segunda-feira, 30 de junho de 2014

Bandeira, Manuel



Os novos sapos,
como os velhos,
enfunam os papos.

Nem a lavra,
nem larvas.

Nem a piedade,
Nem caridade.

Os novos sapos
não se engolem:
afogam-se na lagoa.


Um ou outro



Um ou outro fez da palavra
liberdade
enquanto o outro ruminava


Juninas



Uma hora de samba
é maior que um dia inteiro de mediocridade. 
Dois dedos de poesia
superam uma tonelada de manipulação.
Um sorriso de criança
desbanca toda uma quadrilha de imbecis.
Uma noite de amor
faz descansar a alma das sandices do mundo.
Mãos estendidas valem mais,
muito mais que punhos cerrados.
Trinta dias de junho e tanto aprendizado
que nem o frio desperdiçou...




segunda-feira, 23 de junho de 2014

Em resumo



Faz de conta que eu não vim
Mira o espelho e ri
Riso deboche escárnio
Ou aquilo que eu nunca vi
Faz de conta que eu já fui...


domingo, 15 de junho de 2014

Noites



A insônia alimenta a fantasia.
Distâncias curtas e encurtadas.
De Paris que nunca irei à Terra do Nunca de sempre.
Um trem sem trilho.
A câmera fotografa poros e suores.
O microscópio investiga a alma de aço.
Acendo as luzes, afasto a noite.
Não tenho medo do escuro.
Talvez da cidade-luz.


Tardes



A tarde que as sombras condenam longilíneas ao espaço ao horizonte lembra o desenho da gaiola na âmbula da ampulheta onde se guardam mágoas lembranças destinos respingos deslizes em forma de areias coloridas como minúsculos diamantes que escorrem pelos nossos dedos doridos pela anestesia do tempo.

Como se num verso não coubesse o infinito.


sábado, 14 de junho de 2014

Manhã



É a poesia que ronda e guarda
da manhã o brilho o antídoto
ao poente que a tarde virá,
sombras delineadas em azul
nos olhos do horizonte fulvo.
Que o veneno dos dias.
Que o rascunho do sentir.
Que a sacada do farol.
Que a coleção de deuses.
Que nada se compare ao amanhecer em paz.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Poema de prateleira



Tornam-se as palavras entornos
Vazam sílabas, sobram letras
Contornos de mensagens mal ajambradas
Poesia sem muito norte – nem sul
Talvez um ocidente, oriente talvez
Sem certezas nem sentenças
  • que nos falte a justiça
  • que nos falem os ausentes
  • que nos farte a mesa posta
Que das noites escuras o frio consola:
tens na pele a tatuagem da dor
tens na alma a masca indelével
amor, quem sabe amar
silhuetas desenhadas em crepom
frágeis, decorativas, flores ensaiadas
num teatro digital.
Que das noites frias o escuro esconde:
tens na alma a nódoa dorida
tens na pele os caminhos das unhas
amar, quem sabe amor
desfeitas rabiscadas a sangue
tristes, quietas, pedras esmerilhadas
num garimpo abismal.
Tudo não passa de um batismo.
Restam a água, o fogo, o santo espírito.
A pomba voa.
A vida vai.
O dia acaba.
O medo sai.
E um poema de prateleira insiste em vingar.
E um poema tece em crochê o viver e o voar.



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Das cercas



Em volta do meu terreno as cercas caíram.
Caíram pela ação da gravidade.
Desabaram graves e apaixonadas.
Por uma liberdade expressa em quedas.
Por uma liberdade entre a cerca o campo.
E sem as cercas há mudança.
Ainda indagação.
Ainda indignação.
Ainda indignidade.
Mas o campo está aberto em horizonte.
Um sorriso ganhou o tamanho da cerca.
Uma emoção vazou os olhos.
Sou capaz de caminhar.



terça-feira, 3 de junho de 2014

Uma palavra



Basta uma palavra e um mergulho
Voar no vazio cheio de luz
Basta uma palavra e um poema
Dilatar as pupilas e enxergar
Basta uma palavra e um gesto
Desvendar o íntimo e navegar
Basta uma palavra e um dia
Viver na corda bamba sem proteção nem medo


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Da amizade




          Em clima de comemorar aniversário. Uma festa em etapas. Quantas pessoas queridas deram parabéns. Desejaram saúde, felicidade, sucesso, amor. Passo pela vida colhendo amigos. Um ou outro desafeto também – é inevitável. Mas aos amigos, tudo. O carinho, a atenção, o passado e o presente, a solidariedade, o sorriso. Virtual e real. Virtual é real. Não existe amigo entre aspas. Amigo é amigo. Assim na Terra como no céu. Uns telefonam. Outros torpedeiam. Muitos estão em rede. Uns poucos mandam recados. E há aqueles que emanam seus fluidos pela lembrança: “pensei tanto em você esta semana...” Esta semana, estes dias, esta existência. Amigo é para sempre. Por isso, meus amigos, muito obrigado por tudo. Pelas horas, pelos dias, pela vida. E antes do meu dia de repousar em paz, curtam bastante estas linhas e exerçam o sacrossanto ministério da amizade, esse amor feito de nós, por nós e para nós.