sexta-feira, 30 de maio de 2014

Réquiem para Tião Marciano





Tião era um anjo.
De batismo era Sebastião Marciano.
Tião era mesmo de outro planeta.

Alegre Tião. Amigo Tião. 
Honesto Tião. Bom Tião.
Tião Tião.

Tião era operador de rádio.
Nas ondas do rádio, Tião virou personagem.
Do nosso Quintal Encantado – programa infantil da rádio Usp nos anos 80.

Na vida, Tião trabalhou, estudou, trabalhou, trabalhou, trabalhou...
Tião aposentou.

Deixou São Paulo, voltou para Catalão.
Para que, Tião?
Abrir uma rádio comunitária.
Personagem esse Tião.
Figura esse Tião.

Tião.
Virou anjo.
Vai girar botões no céu, modular a voz, 
botar São Pedro para falar bonito.

Quando chover, 
parecido com as lágrimas que choro,
saberei que aquele barulho é apenas sonoplastia.

Do Tião.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Das horas ímpares



Mandala das horas, esse relógio canhoto.
Maroto.
Dono das mais ímpares horas.
Do ponteiro anti-horário.
Dos momentos anteriores.
Dos truques.
Dos blefes.
Dos bifes à milanesa.
Da teresa na janela.
Dos cucos desafinados.
Do despertador.
Do despertador.
Do despertador.
Dos sinos em repiques.
Dos mais pontuais chiliques.
Da ampulheta quebrada.
Da mais triste demora.
Maroto.
Dono das horas sem hora.


Da ponte e do poente



Pois a noite é longa.
Pois a noite é tão longa
que o dia não vem...
Uma ponte entre a vida e a morte,
essa tão longa noite.
Pois a ponte é tão longe,
que do poente o coração não vê.
Mas que os olhos sentem.

De abóbodas e de abóboras



Encaro o lustre,
como quem mira uma estrela.
Desato meus ídolos,
puxo pela memória,
brinco de fazer poesia.
Meus fantasmas, só meus.
Poetas e plasmas,
meus fantasmas, tão meus.
Trago rimas e sem rimas.
Faço pose de retrato.
Olho para o espelho, não me vejo.
Será que sou?
Será que fui?
Será?
Serei?
E de tantas questões,
tantas dúvidas,
perguntas,
indagações
e reticências...
Encaro o lustre como quem mira uma estrela.
Meu teto é um céu de látex.


Haikai final



O tempo e o vento:
Mais um pouco e eu serei
Uma nota de falecimento


Fim de noite



Há bolor no olho.
Um pedaço de lágrima.
Cisco aramado.
Viagem adiada.
Poema adiado.
Flashes. Cliques. Trims.
Uma agenda riscada.
Telefones ocupados.
Silêncios e ruídos enroscados 
num dna sonoro.
Olha para o que restou.
Uma fatia de lágrima e um naco de queijo.
O vinho acabou.


Redescoberta



Estive aqui um dia
Aqui uma era
Aqui uma vida estive
Fuiátomomoléculacélulasêmensementesemânticafísicaquânticaoescambauobemomaltudoigual
Hoje sou planeta
Satélite
Lua

Porém, amanhã,
estarei nos classificados
de um diário popular
a anunciar
memórias, sem compromisso,
ou isso...


terça-feira, 20 de maio de 2014

21 de maio



Vai-se embora, inferno astral:
o que tinha de mal já foi feito,
já fez efeito,
já dei jeito...
Meia noite chegará.
O sol em Gêmeos.
O novo dia.
Adeus, mediocridade (ainda que tardia).
Adeus, lugar-comum.
Adeus, tédio geral.
A chatice -- esse pecado mortal -- 
nos deixará em festa.
Nus e prontos para o desfile.
Laços fora.
Fora, palavras de ordem.
A ordem, a nova ordem vem com a aurora.
Em boa hora.
Vai-se embora, inferno astral.
Que a manhã brotará sol.
Crescerá vida.
E florescerá ipês, lírios e brincos de princesa.

Das dimensões


A alma é grande
A vida é curta
O dia é pouco
O instante é infinito
A taça é funda
A fome é tanta
O medo é nada
O riso é muito
A mulher é leve
A história é imensa
O mito é forte
O tempo é tudo



Das asas



Teimo em voar
Nem Ícaro, nem Mercúrio
Uma teimosia aérea
Quase persistência
Por ares lúdicos
Cantares, imaginares
Ares que me fazem teimar.
Teimo em voar
Nem homem, nem pássaro
Um sonho pronto
Um salto, um gesto
Aberto em voo
Vida e obra dos poetas,
dos lunáticos e dos teimosos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Novas estrelas




Minha sombra é seguida de perto pela tua luz.
Minha luz dorme oculta.
Meu lado oculto e silente.
Do silêncio brota o sexo. Do sexo, a síntese.
Meu couro é sintético.
Minha crosta é sintética.
E ásperos.
A reprodução assistida dos quasares.
Se do brilho vem a revelação,
novas estrelas desabam verdades solares
sobre nossas auréolas.




