terça-feira, 29 de abril de 2014

Com todas as letras



Mandinga
Olho gordo
e mau-olhado
-- não eram credos
nem eram brinquedos --
era o futuro, era o passado,
era o presente
de uma noite de calores e de ausências.
Quando até o vazio queima.
Com todas as letras.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Da cigarra e da prosa




Feito música, a prosa embebeu-se (ou embebedou-se) de poesia e bailou por toda a noite, por toda a semana, por toda a vida. 

Feito cigarra, a poesia cantou a história e morreu no fim do dia.



Do mundo dos homens



Os homens são estranhos.
O mundo é estreito.
Estranhos são os homens em suas ausências.
Estreito é o mundo em seus destinos.
E quando os homens se encontram
nos estreitos destinos do mundo
crimes, amores, loucuras
multiplicam-se sem razão.





sábado, 19 de abril de 2014

Observações paulistanas



Das Rosas, da Luz, da Sé, de Anchieta santo.
São Paulo de tantos tons e matizes e sons e ruídos.
Cenário paulistano de buzinas e da Liberdade.
A mesma liberdade das feiras livres.
Roupas de Maria Marcolina e José Paulino
-- como um casal --
vestem esquinas e estrias e estilos.
Estátuas vivas e de bronze dividem e multiplicam
espaços e histórias.
Municipais como Mercado, Teatro, Estádio e afins.
Catedrais e templos e igrejas e mosteiros e capelas
e cinemas.
São Paulo que meus olhos escoam.
Que desafia a aritmética e a gramática.
De todos os sotaques e de nenhum.
Da minha primavera e verão.
Meu inverno garoento e belo.
São Paulo do meu outono.



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Permita



PERMITA-SE
PERMITA-se
Permita-se errar
e corrigir se quiser
Comer a hora que fome tiver
Chegar em casa e jogar os sapatos no chão
Permita-se tirar as meias e andar descalço
Tirar a roupa
Brincar com seu corpo
Rir de si mesmo
Rir do espelho
Rir na frente do espelho
Rir no escuro
Permita-se caminhar no parque
e sentar num banco
Integrar-se à natureza
Olhar os outros passar
Dirigir sem destino
Inventar outros caminhos
Fotografar
Posar
Andar de mãos dadas
Fazer gracejos
Imaginar piadas e situações
Dar-se o direito de ousar
Usar o que gostar
Permita-se sonhar
Fazer uma bela macarronada e encher a barriga sem culpa
Derreter o chocolate na boca enquanto dorme
Tomar café, tomar café, tomar café
Permita-se o ritual do chá
Permita-se o sol
Permita-se a sombra
Permita-se molhar
Mergulhar sem medo
Viajar de avião
Pular as ondas contando até sete
Jogar-se na areia e ficar
Permita-se a chuva
Pingos a escorrer na face até o sorriso
Guarda-chuva quebrado
Pegar resfriado
Desligar o ar condicionado
Afrouxar a gravata
Rezar do seu jeito
Pedir para todos os Santos
Permita-se lista de desejos
Uma taça de vinho
Um pão quente com manteiga
Acariciar uma flor que brota no ramo
Regar as plantas
Sorrir para os cachorros
Acompanhar a borboleta com o olhar
Tomar banho de cachoeira debaixo do chuveiro
Permita-se o lúdico
Permita-se o mágico
Permita-se a música
Escrever sem regras
Emocionar com o simples
Abraçar com amor
Fazer amor sem limites
Perder a hora
Esquecer a conta
Rolar no chão com os cachorros
Passar a mão na barriga do gato
Permita-se tosar os cabelos
Tirar foto em pose de Buda
Imaginar-se
Voar em pensamento
Ter aspirinas por perto
Exagerar
Permita-se quilos a mais no corpo e toneladas a menos na alma
Ler o livro da sua vida pela quarta vez
Fazer novos amigos
Conquistar outras terras
Circundar planetas
Beijar estrelas
Olhar para a lua sem eclipse
Ser ocidental, oriental
Abrir mão dos pontos cardeais
Esquecer mágoas
Morder o próprio dedo, beliscar-se
Permita-se cair de sono
Explorar seus limites
Descobrir o doce, lamber o sal
Contar histórias
Fazer poesias
Limpar a ramela
Enxugar a lágrima
Enxergar longe
Ver amanhecer
Permita-se plagiar a vida
e imitar a morte
Permita-se o imprevisível
e o invisível manto da eternidade
ainda que por um dia 
Permita-se o dia de hoje


