu não vi.
Lembranças da própria lembrança.
O círculo e a esfera.
Um sem fim de tentações.
A maçã e a gula.
O medo fatia minha noite.
Quem enxuga a lágrima?
Quem consola o vazio?
Quem navega a dor?
Quem apaga a luz e vai embora... quem?





segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Haikai




Triste verdade: a poesia é eterna
mas o poeta
tem prazo de validade

Sujeitos sem predicados




Lotearam o poder
Parcelaram o verbo 
Arrebataram a verdade

Decididamente, esses sujeitos ocultos
estão cada vez mais descarados

Do senso de emergência



Tem gosto de desabafo
temperado com desaforo
desespero enlatado e destempero
entalado na goela
nem tabuleiro nem baralho
o jogo é mais alto
na falta do vidro a quebrar
meu senso de emergência
emergiu em forma de poesia
veio num envelope expresso
de chancela vermelha
trouxe uma tristeza amarela
e um lamento sem cor
mas nem por isso deixou de ser bela
ao contrário
prende-me sem grades
beija-me sem batom
bota-me um sem-juízo na testa
e me faz humano para errar
onde o acerto é a regra
e viver onde a regra é errar





Da embriaguez




Embriagado estou
nem do vinho da verdade
nem da vodka da ilusão
nem do leite da mulher amada
nem da cachaça
nem da insônia
nem do chocolate
nem do café
nem da aspirina

Estou embriagado do mate amargo 
que me empresta o sonho enquanto 
tento aprender poesia com Quintana...


sábado, 25 de janeiro de 2014

Desperto



E no meio do meu sono sem inocências
sonho indecente indecência
que tem forma, cor, sabor e melaço
o calor quente do abraço
a textura toda tátil do carinho das mãos
o exagero e as delícias da paixão
o gosto forte de um grito surdo de prazer
o brilho emprestado das estrelas da noite
a paz quase virgem da estrela da manhã
e o cansaço que toma conta do acordar...


São Paulo, 460



Quando eu morei na cidade, eu fui feliz.

É assim que eu termino mais esta declaração de amor a São Paulo.

Declarei-me muitas vezes à metrópole. Talvez até haja alguma aqui no blog, ou nos velhos escritos em guardanapos, ou em antigas agendas, ou ou.

Deixarei bem claro: daqui para a frente - ou para trás - tanto faz a ordem destes mal traçados parágrafos.

São Paulo de todos os lados é cidade.

Pode ter cinco, seis mil pizzarias - mas uma só é o Ângelo. Pode ter quase quinhentas churrascarias - mas uma só é o Sujinho (mesmo que sejam três...) Pode ter 250 restaurantes japoneses, mas só um é o Okuyama. Pode ter dezenas de bibliotecas, mas a Infantil Monteiro Lobato é só ela, como a Mário de Andrade. Pode ter milhares de edifícios, mas só no Marechal eu fui morar depois que deixei a Maternidade São Paulo - que nome feliz. Não vou citar uma única padaria: são, foram e serão tantas... Pode ter mercados, supermercados, hipermercados, mercadinhos, quitandas, vendas, empórios, secos e molhados: só um é o Mercadão. Pode ter uma rua para cada dia do ano, mas 25 de Março de verdade é uma só. Pode ter escolas de todos os tipos, mas Caetano de Campos é uma só. Pode ter altos e baixos, mas Pico do Jaraguá é o maior e vive perto da Freguesia do Ó, onde orgulhosamente morei. 

Adicionar legenda
As pessoas de São Paulo são inesquecíveis. Pensei em citar 460 - uma para cada ano da cidade. De A a Z, faltariam anos para tantos e tantas especiais criaturas que percorreram comigo as ruas, as avenidas, as vilas, os becos, as alamedas e as histórias paulistanas nos mais de 40 anos que morei por aquelas bandas. Bandas... como o Made in Brazil e o Tutti Frutti, lembranças que me fazem perguntar qual o ritmo de São Paulo: Rock? Seresta? Samba? Punk? Valsa? Bolero? Sertanejo? Choro? Hip-Hop? Gospel? Pop? Todos?

