quarta-feira, 27 de agosto de 2014

dos óculos escuros



cegueira opção,
seus olhos nunca usaram lágrimas
-- apenas rímel

silêncio ruído,
seus lábios dispensaram a verdade
-- só, não, o batom

quisera doar meus óculos escuros
apenas para olhar o sol escondido
entre suas noites,
não fosse a pergunta insônia:
para que, para que, para que...


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lona. Três. Um.



Como se não houvesse fim,
deu-me fugaz esperança
a insistência da cólica renal.

Vou viver analgésico
para evitar rimas pobres.

Vou virar pedagógico
para irritar os doutos.

Vou viver peripatético
para te levar ao dicionário.

E assim, 
com as dores no rim
-- esquerdo, é claro --
meu lado gauche e, 
sem modéstia, bonito,
assisto Vinicius, Drummond,
Quintana e Bandeira
jogarem palitinho
num infinito.


Da poemática




Calculei mal
estas mas traçadas
linhas

Se escrevo um
haikai
morro cedo

Se metrifico uma
quadra
sobra espaço

Se arrisco um
decálogo
falta poesia

Se rascunho um
soneto
não termino

Se deixo correr solto um
poema práxis
posso falar

Se enumero odes e
cantos
perco as contas

Se me liberta a
forma
sai o desabalado

Se deixo correr solta uma
poesia
se esvai

Se tomo todas
medidas
desperdício

Se apenas pareio as
rimas
é ofício

Daí, no inventário
da poemática,
abri mão das Ciências,
abonei as teorias
e usei da Gramática,
sem fim, as reticências...


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Haikai pensativo



É cruel:
se escrevesse o que penso
não ia pro céu.


Haikai vingativo



Eu gosto de números ímpares
Também das mulheres ímpares
A monogamia dos pares entedia


Xilogravura



Peço licença
ao casal de namorados que passeia na gravura
para fechar um ciclo:
o amor vale a pena.

Volver



Volver não é voltar,
mas amar
com os olhos
o avesso do tempo
no caleidoscópio.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Haikai profético



Tão pobre minha cultura
que de dia assistia na televisão
a visão que à noite eu chamava loucura


Amanhã



A minha loucura
nem chega aos pés
da sua correta conduta.

Mas, cuidado:
eu sou a minhoca
que afofa o chão que pisará...




Haikai matinal



Ficou desolado
quando abriu o velho poema
embolorado


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Haikai matreiro



Parecia ignorância
quando sentenciava:
_Não tem importância...




Haikai falaz



Que paciência tem o Buda
Jó tem paciência
Jó é Buda


Deram as mãos em despedida



Passaram a noite em claro.
Sem risos nem exageros.
Se fossem um bom samba saberiam.
Daí, preferiram o bolero.
Ser drama é ser real.
A nossa tragédia é a vossa.
Entende a velha bossa?
Esqueceram a letra.
Cantarolaram o refrão.
Cantarolaram o refrão.
Cantarolaram o refrão.
Cantarolaram o refrão.

Quando o sol surgiu,
eram só mais uma canção de amor.


A sala



O iChing colocou: 
São Jorge guerreiro para proteger o flanco leste

Nem o sul, nem o norte,
nem o poente se desguardaram.

Sou um tapete velho
cercado de lendas por todos os lados.

A infância quebra a vaidade.
A fé enfrenta o desconhecido.
A natureza morta e o preto&branco vida.

E no canto da sala um trono vazio,
à espera dos meus fantasmas.


Felicidades



A felicidade escala o monte
a cantar

Se rolam pedras
Se escorrem lavas
Se derretem neves
Se gelam picos
Se faltam ares

A felicidade escala o monte
a cantar


domingo, 17 de agosto de 2014

Haikai de novo



É tão simples
que corrói:
morrer não dói.


Haikai sem eira



O risco do lápis no papel
é música
para as mais perfeitas dores


Haikai deformado



Bocejo e a insônia ri.
Segue a vida:
quem ri por último, melhor ri.

Haikai irritado



Se aqui jaz, 
caralho:
me deixe em paz


Haikai afiado


Enquanto houver grafite,
não me irrite:
eu posso apagar suas linhas


sábado, 16 de agosto de 2014

Haikai trilegal


Eu gosto dos números ímpares
Eu gosto dos seres ímpares.
A monotonia dos pares entedia.


Poema grave



Quisera ter a força para extrair todas as palavras que guerreiam em minha cabeça insone.

Palavras ou espermas? Uma entre milhões. Outra.

Quisera também afastar as dores do meu corpo.

Alma e carne não me deixam dormir nem morrer.

Quisera contar com a insanidade dos gênios e tirar das lições ações libertárias e libertinas.

