terça-feira, 31 de março de 2015

Nascente



É onde a força brota.
É mais que coragem. 
É fé.
São dias inteiros de dor.
Um dia de perda.
Um dia de fome.
Um dia vazio.
Um dia morto.
São dias inteiros de batalhas.
A tua luta, a minha luta.
Nascente é onde brota a resistência
límpida da nossa pureza.

Quando



E quando a palavra não vier.
E na ladeira que a vida empacar.
E no momento que a voz sumir.
E na frente do espelho ao embaçar.
E a imagem tremer.
E a vontade falhar.
E o desejo minguar.
E a magia se abrir.
E a máquina romper.
E a estrutura ruir.
E o sonho acordar.
E a corda roer.
É quando a poesia dormir,
o poema desmontar,
o poeta desistir.



Fotogramas



Silhuetas brincam de horizontes.
Esquinas se fazem de avenidas.
Notas travestidas de manchetes.
Alfinetes cosem como agulhas.
Figurantes, dublês, manés.
Carne louca para ser filé.
Fulanos ou Beltranos ou Sicranos.
Hipocrisia às pencas, dúzias de bananas nanicas.
Há quem tenha nascido para aratuta.
Há quem perca a conta da quitanda.
A lembrança bem longe da memória.
Janelas abertas para o nada.
O mundo nem é tão grande assim...

De dores e de cruzes



Cruzes marcam.
Dores marcam.
Da via sacra à cicatriz.
Das nossas paixões.
Dos credos, dos medos.
Dos dedos com que tratamos
dos mais delicados assuntos.
Das delicadezas que destinamos
às mais torpes mentiras.
Dores marcam.
Cruzes marcam.
E nem nos quebram a dignidade.


segunda-feira, 30 de março de 2015

Lua do cerrado



A lua do cerrado guarda São Jorge.
São Jorge guarda a lua do cerrado.
E nesses papéis trocados, invertidos,
inventados, cúmplices e amigos,
nesse vai-e-vem santo e lunar,
junto vão as nossas tristezas,
as incertezas, o desespero,
a indignação, 
o grito silente contra a soberba,
a lança que alcança
o dragão
da nossa dimensão absoluta,
da nossa humilde conduta,
da nossa incansável luta e
das nossas preces captadas ao luar.


Da luz captada



Da luz captada ao escuro.
A história de contrastes.
A história não tem dono.
A história secular.
A história de ontem, quiçá, de amanhã.
A história dos olhos e da luz.
Captada.
Cooptada à verdade.
A luz revela a ausência.
A luz amplia o sentido.
A luz agita o ser.
A luz alimenta.
A luz abençoa.
E feito lente, 
o olhar guarda na memória
a luz da história.
A luz que não tem dono,
nem retoque.


Da vi(n)da



A vida vinha vindo.
A vida não veio.
O destino tem atalhos.
Faz do tempo, brinquedo.
Da espera, pacto.
Do parto, partida.
A vida não veio. E foi.
Para onde vai a vida,
quando a vida
-- simplesmente --
não vem.
O destino tem atalhos.
Faz do medo, brinquedo.
Da ausência, pacto.
Do porto, partida.
Caminho de volta à volta da vida.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Das cores


Da cor da vida.
Da cor do estranho.
Da cor do cobre. 
Do estanho.
Dourado.
Da cor natural.
Da cor de vinho.
Escarlate.
Da cor do chocolate.
Magenta. Ciano. Amarelo.
E preto.
Da furta-cor.
Do arco-íris.
Cor de verdade.
Da cor saudade.
Da cor do sol.
Poente.



Velhos muros


Velhos muros que pulamos.
Flertes de mistério com traço de molecagens.
Muros sem donos.
Sem arrimos.
Muros mensageiros com rasgos de nostalgia.
Do lado de cá, um erro e uma revolução.
Do lado de lá, morte e vida em alvenaria.
Velhos muros que pulamos.

terça-feira, 24 de março de 2015

Do riso


Rimos
e rimos tanto
que de nós mesmos nos rimos
e rimos
e tanto rimos
que do riso fez-se o rumo
que de nós mesmos rumamos...

