quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Desorganismo


tento consertar daqui
tento arrumar acolá
e quanto mais eu tento,
mais cismo:
não tem jeito
esse meu
desorganismo...


Rituais



Canja de galinha e água fresca.
Patuás e reza forte.
Uma galinha morta, uma cidra aberta.
Uma cidade aberta.
A ferradura sobre a porta.
Velas e cores, um maço de flores.
Sempre a mesma ladainha.
Uma loa e um salve-rainha.
Sempre o mesmo ritual.
Um banho de vida regado a sal...


Outros contextos



Fiquei devendo um samba e
uma pequena lembrança.
Pois as grandes recordações
deixei ao largo.
Fosse inventário, seria pouco.
Fosse bula, não seria remédio.
Era um poema sem despedidas.
Ficaram mais sombras que luzes,
mais tédio que flores,
mais letras que música.
Era outro contexto.



Em volta



A roda gigante não roda.
Em volta, um vazio cheio de mar.
Mas a roda gigante não gira.
Em volta, uma noite sem estrelas.
A roda gigante não vive.
Em volta, um triste sonho de criança...


Nunca mais



Antes é muito maior que nunca mais.
Havia vida.
Havia história.
Havia a glória dos heróis ocasionais.
Havia amores.
Havia erros.
Havia paz.
Havia um álbum de fotografias.
Havia uma tarde no museu.
Havia a magia dos iguais.
Havia rumo.
Havia prumo.
Havia razões emocionais.
Por isso vivo o presente.
Por isso a hora é esta.
Antes é muito maior que nunca mais.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Telephone



Um tele-fone de ouvido
Sussurrou que entre você e mim
Tem uma cola tão cola
Que onde começo, você é fim



Palabras



Ayer me deste um bolero 
Quase tanto quanto um tango
Minha imaginação bailou contigo
Contigo aprendi, quizás
Que se a gente não corre
O monstro corre atrás


Saideira



Tem samba tem salsa tem rumba tem batida
Tem gente bonita que bota a gente pra cantar
Tem rum tem cachaça tem gim tem rodada
Tem sorrisos e nem pesadelo vez tem 
Tem sonhos realizados depois das doze badaladas
Tem histórias para virar a noite
Tem noites para entrar pra história
Tem tudo regado a gente de primeira
Nem tem como pedir saideira...



Poema cansado



Aos dois de outubro de dois mil e catorze
parei meia hora para confessar
um poema cansado.
Pois a poesia é força, é energia,
vitalidade e palavra.
Enquanto o poema cansado é sorriso.
O poema cansado tem dor nas costas
e pernas inchadas.
Os músculos atrofiados que o cantem.
O poema cansado é espinha dorsal.
Dobra e não quebra o poema cansado.
Não fez plástica nem aplicações.
Não se aposentou nem pretende.
O poema cansado é resiliência.
Corre os olhos pelos quartos, pela sala, por todos
os cômodos e incômodos que vagam na casa,
o poema cansado corre assim seus olhos.
Encontra milímetros de solidão e quilômetros de dúvidas.
Cansado, o poema poema recolhe o pó debaixo do tapete
como se juntasse as cinzas do seu próprio inventário.
O poema cansado não tem revisão.
O poema cansado é sorriso - e insiste em ser.
O poema cansado brinca com as crianças
que ainda sabem brincar.
_Poema doido - diz um deles.
Poema doído.
Mas sem revisão, pode ser doido a vontade, o poema cansado.
O poema cansado ama.
Ama a calma que o ama.
Ama o silêncio que o ama.
Ama a partida que o ama.
O poema cansado é sorriso.
E parte para ser mais. Mais. 
Mais.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Outubros



Os anos passam por outubros.
Agosto se foi.
Setembro, também.
Ao colecionar outubros, 
resta uma preguiça e uma pitada de sal grosso.
São Jorge me guarda.
Francisco me abençoa.
Judas Tadeu me acompanha.
Bento me protege.
São assim, santos de todos os santos,
até os santos outubros.
Com uma pitada de sal grosso
e vontade de chorar sozinho.


Outros dias



Uns dias saudades.
Outros dias.
Uns dias memórias.
Outros dias.
Uns dias fumaças.
Outros dias.
É como se eu fizesse crochê com os dias.
Outros diriam: assim, assim...



Dos fortes



Guarnecer o porto.
Fazer frente ao inimigo.
Bloquear a entrada.
Evitar a evasão.
Como são fortes os fortes.
Acho que nem se apaixonam...


