quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Daqui a pouco



Feliz ano novo no meu universo.
O amor é chocolate derretido.
A simplicidade é presente sem embrulho.
A vigésima quinta hora no horário de verão.
Era o ano passado. É no ano que vem.
Que a escola vença a esmola.
Que a luz seja maior que a treva.
Que o perdão assim seja.
Que a atitude venha incondicional.
Que a coragem grite e o medo cale.
Que o poema cante e a música fale.
Daqui a pouco tudo é novo e nada muda.
Daqui a pouco desenroscamos o gesto.
Daqui a pouco temos um outro lutar.
Daqui a pouco a semente brota flor.
A felicidade é verdade sem entulho.



Da noite




A força do sangue que infla as veias.
A rima que não se quis.
A mulher dorme amada.
O medo e a insistência convivem.
A dor de dente, a dor de ouvido, a dor da consciência.
O momento e o eterno encontro.
A lembrança de um dia inteiro.
O riso da criança que corre.
O mais belo dos filmes mudos.
O teatro e seu absurdo.
A melodia que embala o sono.
O certo e o duvidoso.
O pássaro na mão e dois voando.
O roto e o esfarrapado em suas nudez.
O pecador que se fez.
A vaca sagrada e o sacrifício do esquecimento.
O remendo no calendário chinês.
A hora errada e os ponteiros retos.
A sutil incoerência que se disse.
O ponto de exclamação expurgou-se.
A figura a lenda a heroína da história se foi.
O duto que leva pensamentos.
A mal traçada linha e os trilhos paralelos.
Os paralelos e os meridianos.
O ponto cardeal e seus ideais.
A lista de pendências e o cientista se abusam.
O bom humor e o bom amor.
O calor e o ar condicionado.
A justiça cega e o juiz togado.
A solidez das ações.
A liquidez das atitudes.
A sordidez da comparação.
O sonho.
A noite.
O verão.


De homens e de valores




Vale ensinar e então valem mestres
-- seus nomes escritos nas pedras,
nas lousas, nos quadros negros da memória.
Vale escrever e então valem escrituras
-- suas letras brincam com as notas
nos hinos, na poesia que virou música.
Vale trabalhar e então valem operários
-- suas obras erguidas aos céus,
catedrais, edifícios de portas largas e janelas opacas.
Vale sonhar e então valem sonhadores
-- sua luta desmedida, a medida certa
da luta e do medo, da fé e do credo.
Mestres, cantores, operários e sonhadores.
Os homens e as mulheres e os valores.



Dos tempos



Do tempo de plantar plantamos
Do tempo de brigar brigamos
Do tempo de voar voamos
Do tempo de calar calamos
Do tempo de gritar gritamos
Do tempo de planar planamos
Do tempo de lembrar lembramos
Do tempo de cantar cantamos
Do tempo de levar levamos
Do tempo de teimar teimamos
Do tempo de cavar cavamos
Do tempo de lutar lutamos
Do tempo de mudar mudamos

Da mediocridade



Menos luz
e quanto mais escuro
menos vejo
e quanto menos vejo
mais escuto
e quanto mais escuto
menos entendo
e quanto menos espero
menos luz
e quanto mais sombra
menos lembro
e quanto mais esqueço
menos pessoas
e quanto mais filtro
mais peso
e quanto menos leveza
menos mesmos
e quanto mais tanto
menos mais
e quanto menos sei
tanto faz...



Haikai rebelde



Por medo de não acordar
É melhor morrer de insônia
Do que de covardia


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Das novas



Como por um teletipo
tipo isso
as notícias correm o mundo
planeta azul
redondo e achatado nos polos
e o que era sobrenatural
naturalmente virou folha de caderno
a pauta o espiral a capa dura
o ginásio o colégio a faculdade
e o que era moderno
modernamente virou peça de museu
-- como é real ver as peças da infância no antiquário --
e o tempo não ensina
o tempo não é professor
o tempo faz sua parte
e passa
como passam as fumaças do cigarro...




Apenas dezembro



Apenas dezembro
e o calor do verão
queima a noite
feito morte,
a cremação do sonho
na chama do vazio.


