sábado, 29 de março de 2014

Da vila



notícias de todo o mundo
um planeta em alerta
a Terra azul a água
a casa de todos nós
aqui outono, acolá primavera
enquanto isso, na vila
há mulheres ultrajadas
há crianças famintas
há homens escravizados
há estatísticas intermináveis



quinta-feira, 27 de março de 2014

a mão do céu



a mão do céu pousou minha cabeça
em repouso
a mão do céu tocou minha face
em carinho
a mão do céu acalentou meu dia
em esperança
a mão do céu colocou-me a dormir
em paz
a mão do céu então dormiu para sempre


Todos os marços





todos os marços
todos os marços têm chuva
todos os marços têm flores
todos os marços têm dores
todos os marços, dia da mulher
todos os marços, lembranças
todos os marços, trimestre
todos os marços, retalhos
todos os marços, remorsos
todos os marços têm um abril


Infâncias



nas fronteiras da alma e da emoção
sensibilidade à flor da pele
-- nossas atitudes mais puras
cirandam feito crianças --
somos infantes dos nossos desejos
brincamos com o fogo e com o queimar
desafiamos o prazer e os limites
desatinos tão vivos, destinos tão certos,
meninos e meninas dispersos
pela lembrança das imprecisões humanas.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Click



garatujas aquarelas bicos-de-pena
rabiscos rascunhos retratos
marcas d'água negativos transparências
desenhos figuras ilustrações
são e somos tantas imagens
mensagens subliminares quadros
olhares fotogramas perspectivas
diapositivos reflex espelhos
lentes côncavas e convexas
-- como corpos
como mentes --
máquina de fotografias



sábado, 22 de março de 2014

ris(c)o



há uma conspiração silenciosa e solene no ar
há uma conspiração silenciosa e solene
há uma conspiração silenciosa
há uma conspiração

há uma        piração
afinal
alguma coisa tinha que ser divertida
no meio de tanta burrice...

quinta-feira, 20 de março de 2014

de pérolas e de porcos



auréolas de silicone emolduram arcanjos em seus púlpitos
a fé de verdade e a verdade da fé
camelos de borracha enfiam-se por agulhas
faca amolada, navalha na cintura
frutos vermelhas feito sangue sentem-se maçãs
pequenos delitos, amoras, framboesas
símbolos, cores, formas, ícones, ideias
dicionário de palavras e de verdades
pérolas aos porcos -- rezava meu avô --,
pérolas aos porcos, aprendi com humildade



reverberar




dar forma ao verbo
moldar a ação -- em liberdade
coser retalhos de nós mesmos
artesania da fragilidade
falar sem pensar
ousar os mitos
tecer carinhos
vibrar acordes
e do verbo tirar crias:
reverberar verdades



sem documento



este poema dispensa o dicionário
poeta de pouco vocabulário sou
nem há tanto há dizer
nem tantos versos a versejar
-- bastam pequenas verdades como
lírios do campo ou alfazemas --
a cumplicidade da solidão
a humildade do companheiro de jornada
as compensações da vida:
este poema dispensa dicionário,
discurso, hipocrisia e até a vã filosofia...
indispensável, só a simplicidade.




quarta-feira, 19 de março de 2014

Estádio



Estou cansado.
De sorrisos amarelos.
De pessoas amargas.
De falsos profetas.
De verdadeiros imbecis.
Da falta de educação.
De fotografias sem luz.
Dos discursos vazios.
Da mediocridade abaixo da média.
De políticos.
De mazelas inglórias.
De papo furado.
Das desculpas esfarrapadas.
Da pobreza de espírito.
De marcha à ré.
Da falta de fé.
Das teorias maníacas.
Das manias teóricas.
De práticas abusivas.
De demagogia.
De mentiras.
De injustiça.
Estou verdadeiramente cansado.



terça-feira, 18 de março de 2014

Tampouco



de pouco adianta 
ou de quase nada
o esforço infértil da natureza
humana mesquinha confortável 
e cheia de um triste vazio
tristeza sem adjetivos
ou quase isso
jamais um todo
jamais um tanto
jamais


segunda-feira, 17 de março de 2014

Marina



as ondas de quem não conhece o mar
pelos dias que nunca viram o mar
e o mar daqueles que não navegam
por medo por cedo que se faça
a vida a vida pródiga a vida cálida
a vida marinha sem oceanos nem águas
geografia das ilhas que contornam o  vagar
melancolia daqueles que esquecem do mar

sábado, 15 de março de 2014

sortilégio



do castelo de cartas
que a tua sorte derrubou
ao jogo de palavras
que a tua morte esparrama
-- pouco clama, ou reclama,
o clamor da tua falta  --
se a tua presença foi embora,
a tua ida é e será o presente:
o que se foi em boa hora,
o que fica vai para sempre.


