quinta-feira, 31 de julho de 2014

Das levitações




encontramos o Nirvana
ao som do Nirvana

não somos originais, nem deixamos de ser
levitamos simplesmente

até você ocupar toda a cama e, eu,
flutuar no espaço enquanto você sonha...

Das consolações



Na catedral da Consolação
eu fiz minha primeira comunhão.
O telefone tinha seis algarismos.
52-9264.
Eu morava no primeiro andar.
Praça Marechal Deodoro, 439, apartamento 14.
Meu pai comprou um fusca 1966.
A placa era 33-14-58.
Parecia uma combinação.
Do 33-1964, telefone da livraria.
Com o 62-1458, telefone da tia Wanda.
A livraria do meu avô ficava na 7 de abril.
Número 264. 
Do segundo andar desceu para o subsolo.
Meu avô morreu em 1968.
No Correio tinha duas caixas postais.
Uma era 2786.
Meu padrinho era delegado e se matou em 1968.
Meu pai comprou um fusca 1966.
A placa era 33-14-58.
Parecia uma combinação.
Do 33-1964, telefone da livraria.
Com o 62-1458, telefone da tia Wanda.
Eu aprendi todas as dezenas e grupos do Bicho.
O meu preferido era o jacaré.
Com 57.
Não gostava do macaco. No 68.
Um dia chorei porque tirei 2 em matemática.
Nota vermelha. Mas me recuperei.
Meu irmão é dois anos mais novo que eu.
Nasci em 1960; ele, em 1962.
Ele também fez a primeira comunhão na igreja da Consolação.
Lembrar os números é uma consolação também.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Haikai do atrasado



No fim da festa, para mim,
Só sobrou
O amendoim


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dos amores



Plantei amores pela vida vividos
Queridos amores cultivados
Colecionei amores colecionados
Amores contados nos dedos
Paixões sem limites nem pudores
Amores apaixonados
Amores de todos os lados
De fora de dentro de esquerda e direita
De todo jeito do centro e sem direções
Esses amores bem vividos
Essas paixões tão paridas
Que vivi de cabo a rabo
Aos pedaços e por toda a vida


minimundo



estreito de Gibraltar
estreito de Bering
estreito de Magalhães
...
além da geografia
aquém dos homens
pessoas estreitas
cidades estreitas
mundos estreitos


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Haikai da curiosidade


pela fresta da saudade
não passa mentira
nem passa verdade


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Haikai no escuro


Não dorme nem acorda
seu tempo é dopado
seu sonho, apagado

De teias e de fios



Rasgam a pele os finos fios da navalha
aguda como o grito da morte
cheia de dor e de espasmos
-- bisturi das intervenções à mão, 
o prático costura teias com gemidos
tece o curativo de mentira
borrifa de gotas de meias-verdades
fecha a cicatriz com cuspe
e alimenta o cadáver com a promessa de um fio de nylon 
para pendurar o quadro na parede





Poema de vida e de morte



Você que afia a faca na minha pele
e borra os cortes com seus ácidos
Você que conhece as gorduras da minha alma
infladas pelas suas perguntas
Você que desfia os meus rosários
e desperdiça pelos ralos a minha fé
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que transtorna as engrenagens
que prendem os meus pensares
Você que se arranha com minhas unhas
para descobrir os meus limites
Você que desfila nos meus espelhos
as faces que eu nunca verei
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que vegeta entre os meus sonhos
em forma de fantasia
Você que ofende os meus mais íntimos
pudores -- aqueles que te fazem rir
Você que coloca pontos finais
onde deveriam existir aspas
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que se desfaz em peças
e quebra minha cabeça
Você que atravessa as avenidas
das minhas vias urinárias
Você que assopra o carvão
da menina dos meus olhos
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que alimenta a insônia
quando o sono me encanta
Você que escorre lágrimas
onde a água deveria ser doce
Você que enfileira pedras
em nome dos meus caminhos
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que a bússola dos meus pontos cardeais
entontece
Você que joga o jogo que eu perco
indigno limítrofe insosso óbice
Você que quebra os meus versos
e demole a minha sintaxe
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que afunila as emoções que
eu deixo para trás
Você que desinfeta o arcoíris
em nome da minha ausência de cor
Você que ensaia o grito e cala
até o silêncio me roer
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que destina a noite ao
meu inventário
Você que rasga o passaporte 
que eu guardo virgem na gaveta
Você que ultrapassa a razão
deixada na caixa do correio
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que entende de me 
desentender
Você que afeta a carne flácida
da vegetariana dieta que me acode
Você que gruda no vidro
e não respira para me iludir
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que guarda flores para
o meu vaso quebrado
Você que torneia a algema
e os pulsos da minha prisão
Você que suga o leite
das mais puras vacas da minha Índia
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que me guarda no bolso
externo das tuas garras
Você que afoga meus medos
em livros e teses e teorias
Você que tranca no escuro meus dedos
fechados na porta da taquicardia
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?

Você que queima no fogão
os curativos da minha vida
Você que forma na forja
as emendas do meu caráter
Você que gela nos olhos
as lentes dos meus dias
Você que vive a minha vida
Você morre a minha morte?


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Da inconsistência dos dados



Estatisticamente 
nós dois comemos meia maçã
-- mas a tua gula foi maior,
e eu, que nada mordi, incauto,
ainda levo a culpa do pecado
(além da conta do supermercado).

terça-feira, 15 de julho de 2014

Tribais



Pajelanças adjetivas embebem meu corpo
Danço no ritmo da natureza
Fecho os olhos ao tempo
Trago comigo o índio e a floresta
Cercas matas cipoais bambus torres
Senado de feras e canibais
Brado tarde ou cedo 
os mais primitivos apelos tribais

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Haikai soltinho



Liberdade, essa mocinha,
abre as asas
e voa feito galinha

Haikai tolinho




Não era que fosse saidinho
caiam-lhe risos às costas
feito bosta de passarinho

Da solidão que não



A solidão que não sou dita regras que não sigo.

Guardo o orgulho para não morrer de vergonha.
Ajunto pedras e teço histórias.
Poetar é resistir. É insistir com mantras. 
É viver sem paz em paz.

A solidão que não sinto grita sons que não solto.

Guardo distância para não morrer de tédio.
Ajunto notas e rimo canções.
Cantar é ritual. É soltar a amarra.
É tocar os céus em claves de sóis.

A solidão que não tenho vibra o poema que não abro mão.

Guardo uma teimosia danada e um ponto sem final.