Insinuações



Houvera verdade, ou não.
Era e não era, ou não.
A dor então fora escolha.
O parto então fora natural.
Escolhas.
Houvera cordão, ou não.
Era e não era, ou nó.
O nascer então fora outro.
A porta então fora aberta.
O colher das horas faz
do caminho a própria pedra,
da emoção o espelho quebrado,
do motivo a razão que se perdeu.

Haikai imperdoável



Se o poema perdoa
a dúvida,
sem dúvida, abençoa


Haikai pelado



Eu estou nu e nem sou rei.
Eu, nu.
Eu sei.


Antes que o vento venha



A vela crepita
A estrela cai
A aflição prova
A medida vaza
A fé falha
A forca afrouxa
A mão afaga
A força aperta
A vida vai
antes que o vento venha



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Verdamarelo



Ganhei de presente de Natal
da minha mãe Natureza
um florir amarelo sobre as copas verdes
que entre o azul dos céus e uma e outra
branca nuvem de algodão ou paz
desenharam no espaço
a bandeira do meu país das maravilhas
a esperança duma nação inteira de integridade
verdamarelo pendão de um povo de verdade

Dos meios dias


Há uma meia noite
entre o meu alvorecer
e o teu anoitecer


Entre o meu saber

e o teu ignorar
há uma meia mentira


Há um meio dia

entre o sol que me ilumina
e a lua do teu eclipse


Em verdade, verdade

entre nós o abismo 
é o condão que nos equilibra


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Das tripas



Intestino destino
do insólito ao vulgar
da ação à letargia
do cansaço ao arrepiado
da pirambeira ao curso do rio
do introito ao epílogo
da fotografia ao cinema
do insensível à emoção
das tripas, coração


Naquele tempo



Naquele tempo os homens tinham bem menos informações.
Naquele tempo não havia máquinas a vapor nem impressoras.
Naquele tempo as vestes eram simples e sem estilo.
Naquele tempo havia tribos e olho por olho, dente por dente.
Naquele tempo as tradições eram a rotina e a rotina era tradição.
Naquele tempo as guerras já existiam.
Naquele tempo perseguiam-se homens pelas suas origens.
Naquele tempo tinha um mundo a se descobrir.
Naquele tempo o horizonte era aventura.
Naquele tempo houve uma estrela.
Naquele tempo, ouro, incenso e mirra.
Naquele tempo o Menino nasceu.
Naquele tempo a vida mudou em amor e em paz.
Traz, Menino Jesus, aquele tempo para dentro de nós.
Por todos os tempos.



(aos meus amigos, tantos e tão amigos, 
Feliz Natal - como naquele tempo)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Nunca dantes



Fotografo barcos.
Fotografo oceanos.
Fotografo ondas.
Fotografo e mergulho por mares nunca dantes.

Do viver




Como é difícil ser eu mesmo.
Não me encontro.
Perco-me.
Procuro.
Deixo as asas arriadas e o pensamento contido.
Os cabelos rebeldes e a rebeldia nua.
Sem começo nem fim, procuro meios.
Equilíbrios.
Cordas-bambas.
O circo. O círculo. O circuito.
Falta um ponto na linha da vida.
Procuro luz. Encontro sombra.
A sombra nasce da luz.
O que está por trás de minhas perdas?
Qual a pedra do meu caminho?
Divago. Divirjo. Dirijo.
Há um sentido a seguir.
Há um sentido a sentir.
E entre a lágrima acre e o sorrir sem-jeito, navego.
Na vaga sensação do vazio viver.




domingo, 7 de dezembro de 2014

caixa d'água


onde se guardam emoções
também se guardam dores
insípidas inodoras incolores
umas e outras
vasos comunicantes
fios leitos lagos reservatórios
lágrimas lágrimas lágrimas
águas sanitárias do sentir
correm na corredeira
a triste tristeza 
e a verdadeira razão
dos nossos laços líquidos
das nossas margens plácidas
dos nossos mais profundos poços
e dos rarefeitos amores
aéreos feito vapor.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Libertas


rabisco silêncios e segredos
– pior que a presa acovardada
é a liberdade capturada –
se tuas retinas não retém
a melodia que não fiz,
que dizer dos segredos
que contar dos silêncios
que lamentos restarão
de tua fuga rumo à prisão?