noturno





é no meio da noite
que a pedra vira corpo
que o corpo abraça
que o abraço acolhe
que o acolher envolve
que envolve a boca
que a língua língua
que o beijo gela
que o gelo queima
que o queimar devasta
a vasta noite que é 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Provocação



a insônia provoca a alma
e faz o dia seguinte parecer eterno:
como a ressaca das marés,
a partida dos amados,
a conta dos insensatos.




ampulheta



e tinha música
e tinha letra
e tinha luta
e tinha arte
e tinha gente
gente gonzaga
gente gonzaginha
gente vinicius
gente henfil
gente betinho
gente elis
gente jessé
gente clara
gente nara
gente cacilda
gente vianna
gente vlado
gente joão
gente movimento
gente opinião
gente carlito
gente millor
gente pasquim
gente tom
gente tim
gente tão
gente
gente
gente na rua
gente em comício
gente em cena
gente no arena
gente em palco
gente na platéia
gente na boléia
gente na coxia
gente de prosa
gente na poesia

que mundo sem graça vive hoje
cheio de gente vazia

Sim



humilde, eu atingi a idade
de examinar o mundo
e receitar simplicidade 


É



o rei
ah, o rei
majestade 
sapiência
bondade
isonomia
justiça
criatividade
coerência 
dedicação
altruísmo
magnanimidade
sabedoria
humor
serenidade
auspiciosidade
liderança
respeito
honestidade
prestimosidade
grandeza
beleza
fineza
realeza
e realidade
assim vai
pela cidade
o rei nu
em sua verdade 


quinta-feira, 13 de março de 2014

círculo virtuoso


a primeira pessoa do singular
diz para a segunda pessoa do singular
que não existe a primeira pessoa do plural
pois não existe plural
nem segunda
nem pessoa


quarta-feira, 12 de março de 2014

dna (um haikai de emergência)



sua atitude não nega sua falta de atitude
ao contrário 
entrega a rasa altitude do seu voo raso

segunda-feira, 10 de março de 2014

Da delicadeza



o que fazer com os sonhos depois que acordamos?
sonhos são como dores que vai e vêm.
desejos também.
desejos são sonhos recheados de creme de baunilha.
e cobertos com canela em pó.
desejos sonhamos acordados.
como vontades, 
esses sonhos que desejamos aos espasmos.
e como um mágico, sem cartola nem coelhos,
ocultamos delicadamente uns,
realizamos outro aqui, outro ali, acolá
e seguimos pela manhã, a peguntar:
o que fazer com os sonhos depois que acordamos?



sexta-feira, 7 de março de 2014

Retrato



com dedos de artesão
contornou a alma,
figura fluida fácil frágil
desenhada em linhas imaginárias:
não, não oprimiam nem represavam
nem limitavam nem se supunham
linhas territoriais,
eram linhas tênues de amor absoluto
rabiscadas entre uma melodia e um verso,
letra e música que nenhuma biografia contempla
mas que qualquer apaixonado entende.



quinta-feira, 6 de março de 2014

Arqueologia



Escavo o chão
o chão rachado da história
encravado cravejado incrustado
de histórias nem verdadeiras...

Falsos ídolos,
falsas imagens
-- miragem?
-- ilusões?
-- remendo?

Pesquiso, insisto, mexo, resgato
remexo e aprofundo
até separar as unhas dos dedos
-- e nesse momento dói a separação
como doem os olhos feridos de luz.

Que sensação fugaz.
Que lugar-comum.
Que falta de amor-próprio
que o próprio amor condena 
e nem por isso deixa de cavar...


quarta-feira, 5 de março de 2014

Depois, quem sabe...



depois pode ser tarde
e nem por isso deixa de ser depois
depois dói menos
e nem assim deixa de doer
depois a gente vê
e não resolve do mesmo jeito
depois a gente se vê
e não se vê, e  não se vê...