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Haikai tristte



lagrimar:
teu pranto
navegar.


Rotina



Pra que tudo isso?
Tampo a caneta,
Fecho o caderno,
Vou dormir.

Amanhã começo,
tudo de novo...



Bola sete



Elas andam pela bola sete.
Valdete, a vedete.
Babette, a chacrete.
Claudionor, o gilete.
Depois chamam de poesia
O tchibum que faz o gato
caído do telhado
no balde de água fria...


Feliz dia novo



Falta pouco para te ver, amor
Em Lilliput as coisas andam apertadas.
Apertadinhas, para ser mais preciso.
Por isso, é preciso reinventar 
pomadinhas e segredos.
Eu te conto, tu me contas.
Nos confessaremos em poemas.
E assim viveremos a mais linda história de amor.
E esparadrapo, na falta de bombril.


Farsa



personagens de segunda
forrobodó de terceira
roteiro de quinta
superprodução de cesta:
é básico
é básica...



O rei nu e a rainha descalça



E no meio da valsa
desisti de dançar:
o rei está nu.
a rainha está descalça.
Qual a graça do baile?
Vou jogar fliperama no passado, 
que o presente não passa de sistema
operacional descontinuado.



Riso



Vomito deliciosamente
idéias (com acento)
nas cabeças improváveis
dos anencéfalos.
Como é fácil descer ao play.
Como é rico sorrir sem dentes.



Gostoso veneno



Destilo meu veneno
às terças-feiras, 
às quartas-feiras, 
às quintas-feiras,
enquanto as bestas-feras
tentam comer meu rabo 
de sexta até segunda,
ininterruptamente.
Enquanto o defunto ainda está quente.


Ghostwriter



Ah, que os fantasmas da longa noite da ditadura
nem de perto assustam tanto quanto
tanto quanto
tanto tanto
quando os espectros do poder
corrompido e corruptor
podres laranjas
pobres laranjas
tantas laranjas podres
iguais entre os iguais
e assim, mortais
-- como a vida, a burrice e os animais.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Fusos horários



Aquilo que minha mente mente
de noite
não se transforme em poesia
de dia
Que a mentira é semente
da noite
Enquanto a poesia é o alívio
do dia
E ainda que a mente minta
pela noite
Ela não vinga à luz da poesia
pelo dia...



domingo, 13 de abril de 2014

Flocos



Somos fragmentos de emoções
Sucessão de medos e de riscos
assumidos
Deitamos razões para nossa falta de razão
Assimétricos e bem alimentados
com flocos de aveia
ou de caráter -- efeitos semelhantes,
nunca iguais.



Buda





Placas de pedra revestem meu rosto
envelhecido
Escamas calcáreos granitos e granulados
entremeados
por olhos cansados de ver
ouvidos cansados de ouvir
boca cansada de palavras vãs:
não sei se sou um homem de pedra
ou um paciente buda em formação.



quinta-feira, 10 de abril de 2014

das faces da quase-morte




cabelos pintados de cor-de-rosa
listas de lugares a conhecer
harley-davidson
paraquedismo
abraçar sem medo
amar sem vergonha
comer de tudo
lamber o prato
dançar, dançar, dançar
mijar na rua
de dia
dar risada de si mesmo
gargalhar dos outros
olhos lacrimejantes
óculos sem graus
saltos altos
chinelos velhos
novos perdões
pular no poço
água gelada
chocolates 
carinhos
orações 
adeus


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Novamente



Tudo novo de novo
: a sensação de nova ordem
-- desordem --
O arranjo e o desarranjo
-- conferências e conflitos --
Sinais trocados
-- mais, menos, menos, mais --
E no peito uma nova dor,
velha, novamente.


