sábado, 20 de setembro de 2014

Das necessidades primárias



Sem paixão
a vida limita-se ao calendário.
Por isso, ceda.
Cedo ou tarde.
Mas ceda.
Ceder é amar o risco.
Vencer o medo.
Brindar ao improvável.
O resto é comer, beber, vestir.
Apaixonar é resistir.


De uma insônia impecável



Não durmo pois resisto
aos moinhos de vento
e aos cavaleiros do apocalipse:
a minha impecável insônia
deflagra a versão
detona a mentira
destila em risos
o que o pranto desconsidera.

A minha insônia é a mais lúcida
das minhas verdades.



Dá língua



A minha língua
é a língua minha
a língua que pede amor
a língua que clama justiça
a língua que brada o novo
a língua que soletra liberdade
a língua que ora pela humanidade
a língua dos seres humanos
a língua que se engana, se engana
a língua que erra e corrige
a língua que pede perdão e perdoa
a língua que xinga à toa
a língua que não aceita censura
a língua que desperta pura
a língua que dorme em paz
a língua da ética, da moral e dos bons costumes
a língua do doce e dos azedumes
a língua da prosa, do verso, das cantigas entoadas
a língua das belas palavras enamorada
a língua do protesto imaculado dos conscientes
a língua que percorre o sexo dos inocentes
a língua que discorre os teoremas dos filósofos
a língua que se acende com palitos de fósforos
a língua que incendeia e que afaga o fogo
a língua destemida dos ilustres desconhecidos
a língua dos alfabetizados e dos analfabetos
a língua do pensamento em forma de razão
a língua que desafia o tempo
a língua dos desatinados de todos os tempos
a minha língua é a tua língua
a língua que se enrosca deliciosa
a língua que desafoga os desaforos
a língua do hino, do lema, do desabafo
a língua que nenhuma conduta abafa
a língua que derruba preconceitos
a língua que desaponta os defeitos
a língua que pede com humildade
a língua dos destemidos
a língua dos desvalidos
a língua dos desavisados
a minha língua 
é a tua língua
e assim falamos a mesma língua
a língua do nosso existir
a língua da nossa história
a língua da nossa intransigência
a língua das nossas penitências
a língua da nossa insistência
a língua do nosso persistir



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Da história do mundo

da história do mundo



no princípio era o caos
e as criações vinham aos borbotões
a ordem a luz o dia as criaturas
bactérias peixes répteis aves mamíferos poetas
e as criações vinham aos borbotões
enquanto os poetas, os profetas e os cristãos
eram jogados aos leões
a treva o escárnio as ditaduras
poetas mamíferos avez répteis peixes bactérias
desenharam na parede da caverna
os primeiros sóis da história
os definitivos riscos de liberdade



catedrais e mausoléus



são pedras sobre pedras
pedras que cobrem a vida
pedras que cobram a morte
são torres e orações
orações e portais
portais e ladainhas
ladainhas e capitéis
capitéis e amém-senhor
amém, amém
de catedrais para nossa história
a mausoléus de nossas glórias

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Da notícia



deu no jornal falado
que me viram ao teu lado
puro mexerico
do zelo amigo alheio
não há mentira no invisível
assim, quem viu -- não viu
quem disse -- não disse
quem foi -- não foi
nem é...
deu no jornal escrito
que o mexerico de ontem 
era apenas o horóscopo do dia


do alimento, dos elementos



elementar
fogo água terra e ar
a alimentar
a criação do poema:
a seiva que teu rio escorre
risca o mapa da minha procura
-- enquanto a lâmpada se apaga
no escuro brilha nua imagem tua


Dos desvios



de caráter e de caminhos
os desvios 
do jeito que vem, vão
e ninguém os toma impune
nem os lamenta idos

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Fantasmas



Manchas brancas perseguem meus olhos
Choro -- e nada muda
Fico mudo -- e nada muda
Rezo -- e nada muda
Penso em ir a Paris -- e nada muda
Não, não irei a Paris -- e nada muda
Perco o sono, perco a noite, perco a paz -- e nada muda
Peço perdão -- e nada muda
Peço arrego -- e nada muda
Peço a morte -- e nada muda
As manchas brancas mudam meus olhos...


sábado, 6 de setembro de 2014

Dos espelhos



Espelhos baratos, de barbas malfeitas.
Espelhos ralos, de bordas ferrugem.
Espelhos velhos, de quadros gastos.
Espelhos tristes, de tristes fatos.
Nem percebem, esses espelhos,
Que as rugas que esparramam
Sequer espelham o rito que as estampam.
Pois a ruga do riso é o espelho da alma
Que na vida abre mão da velha imagem.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Encantado



Ando encantado pela vida.
Traços de felicidade me fazem bem.
A sorte me faz sorrir.
O sorriso atesta a fortuna.
Os olhos brilham paz.
A mão se dá a dar.
Os pés andam nus.
A nudez da alma.
Gestos e atitudes me seduzem.
Amigos me alimentam.
Amor me embriaga.
Dedos batucam em qualquer superfície.
Ilhas são notícias a se explorar.
Sabor é desejo e desejar, saboroso.
A natureza me acolhe.
O frio, encolhe.
A vida, escolhe.
E eu anda encantado com ela...