Haikai ligeiro


Fizeram de você desculpa
que nem a pressa
expressa a sua ligeira fuga

Da definição da poesia



A poesia é movimento
É vento em palavras
É invento de malícias
em território hostil

A poesia é translação
Em torno da revolução
e giro e rotação 
em volta da verdade

A poesia é velocidade
É rapidez de pensamento
É ligeireza de resposta
em forma de asteróide

A poesia é realidade
É incômoda e encantada
É fatalidade e beleza
em terra de cegos e de reis



Surpreendente



A linha do seu corpo surpreende.
Surpreende sua conduta,
tanto quanto a luta da sua justiça.
A linha do seu corpo horizonte.
A linha do seu corpo oriente.
A linha surpreendente do seu corpo celeste.


quarta-feira, 18 de março de 2015

Refrão



Uns chamam história.
Outros, memória.
Eu apenas canto o refrão...


O bonde



Urbano e analógico como trilhos de bondes
enterrados no asfalto antes pedra antes terra
de um território sem dono e com tantos donos
e contadores de histórias e arrendatários e agregados
dentre hostes de proprietários das verdades
ainda que tardias pois meias ou quiçá desinteiras
culturais e corruptas corrompidas pelas lágrimas
que correm pelas calçadas e alcançam as cisternas
cravadas neste solo pátrio desta pátria mãe gentil. 

O bonde se foi.


segunda-feira, 16 de março de 2015

Verticais



Sou um colecionador de luas.
E um andarilho nas estrelas.
Minha estrada é via láctea.
Minha bússola mira o sol.
Entre cometas que por mim passam 
e as pessoas horizontais
prefiro os astros celestes.
Tão mais brilhantes.
Tão mais humanos.

Outras noites



Numas noites havia medo.
Em outras, sonhos.
Havia noites com frio.
Outras, amantes.
Numas noites, lembranças.
Outras eram poesia.
Noites sem brilho, as havia.
Outras brincavam de estrelas.
Numas noites há o presente.
Outras passam...

Dos cortes



Cortes e fios.
A faca não sente dor.
A lâmina não sangra.
A navalha não rasga.
Cicatrizes assinam os cortes
das mortes que não morremos.





domingo, 15 de março de 2015

Nossa Bandeira, de Guilherme de Almeida. Um poema emprestado pela memória de meu pai...




Nossa Bandeira - Guilherme de Almeida


Bandeira da minha terra,
Bandeira das treze listas:
São treze lanças de guerra
Cercando o chão dos paulistas!

Prece alternada, responso
Entre a cor branca e a cor preta:
Velas de Martim Afonso,
Sotaina do Padre Anchieta!

Bandeira de Bandeirantes,
Branca e rôta de tal sorte,
Que entre os rasgões tremulantes,
Mostrou as sombras da morte.

Riscos negros sobre a prata:
São como o rastro sombrio,
Que na água deixara a chata
Das Monções subido o rio.

Página branca-pautada
Por Deus numa hora suprema,
Para que, um dia, uma espada
Sobre ela escrevesse um poema:

Poema do nosso orgulho
(Eu vibro quando me lembro)
Que vai de nove de julho
A vinte e oito de setembro!

Mapa da pátria guerreira
Traçado pela vitória:
Cada lista é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!

Tiras retas, firmes: quando
O inimigo surge à frente,
São barras de aço guardando
Nossa terra e nossa gente.

São os dois rápidos brilhos
Do trem de ferro que passa:
Faixa negra dos seus trilhos
Faixa branca da fumaça.

Fuligem das oficinas;
Cal que a cidades empoa;
Fumo negro das usinas
Estirado na garoa!

Linhas que avançam; há nelas,
Correndo num mesmo fito,
O impulso das paralelas
Que procuram o infinito.

Desfile de operários;
É o cafezal alinhado;
São filas de voluntários;
São sulcos do nosso arado!

Bandeira que é o nosso espelho!
Bandeira que é a nossa pista!
Que traz, no topo vermelho,
O Coração do Paulista!

Nossa Bandeira é um poema de autoria de Guilherme de Almeida, em homenagem à bandeira do Estado de São Paulo.


sábado, 14 de março de 2015

Tango



Dorme aqui Esperança
aos pés da minha tristeza
faz de conta que és criança
entre as rugas de mulher
e quando a música tocar
enchendo de vida o salão
acorda, vem e me tira a bailar
traz em ti a emoção
que esvazia o meu vazio
reflexo olvidado de amor

Das moças




Bailam com graça
as moças do bordel
enquanto bebe de graça
um novo velho coronel
que não vai pro inferno
nem entra no céu
apenas mostra a carteira
e escarra sob o chapéu
enquanto bailam com graça
as moças do bordel...