A loucura e a genialidade, tão inconsequentes.

Quisera romper o dia em poemas para não perecer à mediocridade dos normais.

Ser normal é ser chato. Toda chatice é mortal. Ser normal é mortal.

Quisera trocar as letras de lugar para descobrir palavras que só digam a mim.

Não, não quero ensinar as teorias da comunicação. Não falo alemão.

Quisera atravessar da noite à aurora águia a voar tão alto que lua e sol se me mostrassem.

A força da águia está no planar acima da vida. A força da águia não é seu ataque mas sua visão.

Quisera plantio sem sementes e as ervas sem raízes. Rever a criação e criar mais trepadeiras.

Olho por sobre o muro. Faço disso séculos. Torturo as dúvidas.

Quisera então trocar certezas por cantigas. Meus teus nossos vossos ouvidos disso precisam.

E sem tropeçar na calada da noite nem deixar de lado a humildade, escrever até o fim do lápis.

Quisera escrever a lápis, sim, e depois passar a sujo. Que belas nuvens escolherei.

Por mares nunca dantes. Sem pudor. Com Cervantes. Runas e Kant. Clark Kent. Ghandi e Madre Teresa. Os três porquinhos. E mosqueteiros. Deus. Pais e Filhos. Quasímodo e Casanova. Fellini e Tornatore. Jim da Selvas. Gim tônica. Papai e mamãe. Camillo e Peppone. El Cid. Dolores Duran e Assis Valente. Noel e Aracy. O espantalho, o leão e o homem de lata. Oz. Eu tu ele. Nós. Cada um tem sua lista. Cada um tem sua morte.

Quisera morrer eu.




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A vida líquida



A vida flui
A vida corre
A vida transborda
A vida extravasa
A vida além do reservatório
A vida em vasos comunicantes
A vida e seu empuxo
A vida em seus humores
A vida licorosa
A vida etílica
A vida marinha
A vida navega
A vida chove
A vida oceano
A vida fluvial
A vida rio
A vida pluvial
A vida chove
A vida baba
A vida escorre
A vida jorra
A vida chora
A vida lágrima
A vida espirra
A vida copo
A vida jarra
A vida engarrafada
A vida suco
A vida leite
A vida alimento
A vida remédio
A vida veneno
A vida quente
A vida ferve
A vida evapora...



Coração poliedro (para Luís Avelima)



Embaixo, em cima
Em todos os lados,
Em todos os ângulos,
Tem um cantinho nosso
No coração do Avelima




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Diversidades


de todas as cores
de todas as formas
de todos perfumes
de todas as rotas
de todos os gostos
de todos os gestos
de todas as famas
de todas as fomes
de todos os tipos
de todos modelos
de todas as roupas
de todos os selos
de todos os sons
de todas as portas
de todos caminhos
de todos os cortes
de todas imagens
de todas as rinhas
de todos os pontos
de todas as linhas
de todas as tortas
de todas as retas
de todos sabores
de todos desejos
de todas comédias
de todos os dramas
de todas certezas
de todos os reinos
de todos planestas
de todas estrelas
de todos os rios
de todos os mares
de todos os ares
de todas as marés
de todos os portos
de todas as ilhas
de todos os risos
de todas paixões
de todos os copos
de todas as ruas
de todos os corpos
de todas as vilas
de todos os números
de todos tamanhos
de todas medidas
de todas as leis
de todos os méis
de todos milréis
de todas as sortes
de todas fortunas
de todos os olhos
de todas as bocas
de todos os toques
de todas palavras
de todos os tempos
de todas idades
de todos os cantos
diversidades

domingo, 3 de agosto de 2014

Dos heróis




havíamos credos
e certas mandingas
assim éramos heróis
de nossas lendas
pouco era preciso
era preciso ousar
era preciso fé
era preciso o olhar e a bússola
era preciso
um cenário um deserto
uma nave uma coxia
uma floresta um trem
uma ilha um bordel
um apartamento uma cela
uma igreja uma estrada
um planeta uma estrela
uma praia um cenário
era preciso coragem
e havíamos heróis

às vezes




às vezes a nossa praia é onde o barco encalha
às vezes a nossa mochila é a própria tralha
às vezes a nossa vitória é fruto da nossa falha 


Das histórias de amor



Invento frases como invento histórias.
Conto com a gramática, a sintaxe, o vocabulário.
Trago peças da memória sem pudor.
Muito me vale a experiência,
mas vale muito mais a imaginação,
essa mentira de plantão que imita a vida.
As histórias de amor são plágios.
Copio algumas delas para aprender a amar.
Sem sucesso. 
As histórias de amor são trágicas.
Com mais um pouco de dor escreveria comédias.