quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Radiografia


É possível que você me veja 
através da radiografia.
São contrastes pedagógicos
e mostram manchas de alma.
Revelam nódoas históricas
e cistos excêntricos.
É possível que você saiba mais
pela minha biografia.
São lembranças colhidas e
visões escolhidas pelos meus olhos.
Contam histórias vividas
e morridas, tudo é ponto de vista.
Também é possível que você nem exista mais.
Neste caso, ouso dizer, amanhã é Carnaval... 


Corredor da morte




Ah, corredor da morte é este
que me leva às lembranças de você.
Para que tantas portas,
tantas léguas,
tantas tintas,
tanto verniz,
tanto silêncio?
Para que tanto vazio,
se o eco ido dos seus passos
morreu na porta do elevador?


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ponto final



Nasce, por vezes, o poema do sonho
Às vezes a poesia vem do pesadelo
Em ordem direta ou invertida,
por mão única ou em via dupla,
vai e vem, vêm e vão palavras
e formas e ligas e rimas (essas nem tanto)
e sintaxes e morfologias e fonemas
e, de repente, a trilha e o encontro
do senso e do sensível:
a poesia vem do real e do imaginário
o poema funde metais em escultura
o poeta escuta os espíritos e as vozes
e o leitor dá o ponto final a todas essas reticências.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Percepções



Parecem luas com luz própria
Parecem ensaios em cena real
Parecem dias quando são pouco
Parecem falas tanto só calam
E no meio de tudo isso eu percebi 
que o bonde foi,
a sede secou,
a coragem era,
a vida passou...


Carnavais





Cigana cruza o destino do pirata
Curumim apaixona bailarina
Palhaça encanta um presidiário
Fantasias tão fáceis de viver
Nem que fosse por uma tarde
Nem que fosse por uma vida inteira...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Bang



formulários
protocolos
pernósticos
barbitúricos
barbaridades
patologias
homofobias
tricloretilenos
elastômeros
singulares plurais
creio em Deus pai
quanta invenção inventada
quanta coisa quanto nada
quanto que eu nem sei quem sou
quem fui nem quem seria
não fosse apenas cidadão
-- se tanto diria --
verme sobrevivente larva independente
de qualquer big bang 
bang
desta galáxia deste qualquer
bem me quer ou mal me quer...



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

do branco



do papel da ditadura
à ditadura do papel:
enquanto uma face a tinta engoma
a outra se oferece ao borrão:
pintura? poesia? ensaio?
quem sabe moldura,
quem sabe conteúdo...

breve



poema curto, simples
singular, monocromático
fácil como a dor
quase, quase dramático







sábado, 15 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Mais ou menos



Na minha aritmética
vou preferir as somas às subtrações,
as multiplicações às divisões,
os resultados às equações...


Ao Norte



Meu destino sem rumo
sem prumo sem destino
anda cansado de guerras
mas não consegue calar...
Ou eu paro de viver,
ou eu paro de falar.


alguma poesia




No meu passado tem pastel de carne,
garapa e alguma poesia.
No meu passado tem o riso dos amigos,
manifestos e alguma poesia.
No meu passado tem o sobrado geminado,
quartos, sala e alguma poesia.
No meu passado tem o carinho descoberto,
um fusca, as noites e alguma poesia.
No meu passado tem livros por todos os lados,
papéis guardados e alguma poesia.
No meu passado tem a missa das onze,
credos, cruzes e alguma poesia.
No meu passado tem lutas, batalhas,
contendas, covardias e alguma poesia.
No meu passado tem raízes, frutos,
folhas secas dentro de cadernos e alguma poesia.
Houve uma vez um menino que brincava
de fazer alguma poesia e que hoje diz ao homem:
Ouve o menino, ouve alguma poesia.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

triste madrugada




sai, insônia, 
deixa o meu leito que eu largo teu seio,
pois a noite é longa
e a cocacola tem dois litros e meio...




terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Dias



faltam dias no meu calendário
faltam dias de claridade
faltam dias de intensidade e de história
faltam dias de lucidez
faltam dias de construção
faltam dias de resignação
faltam tantos dias no meu calendário
que já estou pensando em me mudar para Marte,
com seus 687 dias...


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O caminho de Santiago



No meio do caminho de Santiago
tinha uma pedra
 -- não era poema,
 -- não era festa,
 -- não era cinema.
No meio do caminho de Santiago
tinha uma pedra.
O copo sem lógica. Nem água.
Pirotecnia no vazio.
O buraco na História.
A mentira em tempo real.
O tempo roubado.
A pedra de fogo.
O afago do eterno.
Miragem: a imagem dos puros.
No caminho de Santiago tinha vida.



dos dias da semana



cheiro de café com olheiras
mistura fina
de todas as segundas-feiras


domingo, 9 de fevereiro de 2014

metades



vai dar meia-noite
e eu encaro os ponteiros
por viver meia-vida...


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sensíveis



que as unhas arranhem
e rabisquem nas costas
a gramática do sensível
a língua que se fala
na ponta da língua
idioma de anjos e de feras
sutilezas do prazer
que as vozes sussurram
enquanto os gestos gritam





livre



a poesia é uma filha
igual às minhas filhas
nasce cresce vive
e solta-se pelo mundo

a poesia é um rebento
que insiste na liberdade