Maquiagem



Sobre os olhos o azul do dia
Sob os olhos a negra noite
Entre eles, a incerteza do que é real,
do que é miragem,
do que é maquiagem.


Das benesses da vida



Esta vida, caprichosamente,
deu-me um corpo saudável
e uma alma latente

Vida repleta de alegrias,
deu-me amores, amigos
e duas lindas filhas

Cheia de vida deu-me,
a vida, recursos e ar
para as contas pagar

Oxigênio, hidrogênio, deu-me água
a vida que também deu
felicidade e mágoas

Eita, vida generosa
que me deu uns tantos versos
e alguma prosa

A vida deu-me a lua
para rimar com tua linda
imagem nua

A vida deu-me fôlego
até para vencer degraus,
três a três, inda que trôpego

A vida deu-me as costas
doloridas pelo rim
-- dor sem fim

Mas também, sem tédio,
a vida expeliu os cálculos
renais, sem remédio

Vida redonda, quadrada,
multidisciplinar,
deu-me teto e lar

Vida tríade, triangular,
deu-me quem saísse
e quem fez bem em entrar

Vida de tantas faces,
deu-me olhos míopes
e humildade hipermétrope

E mesmo que a vida acabe,
pois não há viver sem fim,
a vida deu-me esperança

E mesmo que chegue o rubro poente,
deu-me a vida a noção
de ter passado, futuro e presente

terça-feira, 8 de abril de 2014

Todas as luas



todas as luas numa lua só
lua nova
nem meia, nem minguante
todas as luas somadas
luas sobrepostas em bolachas de chopp
luas dobradas em origamis
luas de Saturno
luas coladas em cartolina negra
luas brancas amarelas prateadas
luas de estanho
luas de fases
luas de frases e de versos
luas diversas mas todas,
todas as luas numa lua só,
a tua.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Do tamanho da sorte



Tantas tentativas, tantas.
Maneiras de buscar vida.
Incertezas a se dizimar.
São telas de quadros familiares,
íntimos, nossos conhecidos.
Retratos ou espelhos.
O comum é comum, sim.
Simples assim.
Exercício de humildade e sabedoria.
Passo a passo.
Ponto a ponto.
Retas. Objetivos. Metas. Paralelos.
Paralelas.
Lado a lado.
Quem sabe, o sorriso ao largo
não é o estreito caminho do encontro?
Quem sabe, o que uns chamam sorte,
não seja a mais clara manifestação de afeto
que jamais esqueceremos?
Quem sabe...




quinta-feira, 3 de abril de 2014

a mão e a pedra




a mão e a pedra
a união
o afago e o tapa
a ação
e enquanto a mão atira a pedra
a pedra afia a faca
que corta os dedos
que risca o chão
que faz a palavra
revolução



quarta-feira, 2 de abril de 2014

Dia de Santo



Prece alternada, responso
Entre a cor branca e a cor preta:
Velas de Martim Afonso,
Sotaina do Padre Anchieta...

Guilherme de Almeida


Padre
Professor
Provincial
Dois, três, quatro séculos
e um tanto além...
Irmão, a Serra do Mar não te intimida:
A cruz tupi, 
Beato, 
 a cruz tupi de Piratininga
plantou o pátio, a vila, a cidade, 
a metrópole de todas as cruzes.
Beato,
o poema nas areias do Atlântico
as ondas não levam,
as ondas não lavam,
as ondas da glória.
Anchieta, tão santo:
teu manto,
teu canto,
meu pranto.