Muriçocas



No teatrinho de fantoches
Emprestam riso à tragédia
Enquanto a classe média
Vai ao mercado a comer brioches

Da fotografia sem memória



Havia um olhar & era uma câmera.
Os dias em branco&preto.
Um cenário sem ensaio & um improviso.
Praticáveis nus & cortinas imaginárias.
Uma história & nenhuma moral.
A fotografia sem memória & um poeta esquecido.
Um ponto final & outro & outro.
Resiliência & reticências.

Nascer



A cada luta
A cada gesto
A cada palavra
A cada movimento
Atitude a atitude
Viver de verdade
e na Verdade
E se a vida manifesta
em cada alvorecer
-- que resta, senão
entregar-me e renascer?

Essenciais




Orvalhos matinais
e olhos puros
alimentam muito mais
que dias seguros

Dos animais e das fábulas



O primeiro macaco não ouve.
E não é por falta de palavras.
O segundo macaco não fala.
E não é pelo frágil argumento.
O terceiro macaco não enxerga.
E nem por isso não nega.
E nem o sapo-boi foi ao céu.
E nem o jabuti de lá despenca.
Assiste a tudo a coruja,
que sentencia:
Cuida, quem usa.



Das amenidades




Deu no jornal,
numa pequena nota
imaginária como a plenitude:
enquanto planto idades,
colho minhas próprias
amenidades

O grito



Meu grito mudo
Não muda o mundo
Mas emudece os cegos
E cega os falsos ídolos
Meu grito mudo
Para tantos, é nada --
mas para mim é tudo


Do mistério e do tempo



Em um centésimo de segundo fotografo um beija-flor
Em um segundo tomo decisões
Em três segundos brado palavras de ordem
Em quinze segundos cantarolo refrões
Em trinta segundo faço um comercial
Em um minuto, exatamente, beijo na boca
Em três minutos e meio ouço minha música
Chego em cinco minutos, talvez atrase
Em oito minutos faço uma nova poesia
Em dez minutos leio uma crônica
Em quinze minutos me preparo para sair
Em meia hora a aula termina
Em quarenta e cinco minutos o prato fica pronto
Em uma hora rio, choro, rio novamente, choro mais
Em oito horas cumpro um expediente
Em uma noite durmo poucas horas
Em nove horas e meia o sol dormirá vermelho
Em um dia vivo vinte e quatro horas
Em dois dias mudo meu destino
Em uma semana vejo o mundo mudar
Em um mês, em trinta dias, um outro mês
Em seis meses viajarei novamente
Em um ano comemoro o dia de hoje
E no controle dos segundos, dos minutos,
das horas e dos dias
Perco-me no tempo e nem percebo
que os anos passaram
Tantos anos...


segunda-feira, 2 de março de 2015

Possíveis epitáfios para um homem de Bem



Aqui jaz um homem com H
Aqui jaz um homem justo
Aqui descansa um homem que não se entregou
Aqui jaz um idealista
Descansa aqui um homem que não abriu mão da Verdade
Aqui jaz um homem que amou
Descansa aqui um simples homem simples
Meus amigos, os tive até agora
-- o que quer dizer que os terei para sempre
Algumas concessões, nenhum arrego
Amor e humor até o fim, não necessariamente nessa ordem
Descanse em paz -- mas jamais dê paz aos que descansam eternamente em berço esplêndido




Piratas e corsários



Dos mares e das terras, das terras e dos ares
fizeram-me pirata nas imundícies
e corsário das sandices.
Sem maldade: 
minha loucura é a loucura da tua mediocridade.


Meus olhos



Meus olhos enxergam cada vez menos.
Mas meu coração, cada vez mais.
Como são boas as declarações de amor.
Amo meus amigos.
Amo meus amores - atuais e idos.
Amo o cheirinho de azedo do suor na cabeça do meu neto Davi.
Amo a Verdade.
Amo os homens - e mulheres de verdade.
Amo o conteúdo tal qual amo o continente.
Amo Jorge Amado.
Amo e sempre amarei meus pais.
Como sempre e como nunca mais.
E das profundezas do triste,
onde os poderosos insistem
e os homens de bem resistem,
amo a luta nossa de todo dia.
Meus olhos enxergam cada vez menos.
E meu coração enxerga cada vez mais.

Da humilde humildade



orgulha-te deste amigo
que lutou pela humildade
que apenas preserva sua humanidade
que nunca trocou de lado nem vacilou na verdade
que preferiu o ostracismo ao holocausto
que preteriu a mentira
que insistiu e bateu na mesma tecla
que foi coerente e resiliente
que sorriu ao te rever amigo
e assim
orgulha-te deste amigo
que te amou ao último suspiro
e ainda depois e apenas
a duras penas