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Habanera IX



Crianças fazem fila e ginástica.
Velhos sentam em bancos e sombras.
Homens e mulheres vão e vem.
Olho para o espelho.
O passado, o futuro, o presente.
Vim. Vou. Venho. 
Insistentemente.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Habanera VIII



O sangue anota notas na pauta do dia.
Cantigas de amores rubros.
Antigas canções desbotadas.
Emoções mergulhadas em vinagre.
Amargo, o mar se quebra em pedras duras.
Como a vida.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Habanera VII



Um naco do seu horizonte intervém.
Marés nos levam e trazem.
Desenho letras em suas costas com unhas afiadas.
Chamo poesia. Chamas poente.
Não clamo justiça nem reclamo cicatriz.
Seu lado cidade me ama. E eu amo sua face atriz.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Habanera VI



Medidas e pesos não se rendem.
Uma lua não se mede em fases.
Pode ser Clara -- como a Santa.
Pode ser santa -- como Tereza.
Nem o sol se queima por graus.
Pode ser santo -- como Francisco.
Pode ser franco -- como um destino.
O dia nos abençoa em rumos.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Habanera V




Poesia por poesia, faço das minhas.
Caminho pela calçada distraído.
Não há limites para reticências.
A vida vale a pena.
Amar vale a pena.
Um ideal vale a pena.
Com tanto mar, nem me faço ilha.
Sou um continente inteiro.

Habanera IV



Há sorrisos nas poças que a chuva deixou.
Há um cheiro de maresia que embala idéias.
Há uma certa rebeldia que insiste em ser arte.
Há um viajante que chega e parte.
Há uma vaga lembrança do que não importa.
Há uma boa tranca na porta.
Há um dia inteiro para se viver.
E, em caso de incêndio, há um vidro a se quebrar.
Havana.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Habanera III



Um farol rasga branco o céu azul-gráfico.
Qual a luz que te guia?
Qual o sonho que persegue?
Qual a dor te destina?
Palavras fortes te comovem.
Notais musicais te movem.
Rasga o mar com tua voz e segue,
navegante de tantos rumos e tão poucas certezas...


Habanera II



Pois o sol se pôs.
Vermelho.
Forte.
Quente.
Caribenho.
Sagaz.
A certeza de que, amanhã,
tem mais.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Habanera



Ameias que guardaram olhos
e corsários.
O horizonte é um forte.
O passado é um forte.
O futuro é um forte.
A noite faz-se em canções.
E a música vaza os torreões.


Jejum


Não tenho fome.

Não tenho sede.
Não tenho sim.
Não tenho não.
E de tanto não ter,
não tenho medo.
Tenham vocês.



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dos temperos e dos destemperos




Uso açafrão no molho de tomate.
Esse, o meu segredo.
Abro meu livro de receitas tal qual abro minha história.
Saborosamente descombinando sabores.
Eis o destempero.
A prática do prazer ensina.
O resto é lição de casa.
Os tomates devem estar pelados -- pelado é mais gostoso.
Bem recebidos pelo azeite de oliva e pouco,
bem pouco, alho e cebola nele dourados.
Um mergulho acidental que respinga risos.
Não uso sal. Nem açúcar. 
Uma folha de louro. 
Uma colher de mostarda -- se escura, melhor.
Mexer, sempre.
O fogo, brando.
Um pouco de água para não engrossar de vez.
Assim, o poema vira molho.
E a gula deixa de ser pecado para virar paixão.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Das distâncias



O plural que nos aproxima
nos afasta.
O perto é distante.
O fácil é complexo.
O sempre nunca é.
As horas não vencem o relógio.
A máquina de fazer homens não gera.
O advérbio desqualifica o verbo.
Bastam lamento aos fracos.
Bastam agruras aos pobres de espírito.
Bastam juras aos amantes.
As fórmulas decoradas amargam a matemática.
Na aritmética nos somamos.
Na geografia nos perdemos.
Há mistérios e há vã filosofia.
E enquanto a minha reação química aguarda a sua biologia
as distâncias se encontram feito coordenadas.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

contextos



Uma ilha é uma ilha.
O mar é contexto.
Um homem é uma ilha.
O mar é contexto.
A palavra é uma ilha.
O mar é contexto.

Entre o continente e a ilha
o espaço-homem alcança o mar
e a palavra cria o novo contexto.