São Paulo de todos os santos. São Judas Tadeu. São Jorge. Santa Cecília. São Bento. São Francisco. São João. São Pedro. São Roque. Sant'Anna. Santo Antônio. Santo Amaro. Santa Catarina. São José. E nossas Senhoras Aparecidas, do Brasil, de Fátima, da Achiropita.

São Paulo é minha história, minha vida, minha poesia, minha prosa, meu romance, minha comédia, meu drama, minha fé, meu canto.

Sem pé nem cabeça. Sem fim nem começo. Sem sotaque nem preconceito.

É assim que eu termino mais esta declaração de amor a São Paulo.

E quando eu morei na cidade, fui feliz.





sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Daqui



vista daqui, a gaiola é morada
vista daqui, a gaiola é vida
vista daqui, a gaiola é linda
vista daqui, a gaiola é santa
vista daqui, a gaiola é cena
vista daqui, a gaiola é ceia
vista daqui, a gaiola é meia
vista daqui, a gaiola é lua
vista daqui, a gaiola é rua
vista daqui, a gaiola é tua gaiola...

tudo



todos os olhos
todas as mãos
a ilusão de que a foto se move
o cinema da alma
todos motivos
todas razões
a impressão de que a flor se abre
a semente do ser
todos os ritos
todas as missas
a sensação de que voamos
e o espírito vai...


empedrado



seixos seixos seixos
juntos e juntados
coração
pedregulhos de gente
gente em pó
gente só
mina de grafite
diamantes de ocasião
riscos e rabiscos
e as pedras da estrada
ralam nossos pés
até os ossos do calcanhar:
nosso calcâneo suplício
de mica, feldspato e quartzo.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Dos falsos ídolos



tinha a pele lívida, estátua de cera
tinha olhos feitos de bolas de gude
-- olhar brilhante --
tinha mãos glaciais e belas unhas 
tinha lábios rubros como as mãos
tinha a estatura dos deuses e a aparência mortal e  
hoje não tem vida
nem sinal
nem adoração...


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Águas de março



Marcas da inconsistência,
nossas lágrimas correm pela face.
Nada, ou quase nada, é sólido na nossa dor.
Vazamos ódios e lamentos.
Escorremos pragas e venenos.
Mergulhamos no copo d'água das tempestades.
Chovemos no molhado as frases feitas do desespero.
No leito das nossas mortes correm rios de concessões.
Não nos enganemos: se a vida flui,
a correnteza leva...



Numa garrafa




Palavras perdidas entre tralhas.
Ou o contrário.
Entre prantos e palavras e pilhagens
navegam corsários.
Nós, os piratas.
Perto de mim há o outro.
Tão perto, de tocar.
Quais ventos nos aproximam
dessas costas largas?
Quais verdades nos trazem?
E levam...
No mar cotidiano nossas ondas são vagas.
Ou o contrário.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Dos olhos



Lágrimas além
A fé
A consolação
A coragem e a força
Faca amolada a boa pedra
As pedras que te apedrejam
são as mesmas que te afiam
O brio da tua atitude
O frio das tuas lendas
Não são larvas que te consomem
São certezas
Não são medos que te limitam
São pecados
E na flora fauna na natureza dos teus atos
Os olhos miram o nada
e nada podem fazer...
São olhos, não são miragens.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Da pele



Nossa casca enrugada.
Crosta do cerrado.
É bela. 
É defesa.
É manto natural.
Grosa humana.
Lixa da epiderme.
Casulo rude.
Pele seca.
Como secas palavras.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Da insônia e da convicção (Para Laura Toledo)



Àqueles que levam nosso sono:
sonharemos acordados.
Àqueles que insistem na mediocridade:
não paramos de crescer.
Àqueles que nos dividem:
enquanto isso, multiplicamos.
Àqueles que nos esquartejam:
somos cobras de vidro.
Àqueles que roubam nossos bens:
a alma é inseparável.
Àqueles que brincam com nossa emoção:
temos toda a razão.
Àqueles que nos perdem, nos pedem, nos prendem:
vivemos a liberdade de escolhas.
Àqueles que nos definem:
muito obrigado, somos nós mesmos.