quarta-feira, 14 de maio de 2014

Dos anéis de Saturno

Crédito da Imagem: NASA/JPL/University of Colorado

Ando Saturno e com suas rimas.
Noturno e soturno
-- que no dicionário é silencioso,
tristonho, taciturno e
lúgubre e medonho.
Ando Saturno em busca de seus anéis.
Ou no centro das atenções.
Decepções concêntricas e excêntricas.
Que lua insossa eclipsa a inteligência...
Que sol estúpido aluga sua estultícia...
Ando assim Saturno com seus céus.
Ares nunca dantes navegados.
Areado e sublimado, adjetivado.
Não é a noite. Não é o gelo. Não é o vácuo.
Ando Saturno e convicto.
Quantos Narcisos tantos Édipos.
Vai além dos olhos o olhar.
Em minha cegueira celeste, 
ando Saturno e Plutão.


terça-feira, 13 de maio de 2014

poema abestado




ah, meus queridos,
e queridas minhas,
um poema abestado
nasceu da noite
para ganhar os seus dias...
surgiu do quase nada
para vingar réptil
anfíbio e camuflado
-- nada besta,
esse poema abestado --
e de lendas e de mitos
comeu muita farinha
farofa de banana e aveia
tapioca e malagueta
gemedeira na gamela
gemidos à milanesa
e na lenha do fogão
esquentado
aqueceu-se o poema
abestado
meio sem jeito
outra metade rimado
desprezou a gramática
e entregou-se aos vícios
-- da linguagem --
prolixidade da silva
cacofonia dos santos
mané do plebeísmo
fulano de tal que qual...
e nesse lero-lero
cresceu, viciado,
o poema abestado
que preferia ser abastado
mas por uma vogal se danou
danou-se sim, na crueza
das paixões substantivas
e dos adjetivos apaixonados,
na indecência das predições
e nas premonições indecentes,
no colarinho das tulipas
e nas tulipas embaladas a vácuo
-- então, quis o destino traçado
que numa noite de luau
o poema abestado se disparasse,
subisse ao céu e penetrasse,
sem convite nem trocado,
na grande festa do eterno,
quando enfim foi coroado 
-- por todos os versos e estrelas --
eterno poema abestado.



domingo, 11 de maio de 2014

Das horas.



Cinco e meia da manhã o galo canta.
Seis e meia o coletivo passa.
Os homens vão trabalhar.
As crianças vão para a escola.
Os rádios cantarão a manhã.
Notícias sangram. Mulheres oram.
Ao meio-dia e meia o almoço saiu.
Eram quase duas da tarde quando esperança dormiu.
O resto de dia não foi segredo para ninguém.


Das dificuldades



Alguém me explica:
eu, que tanto reclamo
-- na hora de dizer "eu te amo"',
tudo complica...



sexta-feira, 9 de maio de 2014

Da ignorância



Minha casca descasca.
Pouco resta do entender.
Quando crescer quero ser.
O mundo tão longo, o mundo tão curto.
O homem tão grande, o homem estreito.
Minha casca descasca.
Insiste em desnudar a ignorância.
Coleciona algarismos e letras.
Violenta a violência virulenta.
Reclama e clama, pudor e clamor.
Minha casca descasca.
Escamas colhidas no tempo.
Superfície rugosa, uso e abuso.
Pele inventada, improvisada lima.
Falta aprender e minha casca descasca.



terça-feira, 6 de maio de 2014

Da dor maior



A dor impulsiona.
A dor motiva.
A dor canalha.

Eu tenho uma coleção de dores.
Uma para cada dia da semana.
Uma para cada letra do alfabeto.

A dor inventa.
A dor enfrenta.
A dor navalha.

De todas as minhas dores há aquela maior.
Uma dor única para o dia de ontem.
Uma dor que o calendário não faz esquecer.













Cenários



Cenários não sentem.
É triste, é real.
Cenários são frios.
Vestem personagens como os despem.
Criam e destroem estradas.
Salas. Gabinetes. Alcovas.
Cenários são tintas.
Desenham sonhos.
Confundem olhos.
Iludem e enganam.
Cenários não vivem.

Como alguns homens.

Poemas de amor



Poemas de amor são raros.
Poemas de amor são caros.
São raros como é raro amar.
São caros como é caro amar.

Poemas de amor são mentiras rimadas.
Poemas de amor são mentiras métricas.
Poemas de amor são ensaios sobre a forma.
Poemas de amor são duros ossos do ofício.
Poemas de amor são luzes de artifício.

Poemas de amor são palavras fotografadas.
Poemas de amor são gravuras litografadas.
Poemas de amor são quadros de falsários.
Poemas de amor são carinhos desejáveis.
Poemas de amor são males necessários.








segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dias de medos



Dias de medos
Antes de acordar, depois de dormir.
Medo da covardia.
Da hipocrisia.
Da distensão muscular.
Da segunda intenção.
Das violências.
Das indecências.
Das incoerências.
Medo de sair de casa.
Medo de ficar quieto.
Medo morrer cedo.
Medo de morrer de medo.
Medo por mim e pelos outros.
Quanto medo.
Quantos medos.
Pavor. Pavores.
E por dentro da alma,
por dentro da emoção,
por dentro da janela fechada dos nossos dias,
invade o medo de falar.
Um medo apenas comparável ao medo de calar.
Dias de medo, dias de medos...